User Tools

Site Tools


estudos:marion:fenomenologia-negativa-1998

OS DADOS

MARION, Jean-Luc. Étant donné: essai d’une phénoménologie de la donation. 2e. ed. Paris: PUF, 1998.

  • Decisão de definir a fenomenalidade a partir da doação expõe-se enfim a uma última suspeita, em aparência temível: não se limitaria a jogar nela com a ambiguidade de um significante, para pretender atingir um significado que não se teria de fato nem construído, nem justificado?
    • Falar-se-ia assim de doação como de um conceito unificado, ao passo que uma simples analogia (uma paronímia) permitiria colocar em rede termos permanecidos equívocos (es gibt, geben, gegeben, Gabe, Gebung, Gegebenheit), tal como seus usos por diferentes autores
    • Doação não definiria nenhum conceito e mesmo não designaria nenhum fenômeno, mas, como uma ideia geral abstrata, fixaria indevidamente uma confusa ilusão — efeito de linguagem, portanto sem efeito
    • A esta objeção, dois argumentos podem responder: primeiro, não se trata aqui de explorar uma ambiguidade, mas honestamente de constatar o fato; e haveria mais de arbitrário em negar esta ambiguidade patente, que em admiti-la como uma dificuldade ainda a esclarecer
    • Em seguida esta ambiguidade se impõe sem esquiva: doação significa de fato tanto bem seu ato (dar) que seu jogo (dom), até seu ator (doador) e o modo do dado cumprido (caráter de dado)
    • Desde então, por que excluir que esta polissemia resulte de que um conceito nela organiza, distingue e conjunta estas instâncias com uma extrema precisão?
    • Aliás, se se quisesse dela clarificar a ambiguidade ao preço de sua desmultiplicação em termos equívocos, a doação não se esclareceria por isso — perder-se-ia antes, pois seu jogo sustenta-se na articulação de suas acepções possíveis em uma única intriga
    • Pois a doação, como conceito unificado, não sofre talvez de modo algum do jogo de seus significantes, cumpre-se nele inteira ao assim jogar dela mesma com ela mesma
    • Não padeceria assim de nenhuma ambiguidade, se consistisse justamente no jogo de suas acepções diferentes e inseparáveis
    • A objeção não dissolve então a questão da doação, mas a coloca; é preciso aceitá-la, pois em filosofia, se se tem a escolha das questões, não se tem a escolha dos adversários, nem das aporias
  • Convém interrogar explicitamente a inevitável ambiguidade de doação, a fim de articular o conceito de doação
    • Esta dificuldade, que surge com a palavra, deve então se examinar à letra
    • Tomar-se-á então como fios condutores sucessivos o uso francês, depois a tradução do alemão
  • No uso francês já, doação importa uma inelutável dualidade, que lhe afeta o conceito
    • Ao primeiro olhar, enuncia o que se encontra dado, o dom feito, o datum suposto bruto e neutro da doação; só permanece assim que o dom dado
    • O dom permanece então como um ente subsistente e disponível ao mesmo tempo, liberto de todo o eventual processo que o teria tornado de possível, efetivo
    • Assim a doação persiste bem como dom dado, mas, em um outro sentido, desaparece neste dado, que mascara nela o dom dando
    • Por que, desde então, não permanecer sem mais neste dom dado, dado puro e simples, liso de todo traço de origem, virgem do menor fóssil, viúvo de antecedentes?
    • Atendo-se estritamente ao dom, ao dado, ao datum, não se libertaria completamente da ambiguidade — suposta danosa — da noção de doação?
    • Trata-se contudo aí de uma via ilusória
  • O dado, o datum, mesmo reduzidos ao seu fato bruto, portam já neles mesmos a ambiguidade constitutiva da doação
    • Considere-se o caso extremo do dado o mais neutralizado, minimal, esvaziado — o dado de um problema matemático ou físico
    • Imagine-se uma aparência sem fundo, editada abertamente e acessível para todos e cada um, a marca da doação a mais reduzida — a do puro objeto, nomeado também o “sujeito” de uma interrogação distribuído (dado) a candidatos, tal que nele se submete sem reserva para nele ser resolvido, em suma o dado de um objeto submetido ao sujeito que o dissolve
