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Legado

BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.

  • Ser e Tempo, publicado há quase um século, revelou-se texto imensamente influente, desenvolvendo Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty e Hans-Georg Gadamer, três dos principais filósofos do século vinte, temas centrais da obra, estendendo-se a influência ainda mais longe ao se considerar o pensamento tardio, à luz do qual caberia listar também Jacques Derrida, Michel Foucault e muitos outros, concentrando-se aqui na influência de Ser e Tempo e de outros escritos do período inicial, incluindo Kant e o Problema da Metafísica e O Que É Metafísica, obras que não apenas inspiraram alguns dos principais filósofos do século vinte, mas também suscitaram reação fortemente negativa da tradição empirista, que encontrou sua sede principal no mundo de língua inglesa
  • A fenomenologia é empregada para conduzir as investigações ontológicas, esperando-se desenvolver uma ontologia geral, um relato do ser e de seus modos, examinando-se primeiro o ser humano por ser essencial dispor de relato seguro da capacidade de compreender antes de investigar a compreensão do ser
    • Por nunca se ter completado Ser e Tempo, as aspirações ontológicas gerais foram bem menos influentes que a fenomenologia concreta da vida humana, respondendo Sartre e Merleau-Ponty a esta última, e não à visão ontológica mais ambiciosa, ainda que o tenham feito de modos distintos
  • Sartre adotou o método fenomenológico em seu tratado inicial O Ser e o Nada, concentrando suas investigações fenomenológicas no exame do ego cogito, o eu penso, considerando o ser humano uma forma de autoconsciência
    • Nesse aspecto, a filosofia sartriana é tradicional, mais próxima de Descartes, Kant e Husserl do que de Heidegger, sendo a mensagem consistente de Ser e Tempo a de que o modelo sujeito-objeto da experiência humana, com suas noções correlatas de interioridade e autoconsciência, deve ser descartado em favor de um modelo de abertura humana a um mundo sempre já presente
    • Sartre mostra influência heideggeriana na estratégia de capturar a experiência humana em sua realidade cotidiana, em vez de em sua estrutura lógica, foco maior das obras publicadas de Husserl, mas tende a interpretar essa realidade cotidiana como a experiência de um eu, e não como ser-em-o-mundo
  • Sartre popularizou a tese de que a essência do ser-aí (Dasein) reside em sua existência, oferecendo sua versão mais conhecida, a existência precede a essência
    • A tese significa que nada pode determinar a escolha a partir de fora, atribuindo-se valor a todos os traços psicológicos e físicos, as determinações fáticas, sendo-se livre para reavaliar a significância dessas determinações, sendo-se em certo sentido responsável por tudo, até pelo próprio nascimento
    • Como Heidegger e outros existencialistas, Sartre acredita que se ganha apreensão da natureza e do alcance da liberdade nas experiências extremas de angústia e alienação, revelando a angústia, em particular, o desprendimento da autointerpretação e o confronto com o mundo em sua ausência de sentido, revelando isso a liberdade radical e a responsabilidade por todo o mundo através do poder de atribuir-lhe valor
    • A liberdade radical não significa poder fazer o que se quiser, mas que nada do que se faz, pensa, sente ou é escapa ao escopo de possível reavaliação, não podendo a tomada de decisão se guiar por quem se foi ou como se sente, por caber sempre a si mesmo atribuir valor a tais fatores
    • A liberdade radical não é abraçada na análise da resolução, tendo Merleau-Ponty oferecido argumento direto contra a ideia
  • Merleau-Ponty aborda lacuna séria na fenomenologia da experiência engajada, notando-se a ausência de fenomenologia sustentada da corporeidade, apesar de o relato da espacialidade existencial exigi-la
    • Desenvolve-se em Fenomenologia da Percepção o conceito de intencionalidade motora, o modo como as habilidades motoras compreendem o mundo ao redor, perseguindo-se, em efeito, o projeto geral da Divisão I de Ser e Tempo numa direção essencial negligenciada, mas sem a qual a fenomenologia fica seriamente comprometida
