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Sujeito da surpresa

Le sujet de la surprise: Un sujet cardial. Zeta Books, Bucarest, 2018

  • Prólogo (Rosemary Rizo-Patrón de Lerner)
  • Introdução
    • Situação
    • Problemática
  • CAPÍTULO I: A dinâmica e suas variações
    • 1. Surpresa!?
    • 2. As variações em micromodelos
  • CAPÍTULO II: Estrutura primeira: a atenção
    • 1. Atenção e surpresa: os dois pratos da balança
    • 2. Fragmentos arqueológicos erráticos: situações hipofilosóficas sem narração hermenêutica
    • 3. Alerta, ativação, sobressalto: os nomes científicos da atenção e da surpresa
    • 4. Fenomenologias da atenção e da surpresa: defeito ou excesso
    • 5. A dinâmica da atenção e da surpresa: Paul Ricœur entre Martin Heidegger e Paul Valéry
  • CAPÍTULO III: Estrutura segunda: a emoção
    • 1. O lugar da surpresa nas teorias das emoções
    • 2. O lugar das emoções na teoria da surpresa
  • CAPÍTULO IV: Interações entre o corpo, o coração e o cérebro: cardiofenomenologia, epistemologia da surpresa
    • 1. Da neurofenomenologia à cardiofenomenologia
    • 2. Argumentos práticos operacionais
    • 3. Argumentos teóricos
  • CONCLUSÃO: O sujeito cardial, o sujeito da surpresa
  • ANEXOS: A surpresa em modelos

Prólogo a Fenomenologia da surpresa: um sujeito cardial

Rosemary Rizo-Patrón de Lerner

  • 1. A trajetória filosófica ali empreendida começa a abordar temas relativos à transcendência e encarnação da consciência, traduzidos na paradoxal lucidez e opacidade do corpo próprio, e seu papel na constituição da intersubjetividade, expandindo-se a partir daí os interesses em direção original, nutrida por vastíssimas leituras que incluem não só aportes da história da filosofia, mas também representantes alemães e franceses da tradição fenomenológica continental (“heresias”, no dizer de Ricœur), devendo-se o caráter propriamente inovador da obra ao fato de submeter paulatinamente sua “fenomenologia experiencial” ao diálogo com os desafios ontológico-epistemológicos procedentes de investigações psicológicas, psiquiátricas, neurológicas, científico-cognitivas e antropológicas, incorporando-se ainda reflexões de índole metafísica, existencial e mesmo religiosa.
  • 2. Constitui ponto de inflexão fundamental o encontro e colaboração com o neurobiólogo Francisco Varela e o psicólogo Pierre Vermersch, entre 1995 e o falecimento precoce de Varela em 2001, tendo este, discípulo e depois colaborador de Humberto Maturana, fundado com ele a “teoria cognitiva de Santiago”, prosseguindo trabalhos iniciados com o nascimento das ciências cognitivas por volta de 1970, que já substituíam o conceito cartesiano de mente como res por o de processo, caracterizado por padrões organizados comuns a todo organismo vivente, batizando Maturana e Varela de autopoiese os processos de autopreservação de todo organismo vivente e de cognição a interação construtiva desses organismos autopoiéticos com seu entorno.
  • 3. Tendo as ciências cognitivas, vinculadas à tradição analítica, incorporado aportes da física quântica e da interpretação não linear de redes neuronais, tomaram elas conhecimento da fenomenologia e do aporte husserliano do conceito de intencionalidade graças aos debates travados por Hubert Dreyfus desde 1984, privilegiando este os modelos de Heidegger e Merleau-Ponty, mais pragmáticos e encarnados, por considerar a aproximação transcendental husserliana incapaz de reproduzir as capacidades do ser humano.
    • Denominou-se essa nova direção “enativista”, abordando-se o processo cognitivo não como posse de representações mentais de mundo pré-dado, mas como interação ativa (“enação”) de mente encarnada com seu entorno, pela qual a mente se autoconstitui e ao mesmo tempo constitui (“faz advir”) um mundo com sentido.
  • 4. Foi a colaboração de Natalie Depraz com Varela e Vermersch, em torno do fenômeno da tomada de consciência (becoming aware) e da atenção, determinante para a mudança de valoração do potencial aporte da própria obra de Husserl, transparecendo tal influência no artigo de Varela “Neurophenomenology: a Methodological Remedy for the Hard Problem” (1996), remédio ao “problema cognitivo” de David Chalmers, o da origem da “consciência de si”.
