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Compreender a Fenomenologia

DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : Une pratique concrète. Paris: Armand Colin, 2012.

Da teoria à prática

  • A fenomenologia husserliana, radicalizando o modelo cartesiano de cientificidade, confere ao ego transcendental o estatuto de fundamento absoluto, o que os fenomenólogos posteriores tentam superar por meio de dimensões práticas da experiência do sujeito.
    • Husserl parte do cogito de Descartes e do Eu da apercepção de Kant para fazer da apodicticidade do ego o critério último de verdade universal e necessária.
    • Heidegger enfatiza as tonalidades afetivas e a experiência do morrer.
    • Sartre enfatiza a liberdade e o sentido da contingência.
    • Merleau-Ponty enfatiza o primado do tato e da carne.
    • Levinas enfatiza a exposição ao outro e a ética da desmedida.
    • M. Henry enfatiza a autoafecção como gozo e sofrimento.
    • J.-L. Marion enfatiza o fenômeno saturado em contraste com o fenômeno erótico como fenômeno rasurado.
  • Essa leitura da história da fenomenologia permanece limitada, pois reduz a visão da obra de Husserl e trata a suposta conversão prática dos pós-husserlianos como ainda regida pela coerência lógico-hermenêutica, e não pela evidência intuitiva.
  • A fenomenologia husserliana não se reduz a uma teoria do conhecimento dos objetos, pois a percepção se aprofunda pela lembrança, pela imaginação e pela empatia, completando-se, no método genético, pela afeição que aprimora a percepção e desloca o sujeito doador de sentido para um sujeito exposto e afetado.
    • No Husserl dos anos 1920 emerge uma problemática prática centrada no vivido de outros sujeitos — seus hábitos, seu saber-fazer, seus laços sociais, sua ética pessoal.
    • Destacam-se experiências-limite como a morte de um próximo, o nascimento de um filho ou o casamento de amigos, além de crises profissionais, dramas de casais e catástrofes familiares ou sociais.
    • Ressalta-se a dimensão histórica, comunitária e política de uma prova que não é puramente individual.
  • A crítica unânime dos pós-husserlianos a Husserl deve ser medida pelas próprias propostas construtivas desses autores, cujos conteúdos privilegiados acabam formalizados em ontologia ou ética, funcionando como substitutos de uma epistemologia do conhecimento.
    • Citam-se a temporalidade afetada, o aniquilar-se da consciência, a carne do mundo, a exposição ao outro, o gozar e o sofrer, a saturação e a rasura do fenômeno.
  • A prática é tradicionalmente definida por negação como o não-teórico, o que explica seu descrédito desde Aristóteles, para quem só há ciência do geral, isto é, da essência ou do ser.
  • Cabe perguntar como o próprio método da fenomenologia, a redução, sempre tomada desde Husserl e seus sucessores como justificativa a priori da verdade do conhecimento do sujeito, pode representar o cerne mesmo da prática inerente à fenomenologia.

Praticar a fenomenologia: “ver” a experiência, “interrogar” os preconceitos

  • Praticar o método fenomenológico exige deslocar-se para fora dos quadros que alimentam a ilusão de que a fenomenologia conteria uma dimensão prática em seus temas, o que implica praticá-la contra o próprio Husserl e contra seus críticos pós-husserlianos.
  • À pergunta de um estudante sobre como praticar a fenomenologia, responde-se deslocando o interesse das experiências exóticas artificiais para o terreno comum dos filósofos, o texto.
    • — “Mas comment donc puis-je pratiquer la démarche phénoménologique ? J'ai beau essayer, je n'y parviens pas. Comment faire ?”
    • Interroga-se se a relação com o texto é de instrumento, fim ou suporte.
    • Distingue-se o critério exegético de compreensão de um texto, sua coerência interna lógica e contextual, do critério fenomenológico, de ordem intuitiva.
    • Pergunta-se se o sentido depositado no texto é alimentado pela experiência nele inscrita e pela ressonância com a experiência do outro, ou se permanece subordinado à competência filosófica sobre o autor e à rigor lógico do propósito.
  • A resposta final ao estudante propõe considerar o texto não como objeto fechado e autofinalizado, mas como suporte provisório, contingente e encarnado de uma experiência determinante, cuja visão equivale a ter dela uma intuição e tomar a evidência interna como único critério autêntico de validade do discurso filosófico.
  • Praticar a fenomenologia consiste em exercitar-se a ver realmente aquilo de que se fala e que se lê, efetuando de fato a experiência no momento da leitura ou da escrita, o que supõe desviar-se da busca pela coerência interna do texto e voltar-se para a vitalidade heurística que sustenta sua força afirmativa.
  • Husserl nomeia epoché o gesto de deslocar o olhar para ler de outro modo, colocando entre parênteses os conteúdos pré-dados.
    • Transformar a epoché em operação efetiva, e não apenas exigência ou ideal formal, significa ler à espreita do que não é dado naturalmente, suspendendo o primeiro sentido para deixar emergir uma significação mais profunda.
    • Pratica-se também a epoché ao adiar a escrita imediata do que se pensa sobre uma questão, deixando-a amadurecer e acolhendo a justeza do propósito.