  • Outro autor que desenvolveu alguns temas de Ser e Tempo além do próprio Heidegger foi seu aluno Hans-Georg Gadamer, que o conheceu ainda quando este era assistente de Husserl em Friburgo, seguindo-o a Marburgo quando assumiu ali sua primeira cátedra
    • Gadamer obteve sua Habilitação em Marburgo nesse período, o auge do interesse pela hermenêutica, tornando-se esta o foco de sua energia intelectual, devendo-se à influência subsequente de Gadamer o fato de Ser e Tempo ser considerado passo importante no desenvolvimento da hermenêutica, havendo, é preciso admitir, pouquíssimo na obra que justifique tal reconhecimento
    • Os poucos comentários dispersos sobre interpretação textual e cultural em Ser e Tempo dificilmente somam uma teoria da interpretação, insistindo-se apenas que a articulação do sentido da atividade humana deve ser interpretativa e que a fenomenologia é necessariamente hermenêutica, sem desenvolver essas linhas de pensamento nem acrescentar muito à compreensão da interpretação textual e artística
  • Verdade e Método, de Gadamer, é tratado que explora a história da hermenêutica e a natureza da interpretação, um dos livros mais influentes da segunda metade do século vinte, dando origem ao uso do termo hermenêutica para designar um movimento filosófico, e não uma técnica ou disciplina
    • Gadamer se apropria da afirmação de que toda interpretação depende de um contexto tomado como certo e de um conjunto de pressupostos mantidos pelo intérprete sobre o objeto de interpretação, chamando tais pressupostos de preconceitos ou pré-juízos (Vorurteile), argumentando que eles habilitam a interpretação em vez de distorcê-la
    • Assim como toda interpretação manifesta depende de tais pressupostos, também a compreensão interpessoal e cultural depende de um contexto cultural, desenvolvendo-se esse pensamento em direção tradicionalista em Verdade e Método, devendo-se sempre encontrar orientação na tradição linguística e cultural a que se pertence, em vez de tentar recomeçar do zero ou alinhar a cultura a ideais forjados de fora
    • Isso colocou Gadamer em confronto com a Escola de Frankfurt de teoria crítica neomarxista, representada proeminentemente por Jürgen Habermas, sendo o debate entre Gadamer e Habermas, e seus seguidores, um dos debates filosóficos mais interessantes e vivos da segunda metade do século vinte, cruzando-se também de modo fascinante com a política da memória na Alemanha
    • Ser e Tempo rejeita esse tipo de tradicionalismo, devendo-se a impressão geral de tradicionalismo à influência de Gadamer como condutor desse pensamento
  • Em Sartre, Merleau-Ponty e Gadamer, observam-se três filósofos construtivamente influenciados a desenvolver ainda mais o existencialismo, a fenomenologia e a hermenêutica inicialmente abordados em Ser e Tempo, tendo esse pensamento inspirado também reação fortemente negativa entre filósofos geralmente empiristas, reputação negativa que se estendeu a certo preconceito contra a obra ainda hoje encontrado em alguns departamentos de filosofia acadêmica de língua inglesa
  • Um dos projetos centrais da década de 1920 foi a interpretação fenomenológica da filosofia kantiana, explorada em detalhe em várias séries de preleções iniciais, Lógica: A Questão da Verdade, Problemas Fundamentais e Interpretação Fenomenológica de Kant, culminando essas reflexões na monografia de 1929 Kant e o Problema da Metafísica
    • Em todos esses tratamentos, mas mais agressivamente no livro de 1929, elabora-se uma interpretação da Crítica da Razão Pura como tratado de ontologia, sendo a leitura dominante de Kant na Alemanha da época a abordagem neokantiana, pioneira no final do século dezenove mas representada nos anos vinte por Ernst Cassirer
