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Ereignis, um re-encobrimento
MarionDado
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Certamente, em um primeiro momento Tempo e Ser confirma e radicaliza o que avançava Ser e Tempo: a fenomenalidade do ser tem parte ligada com um “dá-se” originário, a ponto de passar nele
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“Do ente dizemos: ele é. Tomando em vista o que concerne ao 'ser' e tomando em vista o que concerne ao 'tempo', olhamos nisto mais de perto. Não dizemos: o ser é, o tempo é, mas: dá-se ser e dá-se tempo. Ao imprimir esta viragem, não mudamos (geändert) primeiro senão o uso linguístico. No lugar de 'ele é', dizemos 'dá-se'”
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Mas esta viragem linguística marca mais radicalmente um reviramento conceitual: “… o ser [ele mesmo], a entrada em presença (Anwesen) se encontra metamorfoseado (verwandelt)”
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Em que consiste esta mudança decisiva? Em que Heidegger admite que, se somente o ente é e se o ser ele mesmo não é, o ser só pode se pensar como se dá — tomado em uma doação
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Ao contrário do começo grego, onde “… ser, εἶναι, ἐόν é certamente pensado, mas não o 'dá-se'”, é preciso admitir que “… no ἔστι se esconde o 'dá-se'”
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Pensar que “dá-se” o ser (e tempo), transpor então o ser em regime da doação não implica contudo nenhum arbitrário
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Primeiro porque é preciso reconhecer a impossibilidade de ter o ser no horizonte do ser (somente o ente é, o ser não é), portanto a obrigação de atribuí-lo a um novo horizonte
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Em seguida porque a doação, desde sua primeira descrição, permite ler o traço o mais essencial do ser em sua diferença em relação ao ente, sua retração
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Com efeito, como compreender que “o ser se retrai (sich entzieht)” essencialmente? Segundo a doação; pois o dom só tem em próprio de se retrair no momento mesmo onde entrega e libera, dá e abandona seu dado
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“Um dar (Geben), que só dá seu dado (Gabe), mas se retém e retrai (entzieht), tal dar nós o nomeamos um envio (Schicken)”
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É preciso absolutamente conceber que a retração do dar (dom dando) não vem contradizer, como depois e de fora, a liberação que entrega o dom dado, mas só faz um com ela: para dar o dom, o dar deve dele se retrair “… em favor do dado (zugunsten der Gabe)”
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O dar (Geben) se retém fora do dom (Gabe), de sua visibilidade e de sua disponibilidade, precisamente porque ao dá-lo, dele se desfaz e dele se retrai, portanto dele se desvia e o abandona a ele mesmo
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Por uma consequência inevitável, o dar jamais pode aparecer com, ou ainda menos como o dom por ele dado, pois, para dá-lo, não somente dele se desfaz, mas também dele difere
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O dar só dá plenamente o dado ao abandoná-lo decididamente — portanto ao dele se retrair
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Aliás, o equilíbrio, tão difícil de manter entre a diferença ontológica — originariamente suposta conduzir à colocação em evidência do “fenômeno de 'ser'” — e a história do ser como niilismo — onde a diferença ontológica intervém como o que de saída permanece impensado como tal — atinge seu ponto queimante unicamente por referência à mediação do “dá-se”
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Com efeito, a diferença não falta ao ser, porque o pensamento só chegaria à sua retração, sua falta e seu defeito
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Ao contrário, o pensamento não tem nada a pensar para além desta retração, mas somente esta retração mesma como o próprio do ser e seu avanço o mais íntimo
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Desde então que não se trata mais de pensar diretamente o ser como tal (à maneira de um ente), mas sua retração como tal, pois que esta retração se dá como o ser
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O diagnóstico sumário sobre o niilismo e a primeira investigação sobre a diferença ontológica se confundem em um mesmo desconhecimento da natureza da retração e do que a identifica ao ser
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Em compensação, o último avanço de Heidegger, que ultrapassa e reconcilia diferença ontológica e história do niilismo, sustentaria-se na consideração séria não do ser somente (e então inevitavelmente reconduzido à sua acepção metafísica), mas da doação em obra no “dá-se”
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Pois ele somente torna possível, de um mesmo golpe, a diferença de ser e de ente e a retração: o ser (e o tempo) difere e se retrai, porque obedece a uma única “lei de essência” desvelada pela doação: “… ao dar (Geben) enquanto envio (destinal, Schicken), pertence a retenção em si […], em suma: uma retração”
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O ser se retrai do ente, porque o dá; ora toda doação implica que o dar desapareça (se retraia) na exata medida em que o dom aparece (avança), precisamente porque dar demanda de [se de-]partir
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O ser avança em sua própria retração — este paradoxo só se esclarece a partir da doação
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A doação somente descobre o ente em (e sem) seu ser, portanto também bem a diferença ontológica que o niilismo
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Heidegger cumpriria então isto diante de que Husserl havia falhado — pensar o ser e o ente no horizonte da doação, reconhecida como tal?