Fenomenologia e não-fenomenologia

  • A fenomenologia propõe permanecer numa atitude de abertura em que o sentido reside na indecisão de uma não-doação sempre possível, de modo que toda fixação antecipada do sentido remete a um pensamento não-fenomenológico, isto é, “fabricado”, restando em aberto se existe um pensamento não-fabricado.
  • O praticante age sem questionar previamente, com um pensamento constantemente recomposto pela experiência nova.
    • Evoca-se a pensée interrogative de Merleau-Ponty.
    • Evoca-se o questionamento privilegiado por Sócrates, que jamais escreveu.
    • O fenomenólogo, como o praticante, nada presume e mantém abertas todas as portas da existência.
  • O pensamento constitui uma ação por inteiro, ainda que pensar e agir não se identifiquem, pois fazer uma hipótese ou interrogar o sentido de um enunciado mobiliza energia e corpo diferentes dos envolvidos em andar de bicicleta ou brincar com uma criança.
  • A démarche fenomenológica coloca em obra um pensamento em movimento constante, produzindo gestos internos — conversão do olhar, suspensão dos julgamentos imediatos, variação dos fatos — que indicam a situação encarnada do sujeito no mundo.
  • A não-fenomenologia caracteriza tanto a filosofia que estabelece sistemas, conceitos e doutrinas sem jamais interrogá-los quanto uma vida prática dominada pelo maquinal e pelo rotineiro mortíferos, ou voltada apenas ao resultado objetivado da ação.
    • Cita-se o exemplo da repetição diária e irrefletida dos gestos ao preparar o café da manhã.
  • O maquinal não é apenas negativo e mortífero, pois há também uma eficácia a serviço da vida, da liberdade e da relação, mesmo quando a rentabilidade frequentemente aprisiona e afasta dos outros.
  • A analogia simples entre pensamento e não-fenomenologia, de um lado, e ação e fenomenologia, de outro, deve ser questionada, pois o pensamento pode ser fenomenológico quando portado pela vitalidade do questionamento, e a ação não-fenomenológica quando essencialmente maquinal ou objetivante.
  • O critério do fenomenológico em relação ao não-fenomenológico corresponde ao vital em face do mortífero, à vida subjetiva em face do objetivante, distinção que se modula conforme a inflexão natural para a fixação e o apego ou a força do esforço contrário à rigidez.

Retorno às coisas elas mesmas

  • A démarche fenomenológica se condiciona pela adesão inquebrantável à experiência em sua nudez primeira, exigência que pode soar exorbitante ou arcaica ao ponto de parecer inconcebível.
  • A palavra de ordem husserliana não implica um olhar míope colado às coisas, mas voltar a atenção para a experiência em curso, reduzindo projeções, preconceitos e pressuposições, de modo a deixá-la aparecer em sua frescura nativa.
  • A atitude natural e não refletida de organizar e programar o tempo admite duas respostas opostas.
    • As crianças expressam essa necessidade de segurança na pergunta “qu'est-ce qu'on fait aujourd'hui ?”.
    • Pode-se reforçar o controle inventando restrições como garde-fous contra o vazio do tédio.
    • Pode-se, ao contrário, abandonar-se deliberadamente ao instante presente, cultivando a capacidade de acolher o imprevisível e transformar o cotidiano em surpresa.
  • Na experiência compartilhada com outros, a atitude convencional consiste em impor a própria visão ou trazer sempre a conversa para si, expressão de narcisismo exagerado, enquanto a atitude oposta, de deixar sempre os outros decidirem, mergulha numa passividade sofrida e desprezível diante desses decisores.
  • Em relações mais íntimas, amistosas ou conjugais, a atitude imediata de opor-se ou de ecoar para não desagradar revela-se igualmente inadequada, pois em ambos os casos deixa-se de existir por si mesmo, ao passo que retornar às coisas elas mesmas significa abrir horizontes capazes de impulsionar e construir a relação.
  • Em todos esses casos, trata-se de ir contra a tendência mais imediata, presa à dualidade entre dois extremos igualmente inoperantes, de modo que retornar às coisas elas mesmas equivale a apostar na não dualidade da experiência subjetiva.