  • 5. Expande a própria Natalie o aparato metodológico e conceitual da fenomenologia em diálogo com as ciências cognitivas, redirecionando sua prática fenomenológica para investigação batizada “cardiofenomenologia”, que privilegia de modo crescente o elemento experiencial cognitivo-afetivo, expondo o livro, desde a introdução até a conclusão, objetivos, elementos conceituais-metodológicos e resultados desse tipo de investigação, ilustrados por múltiplos exemplos experienciais da vida diária.
  • 6. Requer justificar, antes de tudo, o papel central que ocupa a experiência da surpresa na consciência e na vida, notação à qual não se deu relevância alguma na história da filosofia, da metafísica, da lógica ou da epistemologia, dedicando-se a essa justificação as duas seções da introdução, destacando-se sua presença contínua, de intensidades diversas, na existência cotidiana, vinculada essencialmente à estrutura temporal de toda experiência consciente, especificamente a sua dimensão futura, sempre “esperada” mas, em última instância, aberta e indeterminada quanto a seu quê.
  • 7. Propõe-se traçar um “mapa da surpresa” em sua dinâmica, modalidades e estrutura interna, cujos elementos são precisamente a atenção e a emoção, esboçando-se sete micromodelos que nem se opõem nem se classificam segundo escalas valorativas: os três primeiros, excludentes, potenciam a atenção à custa da surpresa, podendo gerar patologias (atenção absorta ao sobressalto passivo; surpresa ativamente antecipada e “eliminada”; surpresa antecipada mas malentendida); os três seguintes, de integração interna, potenciam a surpresa à custa da atenção (cultivando forma de disponibilidade; esperando-a atentamente de modo receptivo; integrando-a instantaneamente sem sedimentação); podendo por fim tais modalidades alcançar ponto álgido na meditação mística, na abertura estética ou na atitude ética, convertendo-nos no “sujeito da surpresa”.
  • 8. Reaparece assim, em sua dinâmica temporo-intencional, na “microfenomenologia” das experiências perceptivo-atencionais (expectantes) e emotivo-sentimentais (ressonantes), o fenômeno da surpresa que “desaparece” sob a filosofia e seus conceitos, desenvolvendo-se, com esse quadro teórico, os quatro capítulos do livro, expondo o primeiro, com exemplos experienciais e entrevistas, a dinâmica temporal da surpresa em seus sete micromodelos, aos quais se somam dois modelos prévios e fundamentais, o micromodelo 0 e o 8, espelhados um no outro e enlaçados em “laço”, constituindo “duplo fundo” de tipo coletivo, sociopolítico e eclesial-escatológico.
  • 9. Descreve-se esquematicamente a dinâmica estrutural da surpresa (atenção/emoção, com correlação entre o elemento subjetivo-surpreendido e o objetivo-surpreendente) em seus três momentos — espera, ruptura e ressonância —, tendo indicadores tanto cognitivos quanto fisiológicos, aderindo-se a eles microfases valorativas positivas e negativas de intensidade diversa.
  • 10. Decompõem o segundo e terceiro capítulos as duas estruturas da dinâmica da surpresa, atenção e emoção respectivamente, desenvolvendo o segundo a relação paradoxal, vinculante-desvinculante, entre atenção e surpresa, distinguindo Natalie a atenção-concentração da atenção-vigilância de caráter aberto, percorrendo primeiro marcos da história da filosofia desde Agostinho até o século XVIII e depois os principais aportes de psicólogos e filósofos dos séculos XIX e XX.
  • 11. Refere-se ao aporte da fenomenologia transcendental husserliana, sua crítica ao psicologismo e busca de estruturas a priori dos fenômenos experienciais, reprochando-lhe, a ele e a seus seguidores (Heidegger, Merleau-Ponty, Levinas, Scheler, Fink, Sartre, Henry), não terem dado importância alguma à surpresa ou à atenção, ainda que todos tenham reconhecido o papel das emoções, reconhecendo, contudo, o interesse que Maldiney e Marion prestaram à surpresa, destacando que Husserl assinalou a interrupção da continuidade temporal da experiência com a surpresa, e que Paul Ricœur não só advertiu tal dinâmica desde 1950 como se perguntou se é possível uma filosofia do “coração”.
