Empatia em sentido amplo e vias do conhecimento pessoal

(RMAP:214-217)

Compreender uma personalidade que viveu em outros tempos através dos vestígios que restaram, por exemplo. Certamente, não é apenas a empatia que está em jogo nesse caso – há também um grande trabalho de hipóteses e indução. No entanto, se não houver uma espécie de intuição empática básica, talvez falte o essencial para a reconstrução de uma vida e de seu “espírito”. Esta é a lição que muitos grandes historiadores e todos os grandes biógrafos nos dão. A percepção psicológica de personalidades distantes no espaço e no tempo a partir de seus vestígios é um dos “limiares” possíveis de um “percurso” de conhecimento pessoal: o conhecimento pessoal conjectural, biográfico e histórico.

Mas a perspectiva de Edith Stein é ainda mais ampla. Sua definição engloba toda a esfera da experiência religiosa – a experiência que o crente, ou pelo menos um certo tipo de crente, tem de seu Deus: quando reza, quando participa da liturgia, quando “acolhe” o amor de seu Deus ou sofre sua ira, quando sente sua ausência, quando é chamado por Ele.

Finalmente, há outro modo de empatia que abre caminho para um outro tipo de investigação, o “limiar” de outro percurso de conhecimento pessoal. É o percurso místico no sentido próprio. O conhecimento pessoal que se busca ali – e que sem dúvida pressupõe um encontro – renova e aprofunda o conhecimento do divino, que é descrito pelos místicos de todas as épocas como um aprofundamento progressivo do autoconhecimento.

É na filosofia da mística que se desenvolve primeiramente a linguagem da “profundidade” ou da amplitude do “espaço” interior. Não pensamos tanto na literatura mística em geral, mas na reflexão sobre o caminho místico do conhecimento pessoal, a partir de certas páginas de Agostinho, fundamentais para nossa tradição. É ali que se expressa, talvez pela primeira vez, a intuição [215] desse modo específico de transcendência da pessoa que chamamos de sua individualidade essencial. O percurso cognitivo do místico é sempre descrito como um “itinerário do espírito para Deus”, onde as “moradas” e os “graus” pelos quais passa o ponto de vista do eu assemelham-se às camadas da afetividade pessoal de que falam os fenomenólogos desde Scheler. Ou seja, a essas “camadas” de profundidade ou interioridade de nosso ser que todos aprendemos a conhecer quando sentimos, por exemplo, que a perda de uma pessoa amada nos atinge “mais profundamente” que a perda de uma joia, ou que o amor por nosso filho é mais profundo que o amor por nosso gato.

Eis por que a fenomenologia do caminho místico do conhecimento pessoal exigiria por si só um estudo. É ali que a ideia – que encontramos em toda parte onde se fala de conhecimento pessoal – é levada ao extremo: conhecer a si mesmo é conhecer o que temos mais no coração, e só acolhendo esse outro que nos é caro é que esse próprio coração recebe a vida. Essa estranha verdade segundo a qual só nos conhecemos mais profundamente “vivendo” mais profundamente, mas só vivemos mais profundamente “nos recebendo” das mãos de um outro, por assim dizer. De outra individualidade essencial – e, para o crente, de seu Deus. Quem quiser salvar sua alma a perderá…

Mas não podemos nos deter nesse caminho possível do conhecimento pessoal. Observaremos apenas que o trabalho estritamente fenomenológico de descrição dessa via, apesar da abundante literatura existente sobre o tema, está em grande parte ainda por ser desenvolvido. Não é por acaso piedoso que Edith Stein tenha se debruçado tanto sobre a vida dos místicos, especialmente certos reformadores de sua ordem: Teresa d’Ávila e João da Cruz 1. Foi [216] não apenas como carmelita, mas como pensadora que Edith Stein se interessou pelo núcleo teórico, filosófico do caminho místico que leva ao conhecimento de Deus. Como atesta seu ensaio sobre o Pseudo-Dionísio 2. Ousaríamos mesmo dizer que Edith Stein é uma grande fenomenóloga da espiritualidade mística, mais que uma grande mística ela mesma.

A empatia pode, portanto, ser a fonte de diferentes caminhos do conhecimento pessoal. Mas no último caso que vimos – o encontro do crente com seu Deus –, a fenomenologia da empatia no sentido próprio ultrapassa, em nossa opinião, os limites da empatia em sentido amplo. Ou melhor, da experiência da vida de um “quase-sujeito”. Essa noção de “quase-sujeito” pode, por um lado, aplicar-se a um modo de ser de uma pessoa que não é o da pessoa finita 3.

Por outro lado – e talvez com mais razão –, aplica-se à experiência de coisas que dependem ontologicamente, de modo estrito, da existência de sujeitos pessoais. Entre elas, as obras, e especialmente as obras de arte e os objetos estéticos. Esse sentido mais amplo do termo pode ser derivado do sentido mais estrito. Os fenomenólogos o herdaram da tradição de estudos psicológicos que remonta a Theodor Lipps, mestre de vários deles.

Já citamos os estudos de Geiger sobre a empatia estética e, em particular, sobre a [217] empatia com a paisagem. Mas, de modo mais geral, não é por acaso que a estética é um dos terrenos mais férteis da teoria fenomenológica – e que o conhecimento pessoal crítico-estético, o encontro e o percurso através da “profundidade” de uma obra, é um dos exercícios que os fenomenólogos mais praticaram. Há aqui melhores teóricos e melhores “viajantes”… 4.

  1. Stein (1936), (1942), (1985).[↩]
  2. Stein (1941). Parece-me que a contribuição verdadeiramente duradoura dessa carmelita beatificada está no que ela soube dar, até seus últimos dias, como filósofa. Seus escritos “espirituais”, com exceção dos dedicados à fenomenologia do misticismo, não parecem particularmente notáveis. Em todo caso, não têm a profundidade e o brilho de suas páginas teóricas.[↩]
  3. Ser finito e ser eterno é precisamente o título da grande obra ontológica de Stein, que ultrapassa voluntariamente os limites de toda fenomenologia pura, na medida em que pressupõe em quase todas as suas páginas o encontro com a Pessoa infinita – que não é dada à vontade e certamente não a todos. Cf. Stein (1935-1936).[↩]
  4. A esse respeito, a coletânea de textos já citada de Pinotti (1997) é muito útil.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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