    • Que implica com efeito este dado emprestado ao grau zero da doação? Ao menos que um problema é proposto a quem pode resolvê-lo
    • Mas como se propõe? Pela evidência da coisa mesma colocada à questão; mas esta evidência se impõe por sua vez pela mediação do inventor do problema, que conheça a solução e a dê (o problema de Pappus para Descartes), que a conheça e não a dê (o problema de Fermat para Fermat), ou que a ignore e a busque (o problema de Fermat para nós)
    • A ignorância da solução define aqui não somente o problema (solução ainda desconhecida), mas também os dados (escolha arbitrária das premissas)
    • Sem esta ignorância, os dados não seriam mais, mas se tornariam simples informações, tomadas em uma série e já inteligíveis nela
    • Por esta ignorância de princípio onde me colocam, os dados atestam que me escapam porque me advêm; provam então o movimento de doação que os dá
  • Posição do problema tal como nos propõe seus dados: em exame escolar, os dados do problema têm isto de particular e de evidente, que não sou eu que os escolhi
    • Melhor, só há problema (portanto possibilidade de avaliação ou de concurso) na estrita medida em que os dados me são distribuídos, impostos, onde então não os dei a mim mesmo
    • Assim, mesmo os dados de um problema não guardam uma neutralidade sem fundo nem retração — também eles, por definição, seja pelo arbitrário de uma autoridade acadêmica que escolhe o assunto ou pela ignorância de uma questão ainda intocada, me advêm e se impõem a mim
    • Ora este movimento de se impor a mim, de chegar sobre mim de diante ou de antes de mim basta justamente para descortinar uma doação
    • Os dados do problema provêm também eles de uma doação: antes de sua doação (a distribuição dos assuntos, a publicação do tema colocado ao concurso, a difusão científica de uma aporia ou de um paradoxo), os dados me permaneciam ignorados, indisponíveis, imprevisíveis — e é precisamente por este motivo que foram dados
    • Esta colocação à disponibilidade dos dados remete também a uma doação por outro motivo: ao se darem, não se tornam sozinhos acessíveis; abrem uma nova situação para os que os recebem — o exame, onde todos se reencontram em igualdade, salvo de competência, disposição que nega a situação social ou natural
    • Mas sobretudo uma nova sequência temporal: no instante da distribuição (doação), o tempo recomeça, ou antes, no tempo comum, um limite se impõe, que decide de um novo tempo, o da prova
    • Este tempo no tempo, como a neutralização social que torna possível, designa o dado
    • Mas este dado jamais surgiria como tal sem precisamente seu surgimento — a doação
    • A doação não se acrescenta ao dado como um fundo ambíguo, marca somente a advinda que o traz de volta a ele mesmo
  • Em compensação, se se pretendesse ter estes dados por um factum puro, simples e bruto, condenar-se-ia a torná-los ininteligíveis: nenhum modelo comum os reuniria em um todo coerente, nenhum resultado poderia por dedução confirmar sua compatibilidade
    • E sobretudo, não teríamos mesmo nenhum motivo de ter estes dados pelos dados de um problema — não fatos fechados sobre eles mesmos, mas informações ainda não desenvolvidas, contudo já intencionalmente orientadas para resultados
    • Para trabalhar sobre dados, é preciso primeiro lê-los precisamente como dados, tomá-los em um modelo coerente (embora provisoriamente desconhecido), remetendo ao seu esclarecimento completo exatamente como remetiam primeiro à sua advinda
    • É preciso então aceitar estes dados como tais, portanto a partir da doação donde surgem, não encerrá-los na insignificância de um fato sem fatura
    • O dado oferece um exemplo privilegiado do dado — um fato que não se fez ele mesmo
    • Assim os dados atestam a doação por sua imposição, confirmam-na também por seu trabalho
    • Dado e doação não se identificam certamente, mas um dado sem doação não pode se pensar, nem aparecer
estudos/marion/fenomenologia-negativa-1998.txt · Last modified: by 127.0.0.1