  • 12. Aborda o terceiro capítulo a emoção, segunda estrutura da surpresa, debatendo se esta é uma emoção entre outras, examinando numerosas teorias científicas e filosóficas, reduzindo os fenomenólogos em geral a surpresa a mera reação orgânica ou animal, ainda que ofereçam aportes indiretos para uma microfenomenologia da surpresa, sendo, no caso de Husserl, o mais afim à surpresa a decepção de expectativa fundada no tipicamente sedimentado.
  • 13. Articula-se finalmente, com sólida documentação e exemplos experienciais com medições neurofisiológicas de valências, o lugar e papel das emoções numa teoria da surpresa, determinando-se que esta não é uma emoção, mas momento que a antecede embora repercuta sobre ela e sobre a atenção, manifestando a experiência da surpresa cinco invariantes estruturais: instante de choque e duração; sobressalto fisiológico e cascata recursiva; silêncio-exclamação e verbalização indireta; emoção cognitiva e expectativa atencional; e emoção primária e associações emocionais.
  • 14. Contém o quarto e último capítulo, o mais importante, a proposta madurada ao longo de décadas: uma “cardiofenomenologia” apresentada como “epistemologia da surpresa” ancorada na estrutura corpo-coração-cérebro, na qual o coração conecta explicitamente o polo emocional com o corpo, explicando-se a necessidade de dar passo além da “neurofenomenologia” de Varela, que propunha “restrições generativas mútuas” entre estudos cognitivo-neurofisiológicos em terceira pessoa e estudos fenomenológico-experienciais em primeira pessoa.
  • 15. Assinala-se assimetria temporal entre os dados mensuráveis das duas fontes diversas (fisiológico-neuronal e psíquica), capaz de ser corrigida pela cardiofenomenologia, funcionando o coração como dobradiça privilegiada, tendo acesso imediato, em primeira pessoa, às alterações dos batimentos cardíacos (aspecto “cardial”, cardíaco e afetivo), sem consciência das alterações neurológico-cerebrais, aportando as micromedições cardíacas simetria e possibilidade mais clara para as restrições generativas mútuas exigidas por Varela.
  • 16. Desenvolvem-se dois tipos gerais de argumentos, operativo-pragmáticos e teóricos, deslindando-se claramente de reducionismos naturalistas, buscando a neurofenomenologia inicialmente contrastar dados empíricos em terceira pessoa com dados estruturais eidéticos extraídos de intuições fenomenológico-transcendentais em primeira pessoa, implicando, contudo, tal passagem do factum ao eidos certa objetivação do dado experiencial, passo que a proposta cardiofenomenológica busca evitar, permanecendo no nível de microfenomenologia experiencial e descritiva em primeira pessoa.
  • 17. Sendo a experiência cardial mais integradora, capaz de conectar a experiência orgânico-afetiva vivida com a dimensão orgânica fisiológica inconsciente e pré-consciente e ao mesmo tempo medi-la sincronicamente, são-lhe mais úteis as análises transcendentais da fenomenologia husserliana da época genética que as estruturas eidéticas da época estática, destacando-se o “argumento embriogenético com significado ontológico” segundo o qual existe dinâmica pré-neural que outorga ao coração primazia e centralidade no crescimento orgânico, ao qual o cérebro se aliará mais tarde, questão já advertida por Merleau-Ponty em sua conferência A Natureza.
  • 18. Recapitula a conclusão a intenção inicial deste trabalho interdisciplinar que contribui ao diálogo entre ciências cognitivas e fenomenologia, dando a cardiofenomenologia, como epistemologia integradora, passo essencial para superar o problema filosófico tradicional da relação mente-corpo, esclarecendo as interações entre coração e cérebro, graficando o Anexo em onze quadros os distintos modelos da surpresa esboçados desde a introdução.
  • 19. Caracteriza-se a trajetória meteórica de Natalie Depraz por utilizar e renovar criativamente as ferramentas metodológicas fundamentais da fenomenologia transcendental, que Husserl caracterizou em 1913 como ciência ainda incipiente chamada a explorar parte desconhecida do mundo por caminhos antes não trilhados, sonhando Husserl, tanto no artigo para a Encyclopædia Britannica (1929) quanto no epílogo do primeiro tomo das Ideias, com comunidade de fenomenólogos vindouros que, como Natalie, se aventurassem nessa “nova Atlântida”.
