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estudos:marion:dom

Dom, duas objeções

MarionDado

Um retorno da transcendência?

  • A tentativa de restituir à doação o direito que ela exerce sobre o dado suscita uma resistência conceitual majoritária, ainda que muitas vezes implícita.
    • Aceita-se mais facilmente o dado como um fato sem fundamento do que sua articulação com uma doação.
    • O receio fundamental é que o “recurso” à doação implique um retorno inaceitável da transcendência em seu sentido metafísico ou teológico.
  • A primeira objeção se desenvolve em um horizonte teológico e procede por duas suspeitas.
    • (a) A doação seria um esquema vazio, de “experiência amesquinhada”, levando a uma “fenomenologia cada vez mais negativa”.
      • Resposta: A doação se avalia pelos dados que produz (não é abstrata) ou é o puro processo da fenomenalidade mesma (sua abstração é necessária como a da redução).
    • (b) A doação estaria sobrecarregada de sentido por um empréstimo indevido à teologia, representando “uma teologia possível”.
      • Resposta: A noção de doação (Gegebenheit) em fenomenologia, desde Husserl, não precisa de carga teológica; está em seu pleno direito.
      • A tentativa de desqualificá-la por uma origem teológica revela a dificuldade de refutá-la no terreno estritamente fenomenológico.
  • O cerne da objeção é a assimilação da doação à metaphysica specialis (Deus, alma, mundo).
    • Segundo esta crítica, a doação cairia sob o golpe da epoché e seria interpretada nos termos da causalidade eficiente e do princípio de razão suficiente.
    • Esta interpretação é contestável por três motivos:
      • (a) A teologia revelada (sacra doctrina) não se confunde com a theologia rationalis da metafísica. Uma possível filiação à primeira a distinguiria ainda mais da segunda.
      • (b) A redução fenomenológica, que suspende a transcendência, não suspende a doação; ao contrário, a provoca e a faz crescer.
      • © Reduzir toda doação à metaphysica specialis levaria ao absurdo de desqualificar o “princípio de todos os princípios” de Husserl e a noção heideggeriana de Ereignis.
  • A acusação pressupõe um modelo causal e fundante para a doação, que é estranho à fenomenologia.
    • Na abordagem fenomenológica aqui defendida:
      • (i) O dado não tem outra justificação senão sua doação, seu próprio surgimento.
      • (ii) A doação não é um princípio ou fundamento, mas libera o dado de toda exigência de causa.
      • (iii) “Se dar” significa aqui “se deixar aparecer sem reserva e em pessoa”, o aparecer puro do fenômeno, não uma causa sui.
    • A crítica, ao caricaturar a doação como causalidade, torna manifesto seu negativo, mas não a atinge.
  • Esta dificuldade da objeção se transforma em um índice: há uma dificuldade real em pensar a doação fora do modelo metafísico da produção e da causalidade.
    • A questão se torna: como pensar a doação de modo que ela realize o aparecer puro do fenômeno que surge a partir de si mesmo?
  • Uma via possível é buscar um novo modelo para a doação a partir do fenômeno do dom (presente, dádiva).
    • A paronímia entre don (dom) e donation (doação) sugere uma continuidade.
    • O dom, uma vez depurado de sua espessura empírica, poderia fornecer o esboço de um modelo não causal, não eficiente e não metafísico para a doação.
    • A pergunta guia torna-se: Pode-se ler a fenomenalidade da doação sob o fio condutor do dom?

O dom não se anula a si mesmo?

  • Jacques Derrida, em um estudo seminal, analisa a paronímia do dom e demonstra como o “sistema” metafísico do dom o esvazia enquanto doação.
    • O modelo metafísico, remontando a Mauss, articula um doador, um dom dado e um donatário ligados por uma relação de reciprocidade e obrigação.
    • Este sistema obedece à causalidade eficiente e ao princípio de razão suficiente, transformando o dom em troca.
  • Derrida apresenta quatro argumentos para mostrar que, neste sistema, a doação desaparece.
    • Primeiro argumento: “Para que haja dom, é preciso que não haja reciprocidade.” A reciprocidade transforma o dom em troca, em economia, suprimindo a gratuidade.
    • Segundo argumento: “Para que haja dom, é preciso que o donatário não restitua, não reembolse, não entre no contrato.” O donatário nem sequer deve saber que recebeu um dom, pois a consciência do dom já o insere em uma economia de dívida.
    • Terceiro argumento: O esquecimento deve ser radical também do lado do doador. A consciência de dar gera uma “auto-reconhecimento narcísico”, uma troca consigo mesmo (exemplificada na generosidade cartesiana), que anula a doação.
    • Quarto argumento: O próprio dom dado deve ser colocado fora de jogo. “Na limiar, o dom como dom não deveria aparecer: nem ao donatário, nem ao doador.”
      • A entrada do dom na visibilidade o objetiva, o adapta à troca econômica e o subtrai à doação.
      • O que destrói o dom é a presença, entendida como subsistência permanente da entidade. “Se o presente lhe é presente como presente, esse simples reconhecimento basta para anular o dom.”
  • O resultado é uma aporia dupla que fecha o caminho do dom para entender a doação.
    • Se o dom se apresenta na presença, ele desaparece na doação para se inscrever no sistema econômico da troca.
    • Se o dom não se apresenta, ele não aparece de forma alguma, fechando toda fenomenalidade da doação.

O dom fecha a doação

  • As duas objeções analisadas (a redução à causalidade e a aporia derridiana) convergem para um único obstáculo: o dom não serve como fio condutor para pensar o “pli” (dobra) do dado com a doação.
    • O dilema é estrito: ou o dom se efetiva e se abole imediatamente como objeto neutro, ou ele recusa esta presença neutra, mas deve desaparecer.
    • Em ambos os casos, o dom nada esclarece sobre a doação; pelo contrário, serve como argumento contra a possibilidade de acessá-la.
  • A aporia do dom parece assim engolir a doação, tornando urgente encontrar outro caminho para pensar sua fenomenalidade.
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