Experiência de si (Monticelli)

(RMAP:226-228)

[…] Consideramos o rosto — no sentido amplo — das pessoas: a presença pessoal, a subjetividade que vemos de fora. Não aquela, no entanto, que se vive de dentro. Pelo menos ainda não. A empatia percebe uma vida de fonte, mas não é essa vida de fonte: sente a alegria e a dor do outro, mas não as experimenta.

(Não se deve, de forma alguma, confundir empatia com contágio, a capacidade de acolher em si a vida de outro com o apagamento dos limites entre o outro e eu. O contágio afetivo decorre de uma confusão que não é apenas um dos “ídolos do autoconhecimento”, mas que talvez seja o ídolo mais terrível, pois pode substituir a consciência individual pelo sentimento da massa e a responsabilidade pessoal pela irresponsabilidade dessa besta acéfala… [É a terrível psicologia das massas que engole os indivíduos. Fenômeno que nossos fenomenólogos, que viveram na Alemanha até a beira da catástrofe nazista, não apenas conheceram dolorosamente, mas também estudaram lucidamente.]).

A empatia é a percepção de uma vida de fonte do outro — a empatia não é essa vida de fonte. O que equivale a dizer: Einfühlung não é Einsfühlung, a empatia não é “unipatia”. Pressupõe dois sujeitos distintos, cada um com um ser que se vive de dentro, uma “vida interior”.

A análise da empatia e de seus dados nos mostrou de que maneira essencial uma pessoa se distingue de um autômato (por exemplo), mas não nos disse, e não poderia fazê-lo, em que consiste exatamente o fato de se viver como um eu, que é a característica essencial, aparente e visível de uma pessoa.

E essa visibilidade, essa aparência, esse “rosto” das pessoas também era nosso argumento contra o solipsismo, se houvesse necessidade de tal argumento. Na vida comum, distinguimos, após um momento, as entidades que têm uma vida subjetiva — mais ou menos desenvolvida — daquelas que não têm nenhuma. O solipsismo, esse problema inventado pelos filósofos, é refutado quando se percebe que há um tipo de experiência que, em relação aos sujeitos que nos coloca diante dos olhos, é tão confiável quanto a percepção externa em relação aos objetos sensíveis. Tão confiável e tão falível, é claro: pois não saímos precisamente do domínio da experiência, que é o da tentativa e erro, da correção e da verificação até prova em contrário. Restava-nos, portanto, abrir os olhos para o fenômeno da subjetividade vivida, onde ela se manifesta com todo o corpo e o jogo das expressões, os atos e os estados, os comportamentos e as disposições de uma pessoa. Notamos até uma diferença surpreendente entre os aspectos da vida interior: alguns, os aspectos essencialmente afetivos e conativos, manifestam-se, enquanto outros, a saber, os aspectos “puramente” cognitivos, não se manifestam.

Mas, ao dizer qual é sua aparência, não dissemos em que consiste exatamente essa subjetividade vivida, ou melhor, essa vida dada de dentro, enquanto tal, enquanto vivida. Ainda não nos ocupamos da fenomenologia da vida de fonte.

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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