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Para responder, é preciso primeiro tomar ato do que Heidegger sublinha com força: a doação do “dá-se” só pode se compreender a partir do “isso enigmático”
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Este enigma deve preservar de toda regressão metafísica, que interpretaria o “isso” no sentido de uma “… potência indeterminada”, até demasiado apressadamente determinada, a ponto de parecer um ator ôntico
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E se fosse preciso contudo determiná-lo, seria ao menos “… a partir do dar tal como se acaba de defini-lo”, “… a partir do modo de dar, que lhe pertence”
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Em suma, é preciso escrever o “isso” do “dá-se” “em maiúsculas”, para que nenhum nome próprio venha rebaixar a doação que nele se coloca em obra ao posto de uma causação ou de uma efetuação por tal ou tal ente, privilegiado ou não
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A indeterminação não salva somente o enigma, defende a pura doação
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Esta exigência opera assim uma maneira de colocação entre parênteses de toda transcendência, no sentido em que Husserl reduzia o Deus fundador, e onde o próprio Heidegger reclamava um “ateísmo” de método
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Para que “dá-se” verdadeiramente, é preciso que o “isso” permaneça pensado em e a partir de “dar”, portanto indeterminado e anônimo como tal; senão, viraria inevitavelmente ao ente (até ao ente supremo)
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O enigma do “isso” anônimo salvaguarda somente a doação
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Ora, ao encontro de sua prudência declarada, Heidegger levanta imediatamente o anonimato do “isso” e dele ofusca o enigma
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Viola ele mesmo o interdito, tão logo o formulou, ao batizar o “isso” do nome de Ereignis: “… o 'isso' que dá em 'dá-se [de] ser', 'dá-se [de] tempo', se atesta como acontecimento apropriador (Ereignis)”
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Esta atestação depende de fato de uma interpretação, pois o “isso” não se pretende dele mesmo um acontecimento apropriador, mas se vê sobredeterminado assim
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Heidegger o admite explicitamente: “O 'dá-se' é primeiro comentado em vista do dar, depois em vista do 'isso', que dá. O qual se encontra interpretado (gedeutet) como Ereignis”
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Mas de que direito justificar esta interpretação? Por analogia: do mesmo modo que “… o 'dá-se' nomeia, no uso imediato da língua, o ser mais nitidamente (deutlicher…nennt) que o simples 'ser', que 'é'”, isto é, do mesmo modo que a doação se substitui ao ser que coloca melhor em luz que ele mesmo jamais poderia — o que o próprio Heidegger acaba de mostrar —, do mesmo modo também o Ereignis se substitui doravante ao “isso” do “dá-se”, portanto também à doação
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Esta pretensa maior luz obscurece então; ofusca pelo acontecimento apropriador do acontecimento apropriador também bem o ser (o que permanece coerente com o projeto), que a doação (o que contradiz o projeto)
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Heidegger o confessa aliás à letra: “O dom da presença retorna ao acontecimento apropriador (Eigentum des Ereignens). O ser desaparece no acontecimento apropriador (verschwindet im Ereignis)”
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Dito de outro modo, o primeiro gesto — reduzir a presença (o ser) a um dom apropriado à doação — se acaba (e também se anula) em um segundo — abolir a doação no acontecimento apropriador
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Heidegger só reconhece a doação para além ou fora do ser, senão para desconhecê-la imediatamente, ao supor que só [se] dá ainda aquém do Ereignis, e sob sua égide
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Doação certamente, mas de breve transição entre ser e Ereignis, simples revezamento, provisório
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Esta substituição importaria pouco, se se tratasse apenas de palavras: mas trata-se, como frequentemente com as palavras, do essencial
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O Ereignis não intervém aqui exatamente como a “potência indeterminada”, que era preciso precisamente evitar de substituir ao “isso”?