    • Os neokantianos leem Kant, como fazem hoje a maioria dos estudiosos nos Estados Unidos e no Reino Unido, principalmente como teórico das ciências naturais, da moral e da estética, não como contribuinte à metafísica, sendo geralmente lido como tendo rejeitado a metafísica ao argumentar que não se pode conhecer nada sobre as coisas em si, devendo-se limitar ao conhecimento das aparências
    • Kant declarou que o orgulhoso nome de ontologia deve ceder lugar ao modesto de mera analítica do entendimento puro, sendo o ataque à ortodoxia neokantiana suficientemente sensacional para que se organizasse um debate entre Heidegger e Cassirer em Davos, na Suíça, em 1929
  • A apropriação de Kant constituiu uma fase de uma batalha maior, argumentando-se que Kant viu algo que não conseguia aceitar nem endossar abertamente, a saber, que conceitos e sensação, ou entendimento e sensibilidade, tinham raiz comum na imaginação
    • Na leitura kantiana proposta, conceitos e o conhecimento proposicional neles baseado dependem de algo mais básico, a imaginação produtiva, sendo esta, por ser mais fundamental que conceitos, proposições e a lógica, as regras que governam conceitos e conhecimento, pré-lógica
    • Recruta-se assim Kant em apoio à tese de que há uma forma de compreensão mais básica ou primordial que aquela governada pela lógica, residindo as formas mais fundamentais de visão ou inteligência no nível da familiaridade pré-lógica com o mundo
    • Embora a crítica à centralidade da lógica não ocupe lugar central em Ser e Tempo, ela é proeminente em O Que É Metafísica, onde se afirma que, se o poder do intelecto no campo da investigação do nada e do ser é assim despedaçado, então o destino do reinado da lógica na filosofia fica com isso decidido, desintegrando-se a própria ideia de lógica na turbulência de um questionamento mais originário
    • Isso deu a alguns a impressão de um projeto criptorreligioso, místico ou simplesmente confuso
  • Sabe-se hoje que a exposição inicial de Rudolf Carnap ao debate Heidegger-Cassirer em Davos, em 1929, desempenhou papel formativo em seu desenvolvimento, impelindo-o à rejeição veementemente formulada de 1931
    • As denúncias de Carnap não constituem um fracasso mesquinho em compreender as ideias em jogo, ainda que por vezes interprete mal os argumentos, indicando antes sensibilidade genuína ao caráter revolucionário desse pensamento, tendendo as reações a extremos quando revolucionários desafiam o próprio fundamento dos compromissos alheios, como ocorre aqui
    • Há muito que filósofos da corrente dominante podem aprender, mas não adianta negar que, se a posição estiver correta, boa parte da filosofia tradicional de repente parece superficial, como visto nos tratamentos do realismo, do idealismo e da verdade, voltando-se, depois de cerca de 1930, da filosofia tradicional para a poesia, a crítica cultural, o misticismo e filósofos como Nietzsche, engajados em empreendimento bastante diferente do de Aristóteles, Kant e Husserl
  • Essa virada (Kehre) afastada da filosofia tradicional e de seus métodos lógicos torna esse pensamento quase ininteligível para filósofos acadêmicos da corrente dominante treinados na filosofia tradicional, sobretudo os formados em lógica formal e na epistemologia geralmente empirista padrão no mundo filosófico de língua inglesa
    • Não surpreende, assim, que muitos filósofos da corrente dominante tenham achado esse pensamento difícil de compreender, explicando isso por que a chegada ao mundo da filosofia anglófona veio de fontes externas à tradição empirista, tendo Ser e Tempo se tornado conhecido primeiramente entre filósofos anglófonos como texto existencialista
    • Estudiosos profundamente influenciados por Sartre escreveram os primeiros tratamentos em livro, em língua inglesa, do pensamento inicial em questão, tendo William Richardson, formado em Louvain, na Bélgica, e imerso na obra de Jacques Lacan, explorado todo o arco desse desenvolvimento intelectual em Heidegger: Through Phenomenology to Thought, de 1963
    • Uma carta, servindo de prefácio ao livro de Richardson, conferiu-lhe certa autoridade, vindo essas primeiras apresentações de tradições alheias ao pensamento empirista então dominante no mundo anglófono