  • 20. Diferindo, contudo, a terra prometida sonhada pelo fundador da fenomenologia — o início de filosofia apresentável como ciência rigorosa, condição prévia de vasta ideia de filosofia que descobre a fonte de sentido de toda ciência e cultura — do trabalho de Natalie, que preferiu enfocar a prática experiencial sem abandonar o estrato da primeira pessoa, privilegia ela, bem vista a coisa, o que para o próprio Husserl era exercício imprescindível, “trabalho minucioso” ou de “trocado miúdo”, sem o qual seu ideal de filosofia permaneceria pretensão generalizante vazia e inautêntica.
  • 21. Soube sempre Husserl que seu ideal filosófico jaz no infinito ao modo de “ideia em sentido kantiano”, realizável apenas em processo histórico infinito, também autotranscendendo sua filosofia teleologicamente para a metafísica, a teologia e a ética, e analiticamente para as profundidades afetivas e inconscientes de onde a vida do sujeito encarnado e mortal se constitui passivamente, dimensões pelas quais também transita a obra de Natalie.
  • 22. Compartilha Natalie Depraz convicção profunda com o projeto transcendental da fenomenologia husserliana: que sua vocação científica não constitui mero horizonte externo, mas se irmana com os mais profundos interesses da razão — estéticos, éticos, metafísicos, escatológicos e, em última instância, os da afetividade humana, encarnada e temporal.
  • 23. Continua o livro realizando ideal antecipado por intentos filosóficos prévios — de Hegel e Marx, Kierkegaard e Nietzsche, até Bergson —, que Husserl retomou levando-o à concreção, como expressou Alphonse De Waelhens: deixando de ser explicação distante do mundo e da consciência, a filosofia pretendia doravante ser una com a própria experiência, aspirando a devir essa vida ao alcançar a perfeita consciência de si.
  • 24. Revelou-se tal ideal paradoxal: de um lado, foi a fenomenologia descobrindo a impossibilidade do ideal cartesiano ou hegeliano da absoluta autotransparência da consciência; de outro, constatou que toda tentativa de dar conta de algo — mesmo a experiência vivida mais íntima e afetiva, vinculada em seu mais profundo a nosso corpo vivido e a instintos mais primários, nas fronteiras do inconsciente — passa pela linguagem, pressupondo a “potencialidade posicional” que abarca toda a esfera da consciência, podendo por isso qualquer tese ser transmutada em posição dóxica atual sob forma de proposições dóxicas.
  • 25. Não implicando essa “primazia do dóxico” primazia nem impermeabilidade alguma das esferas afetivas, valorativas ou volitivas que justifique ideia de espectador imparcial ou juízos axiologicamente neutros, constituindo antes mera constatação de que a filosofia, como as ciências, não pode evitar o uso da linguagem e de conceitos, sendo o mérito da fenomenologia não só reconhecer a complexidade do entrelaçamento das esferas teórica, valorativa e volitiva, mas também haver descoberto sua gênese em experiências pré-predicativas, radicadas em processos associativos passivos, pré-conscientes, psicossomáticos e corporais.
  • 26. Aprofunda o trabalho de Natalie essa direção do sujeito consciente-cardial encarnado, fazendo-o de modo sistemático e rigoroso, sobre sólidas bases metodológicas científico-filosóficas, mostrando em que medida a “ideia da filosofia” pode forjar-se sobre fenomenologia científica rigorosa, sem temor de distorcer as bases encarnadas e afetivas do ser sujeito-humano.
  • 27. Sendo Natalie Depraz já bastante conhecida no meio hispano-americano, tendo participado de numerosos colóquios e oficinas fenomenológicos, constitui esta sua primeira obra completa traduzida ao espanhol, com aparato de referências bibliográficas que atesta a amplitude interdisciplinar de suas investigações, oferecendo aos leitores hispanofalantes perspectiva nova ao paradoxal problema da relação corpo-mente, ou matéria-espírito, e ao chamado “problema difícil da consciência”, assim batizado por David Chalmers ao final do século XX.
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