Estratificação da vida afetiva e profundidade da pessoa

(RMAP:237-238)

[…] O que significa, em última análise, conhecer a si mesmo? É no sentir que nos encontramos a nós mesmos, como vimos. No entanto, um encontro é apenas um limiar, o início de um possível percurso de conhecimento. Mas também vimos que somos dados a nós mesmos na ação, ou por meio dela.

Só que há uma diferença aqui. Uma ação, uma decisão, uma vontade, não pode ocorrer em primeiro lugar. Primeiro vêm os sentimentos que a motivam. Mesmo que esse “primeiro” não deva ser entendido no sentido temporal. Trata-se, antes, de uma relação de fundamentação que liga o afetivo ao conativo, uma relação que não pode ser invertida, mesmo que seja necessário desenvolver plenamente essa parte central de uma teoria da pessoa que é a teoria da motivação para demonstrá-lo.

Também vimos que, assim como uma ação pode envolver uma parte maior ou menor de mim mesmo, uma vivência afetiva pode [238] me tocar mais ou menos profundamente. E eu estarei mais ou menos envolvida em uma ação dependendo da profundidade dos sentimentos que a motivam. Descrever a estrutura dessa “profundidade”, desse “espaço interior”, é descrever o conjunto de valores em relação aos quais se define, para cada indivíduo, a ordem daquilo que lhe é caro. A identidade pessoal de cada um é uma função de seu sistema de preferências axiológicas — o que é, com poucas diferenças, sua identidade moral, no sentido amplo, muito amplo do termo. Scheler preferia falar do ethos das pessoas, que é sua fisionomia axiológica, o que as torna mais sensíveis a um tipo de valores do que a outro: e isso em todos os domínios de valores possíveis (éticos, estéticos, cognitivos, práticos, etc.). É uma ordem que cada um descobre ao longo da vida, peça por peça, por assim dizer, e que define o perfil essencial, embora sempre muito incompleto e nunca definitivo, de sua individualidade.

A análise da estratificação típica da vida afetiva é a peça central da psicologia fenomenológica da pessoa: ela foi inicialmente esboçada de forma genial por Scheler e desenvolvida posteriormente de maneiras bastante diferentes por von Hildebrand, Stein, Geiger e outros.

Retomemos, portanto, com eles, o fio condutor da linguagem comum, que nos faz dizer, por exemplo, que estamos mais ou menos “profundamente” ou “intimamente” envolvidos em uma experiência afetiva. Ou, como também se diz, que estamos envolvidos com uma parte maior ou menor de nós mesmos.

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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