  • A associação inicial desse pensamento inicial ao existencialismo, visto como movimento que celebrava o irracionalismo e a rejeição da filosofia tradicional, e o aparente ataque à lógica, e por isso ao pensamento racional, em O Que É Metafísica, dificultaram a recepção de Ser e Tempo no mundo majoritariamente empirista da filosofia anglo-americana
    • A partir da década de 1960, contudo, filósofos formados nos modos geralmente empiristas da filosofia anglo-americana descobriram Ser e Tempo e passaram a escrever sobre ele, valendo-se Hubert Dreyfus significativamente da fenomenologia da atividade engajada em sua crítica ao programa da inteligência artificial em O Que os Computadores Não Podem Fazer, publicado primeiramente em 1972
    • Dreyfus viu as extensas e diversas conexões entre a crítica ao modelo sujeito-objeto da experiência e argumentos correlatos surgidos no ambiente pós-empirista do pós-guerra, formulados por Ludwig Wittgenstein, W.V.O. Quine e Thomas Kuhn
    • Ao pressionarem enormemente o arcabouço empirista, tais pensadores levaram alguns filósofos formados nessa tradição a buscar novas fontes de insight, sendo Richard Rorty especialmente influente entre eles, tendo sido profundamente influenciado por essa filosofia, à qual foi apresentado por Dreyfus
    • Rorty argumenta que a filosofia tradicional está comprometida com a noção de que a mente deveria ser espelho fiel do mundo, ideia convincentemente refutada por John Dewey, por essa filosofia e por Wittgenstein, devendo os filósofos voltar-se a um discurso edificante para abordar as questões da tradição intelectual humanística, tradição da qual a filosofia da corrente dominante se alienou
    • Os escritos de Rorty geraram, significativamente, reações fortemente negativas entre muitos colegas filosóficos acadêmicos da corrente dominante
  • O uso feito por Dreyfus dessa filosofia para criticar o paradigma dominante da pesquisa em inteligência artificial no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 levou alguns filósofos a tentar incorporar tais ideias, e mais geralmente fenomenológicas, à filosofia da ciência cognitiva, valendo-se produtivamente delas para fazer avançar a pesquisa em inteligência artificial
    • Vale mencionar nesse contexto o trabalho de Terry Winograd e Michael Wheeler, tendo Dreyfus inspirado estudiosos e inovadores em outros domínios de investigação e prática a incorporar aspectos desse pensamento, tal como por ele interpretado, também em seus próprios trabalhos
  • O presente momento, meados de 2023, constitui tempo incerto para o futuro do estudo de Ser e Tempo, tendo a publicação dos Cadernos Negros levado a uma rejeição sonora em muitos setores
    • Em resposta à publicação dos Cadernos Negros, Günter Figal renunciou à presidência da Sociedade Heideggeriana Alemã em 2015, ocupando ele a chamada informalmente cátedra Heidegger na Universidade de Friburgo, cátedra ocupada por uma linhagem de estudiosos imersos no pensamento heideggeriano e fenomenológico
    • Friburgo decidiu não substituir Figal, em sua aposentadoria, por um estudioso ancorado nessas tradições, ou mesmo na fenomenologia, convertendo a vaga em posição júnior de lógica e filosofia da linguagem
    • Há muito trabalho criativo sendo feito sobre Ser e Tempo e o pensamento inicial em geral, como evidenciam as notas deste guia de leitura, permanecendo em aberto se a criatividade e o insight desse trabalho são suficientemente poderosos para superar os ventos contrários criados pela publicação dos Cadernos Negros
    • Ser e Tempo é um livro profundamente perspicaz, digno de estudo atento, mesmo mantendo-se vigilância quanto à possibilidade de que o pensamento völkisch, o fascismo, o nazismo, o racismo e o antissemitismo tenham se infiltrado em algumas das análises, podendo a tarefa então ser identificar o que é filosoficamente profundo no texto e, se possível, desembaraçá-lo da política pessoal, podendo-se assim, se isso for possível, compreender Ser e Tempo melhor do que o próprio autor o compreendeu
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