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Prefácio: A Dificuldade e o Prazer da Teologia

Marion2020

  • Há já quase quarenta anos, ousava pretender “que a teologia, de todas as escrituras, causa sem dúvida o maior prazer”
    • Mantém-se isto, com uma reserva: nada também tão difícil, até mesmo doloroso quanto a teologia
      • Onde é necessário avançar-se direto em alto mar, sem fundo e sem fim — duc in altum (Lucas 5,4)
    • Barth, ainda em seus inícios, já colocava em guarda quem quer que se arrisque aí
      • “Toda obra de homem é um esboço, um trabalho prévio, e um livro de teologia mais que qualquer outra obra”
    • Todos os livros produzidos, foram cumpridos como um ciclista sobe as passagens de uma etapa de montanha
      • Com treinamento e método, força e resistência, astúcia e vontade
      • Mas nenhum custou tanto, nem reteve por tanto tempo, justamente porque a ascensão jamais tinha sido tão rude nem tão bela
  • De fato, antes de entregar hoje esta versão em francês, final espera-se
    • Foi necessário, contra todos os usos, publicar primeiramente duas primeiras esboços em línguas estrangeiras
    • Primeiramente, quando a universidade de Glasgow fez a honra de um convite para dar em 2014 as Gifford Lectures
      • Começou uma primeira série de estudos que resultou, em 2016, em uma primeira publicação, Givenness and Revelation
    • Depois o convite da universidade de Regensburg para ocupar a Papst Benedikt XVI-Gastprofessur, na primavera de 2018
      • Conduziu a retomar toda a empresa em uma versão publicada no mesmo ano sob o título Das Erscheinen des Unsichtbaren. Fragen zur Phänomenalität der Offenbarung
    • De fato, desde Le Visible et le révélé, que recolhia já esboços mais antigos e confessava um tema obsessivo
      • Tinha começado a afrontar a questão da Revelação
      • Ou antes da fenomenalidade da revelação em geral, portanto também da Revelação bíblica em particular
        • A menos que seja o inverso: a Revelação como tal abrindo o caso do fenômeno de revelação na fenomenalidade comum
    • Desde um seminário da “Cátedra Dominique Dubarle” no Instituto católico (2011-2016)
      • Depois ao longo de todo o ensino na Divinity School da universidade de Chicago (em particular os seminários de 2013-2019)
      • E enfim durante um trimestre, convidado pela Faculdade autônoma de teologia da Universidade de Genebra (2018)
      • Afundava-se nesta odisseia de longo curso
  • Enquanto não se aventura no domínio teológico, nada mais fácil que denunciar as insuficiências dos teólogos
    • Cedeu-se frequentemente demais a este rito pueril
    • Mas desde que se faz um primeiro passo aí
    • Desde que se cessa de girar em torno da teologia como de uma reserva de primitivos, estranha e aberta, sem defesa
      • Como fazem todos os ateus benevolentes que vêm, sem fé nem lei, divertir-se aí para pilhar alguns tesouros dos quais extraem sua pequena moeda
    • Desde que se vai aí seriamente, isto é, considerando que seja necessário entender aí uma questão e responder a ela em pessoa
      • Então somente se mede a bela dificuldade
  • Dificuldade do conhecimento primeiramente
    • Enquanto em filosofia, basta (salvo se se erige a ignorância em princípio metodológico, como frequentemente na tradição analítica) conhecer os textos gregos, latinos, franceses, ingleses e alemães (italianos também)
    • Aqui é necessário entrar no texto bíblico em todas as suas línguas
      • E para fazê-lo, explorar ao menos um pouco o “Talmude” cristão, os Padres (segundo uma fórmula de Lévinas), latinos e gregos
    • Portanto seguir a história dos dogmas, os autores da Idade Média (alta e baixa)
      • A virada metafísica da teologia moderna (o mais fácil para um historiador da filosofia)
      • E enfim a teia de aranha da teologia dos dois últimos séculos, sutil, armadilhada e armadilhadora, indispensável
  • Mas a verdadeira dificuldade se encontra alhures, literalmente no alhures
    • Um romancista ou um poeta sabe do que fala e pode esperar que seu leitor o saiba também
      • Mesmo se deve ele mesmo expô-lo em suas próprias palavras