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Quando o ser “desaparece no acontecimento apropriador (Ereignis)”, nele se abisma conformemente às exigências fenomenológicas permitindo expô-lo no “dá-se”, ou ao seu encontro?
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O recobrimento do “dá-se” pelo Ereignis, ele mesmo perfeitamente indefinido e por hipótese não constituível, marca um avanço fenomenológico ou ao contrário um recuo?
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Pensa-se que a irrupção do Ereignis tende — sem nele chegar completamente — a dissimular que a doação, que Heidegger utiliza constantemente para desvelar o ser, se reencontra contudo desertada por ele
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Emprega certamente as propriedades, mas sem admiti-las como relevando da doação
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Sobretudo esta denegação o dispensa de pensar a doação como tal
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Uma única questão basta para mostrá-lo: a “retração” remete, em seu sentido fenomenológico pleno, à doação, ao ser ou ao Ereignis? Se, como Heidegger, se recusa decidir, seria por receio de confessar a preeminência da doação? E por que seria preciso receá-lo?
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Heidegger mobiliza certamente — e mais potentemente que todo outro fenomenólogo — certas propriedades da doação, mas a escraviza em proveito de uma empresa que dela recusa por princípio a função fenomenológica de princípio
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Aqui como por vezes, mascara mais que mostra; e mascara sobretudo que mascara
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Heidegger e Husserl procedem assim da mesma maneira e até o mesmo ponto
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Um e outro recorrem de fato à doação e dela confessam a função de princípio último; pelo que a atestam e atestam do mesmo golpe seus gênios respectivos
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Mas um, ao chegar à objetidade, deixa escapar a doação, ao passo que o outro, ao atribuir a entidade à conta do Ereignis, a abandona
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Um e outro conhecem a doação sem reconhecê-la de direito como tal
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Pergunta-se: a que condições poderia enfim tornar-se possível reconhecer a doação como tal?
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Para responder, convém retornar ao princípio último — “Quanto de redução, tanto de doação” — que liga essencialmente a amplitude da doação à radicalidade da redução
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Se a doação pôde se deixar recobrir por instâncias que lhe permanecem contudo de direito subordinadas, sem dúvida é preciso atribuí-lo aos limites que restringiam as reduções correspondentes
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Em suma, se a objetidade ou a entidade puderam mascarar a doação nelas, é que suas reduções respectivas se limitavam a reconduzir até o objeto ou ente, atribuindo por adiante condições de possibilidade ao dado — nada se dá senão como objeto ou ente —, impondo por adiante ao dado fenomenal de só se dar segundo duas modalidades particulares da manifestação
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A questão de uma doação fenomenológica radical pode então legitimamente se colocar como a de uma redução pura, que nenhum horizonte incontestado delimitaria
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A esta condição somente a doação se tornaria então a ela mesma seu próprio horizonte, porque obedeceria à possibilidade de se determinar a partir dela mesma
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Então nada do que aparece apareceria de outro modo senão enquanto dado; pois o fenômeno sobre o modo do objeto ou do ente só pode aparecer ao se encontrar já mais originalmente dado
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Objetidade e entidade poderiam assim se pensar como simples variações, legítimas mas limitadas, muito exatamente como horizontes, que se desenham por e sobre o fundo da doação
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Também bem trata-se doravante de definir a doação nela mesma e a partir dela somente
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