A descrição e seus limites

  • O retorno às coisas elas mesmas, para ter força de realidade, não pode permanecer inefável, sob pena de recair no que, segundo a palavra-mestra de Wittgenstein, “não se pode falar” e se deve calar — posição rejeitada frontalmente.
  • A virtude da descrição fenomenológica consiste em observar o sentido imanente da experiência do sujeito.
    • Distingue-se da explicação científica que dá conta de um fenômeno produzindo suas causas e efeitos, como em Fechner.
    • Distingue-se de construir a experiência a partir de categorias predeterminadas, como em Kant.
    • Distingue-se de narrar o vivido no âmbito de uma ficção com veracidade de testemunho, como em Ricœur.
  • A descrição fenomenológica possui limites próprios.
    • Sua dimensão eidética em Husserl confere à variação dos fatos, que permite extrair a essência, um acento universalizante que roça a abstração, contrariando a exigência de concretude da fenomenologia.
    • Seu caráter neutro, ligado à epoché que suspende toda posição de valor, aproxima-a de uma posição em terceira pessoa da experiência do sujeito, paradoxo notável para uma démarche que se pretende atenta à singularidade da subjetividade.
  • Complementos bem-vindos para encarnar a démarche descritiva incluem a promoção de um relato da experiência no campo da psicologia, resolutamente em primeira pessoa, a mobilização da noção de expressão de Wittgenstein para dar conta de uma situação hic et nunc da experiência do sujeito, e a ênfase no processo de produção de sentido segundo o linguista Guillaume, que registra a natureza dinâmica da linguagem, denominada em linguística “praxemática”.
  • Anuncia-se a estrutura da obra em três partes.
    • A primeira parte trata de como a fenomenologia foi posta em obra pelos próprios fenomenólogos, de como a tradição pragmatista pode dialogar com ela em vista de sua transformação prática, e de como foi moldada por seus múltiplos “exteriores”.
    • A segunda parte explora como os diversos campos experienciais são reelaborados, como o método se encarna em gestos precisos e como se refunda a descrição.
    • A terceira parte apresenta gestos, figuras e situações da história da filosofia que respondem arqueologicamente a antecipações do método fenomenológico, e discute a importância de uma démarche prática em fenomenologia nos debates atuais de ética e na gestão do cotidiano.

A prática como epistemologia fenomenológica

  • A apresentação conclusiva parte de uma boutade segundo a qual todos seriam no fundo pragmatistas, inventando-se teóricos apenas para obter uma caução de seriedade junto a uma comunidade filosófica em parte mítica.
    • — “nous sommes au fond tous des pragmatistes, et nous nous inventons théoriciens pour obtenir une caution de sérieux auprès d'une communauté philosophique d'ailleurs en partie mythique.”
  • Essa afirmação, que poderia ser de Nietzsche, remete substancialmente a William James, que define o pragmatismo como método de libertação do espírito e transformação da relação com a realidade fenomenal.
    • Esses traços ressoam com o gesto revolucionário husserliano da epoché como afrancamento da pré-doação do mundo.
    • Ressoam também com a mudança radical de atitude do sujeito diante de objetos, eventos e outros.
  • O projeto de compreender a fenomenologia como prática se inscreve nesse duplo horizonte epistemológico, entendendo a essência intuível não como representação, mas como aquilo que faz agir num sentido determinado.
    • Conhecer significa saber agir sobre uma realidade numa situação singular encarnada.
    • Critica-se o fechamento do conhecimento sobre si mesmo em totalidades teóricas e abstratas, próprio dos racionalistas cartesianos, pós-cartesianos e kantianos.
    • O pragmatismo se volta para o que está em curso de se fazer, chamando à alteridade — a si mesmo e aos outros campos disciplinares — como motor da pesquisa filosófica pela prática.
  • A distinção entre teoria e prática não opõe uma atividade especulativa e científica a uma atividade utilitária e técnica, mas designa duas atitudes: uma retrospectiva, que vem depois da ação para pensá-la, outra prospectiva, que acompanha a ação a se fazer.
    • O filósofo praticante toma os conceitos como guias e pontos de orientação da ação em curso.
    • O fenomenólogo se apoia nos argumentos conceituais e textuais como suportes rigorosos de descrição de uma experiência que permanece o critério último da evidência.
  • Se o conceito é o que faz agir, pensa-se um pensamento não por si mesmo, mas para engendrar outro, de modo que se pensa para agir, implicando sempre um momento em que se arrisca no indeterminado sem certeza sobre as conexões futuras.
  • O próprio processo do conhecimento constitui uma prática por excelência, na medida em que se constrói em séries encadeadas e muitas vezes imprevisíveis de ideias, racionalizáveis apenas a posteriori.
    • A fenomenologia acentua a descrição da gênese dos fenômenos, externos ou internos, e promove o método da epoché, diferenciado em conversão, suspensão e variação, acompanhando esse movimento de emergência do pensamento em ato.
    • A passagem de uma ideia a outra constitui o foco de atenção do praticante fenomenólogo, não explicável apenas pela racionalidade como coerência interna.
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