    • Um filósofo, se fala verdadeiramente de algo e não apenas de um outro texto (o que não é tão corrente)
      • Pode fazer apelo a uma verificação experimental de sua tese
      • Certamente, deve reconstruir esta experiência para torná-la acessível a um leitor competente
      • Mas a experiência pode, de direito, tornar-se o campo de uma discussão comum, até mesmo de uma convicção partilhada
    • O teólogo não tem este recurso
      • Não que não possa invocar uma verificação experimental do que avança
      • Ao contrário, sabe perfeitamente onde encontrá-la: na prática litúrgica, nos sacramentos, na oração comunitária e pessoal
        • Em suma na vida da Igreja no sentido o mais largo
      • Mas não pode entretanto saber se ele mesmo acede corretamente e plenamente a esta experiência
        • Nem se seus leitores o podem melhor que ele
  • Escrever uma linha de teologia autêntica expõe a uma formidável interrogação, a uma dúvida radical
    • Não sobre aquilo do que se fala, mas sobre aquele que disso fala
    • Um bom teólogo não duvida da existência de Deus (o que de fato não tem nenhum sentido)
      • Mas de sua própria existência (ela, mais que incerta)
    • Não duvida do mistério que visa, mas da elevação de sua visada, de sua própria altura de vista
    • Sabe o que visa, nem que seja porque é atraído aí e segue a inclinação montante e descendente
    • Mas sabe também que visa ainda demasiado baixo, de um elã demasiado curto
      • E, como dizem os ciclistas, que vai “travar” ou “ficar em equilíbrio”
    • E se o dogma permanece uma formulação submetida à retificação escatológica, mais ainda o enunciado teológico
    • Não há teologia sem desenvolvimento, porque nenhuma teologia pode cumprir totalmente a hermenêutica do infinito
    • O teólogo não submerge na má filosofia (aquela que se ignora), nem na ideologia (que quer ignorar tudo fora dela)
      • À única condição de persuadir-se disso
    • O teólogo sabe que não pode ainda dizer bem o que vê, nem ver bem o que visa
      • Mas que deve ao menos visá-lo tanto quanto pode
      • Sua santidade mede sua justeza
    • Mas sabe que esta situação não somente não tem nada de anormal, mas que ela somente o preserva
  • A própria visada resume-se aqui muito simplesmente em algumas questões
    • (I) Por que os primeiros séculos da (melhor) teologia cristã (e aliás judaica) não utilizam nada que caia sob o conceito moderno de “Revelação”?
    • (II) Por que este conceito moderno foi (essencialmente) construído apenas polemicamente por metafísicos e por contraste com o que entendiam pela “razão”?
    • (III) Por que não se privilegiou ao contrário um conceito de Revelação que partiria da fenomenalidade do que se des-vela ou antes se des-cobre, do que se revela entre os fenômenos?
    • (IV) Não se poderia que o princípio dos Sinópticos, “Nada, com efeito, de velado (kekalummenon) que não será des-coberto (ho ouk apokaluthêsetai, revelabitur), nem de escondido (krupton) que não se torne conhecido (ho ou gnôsthêsetai)”, coloque em obra já um modo privilegiado de fenomenalidade?
      • Pode-se localizá-lo e constituí-lo em todas as Escrituras e em toda a tradição?
    • (V) Este des-cobrimento resume-se à acepção comum do “monoteísmo”, ou implica sua reinterpretação a partir da comunhão trinitária?
    • (VI) Empurrou-se a tentativa tão longe quanto se podia, conhecem-se portanto os limites
      • São aqueles que indicava perfeitamente Nicolau de Cusa: “Esforcei-me de submeter-me ao que me tomava, confiando em tua infinita bondade, a fim de que te veja, tu invisível, e tua visão não revelável (ut videam te invisibilem et visionem tuam irrevelabilem)”
  • Resta dizer a gratidão às instituições que permitiram conduzir este trabalho
    • A Universidade de Chicago, o Instituto católico de Paris, a universidade de Glasgow, e a universidade de Regensburg, a universidade de Genebra
    • Aos estudantes e ouvintes que sustentaram com sua paciência e suas questões
    • E os companheiros de sempre, que se reconhecerão ao fio das páginas
    • Para os erros e as insuficiências, retornam a mim
    • O resto, que não me pertence, seguirá
estudos/marion/revelacao-prefacio.txt · Last modified: by mccastro