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RUUD WELTEN
WELTEN, Ruud. Phénoménologie du Dieu invisible: essais et études sur Emmanuel Levinas, Michel Henry et Jean-Luc Marion. Tradução: Sylvain Camilleri. Paris: l’Harmattan, 2011.
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A publicação de Dieu sans l'être em 1982 causou grande comoção teológica e filosófica, sem que Marion pretendesse restaurar o Deus autoevidente ou reconstruir uma metafísica capaz de provar sua verdade, reconhecendo com Nietzsche a morte de Deus e a pertinência do argumento onto-teológico de Heidegger, ainda que essa morte favoreça, paradoxalmente, a revelação, aproximando-se aqui de místicos como Eckhart e João da Cruz.
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A questão decisiva não é o desejo humano de falar de Deus, mas o fato de que é Ele quem se dirige a mim, chave que permite a Marion articular religião e fenomenologia sem se apresentar como reformador teológico, denunciando antes a idolatria dentro da própria filosofia e teologia, à maneira de Heidegger, e propondo uma imagem não fixa de Deus que ele chama ícone.
1. O ídolo e o ícone
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Ídolo e ícone designam duas declinações diferentes da aparência divina, distinguindo-se não pelo que referem mas pelo modo como referem, questão de estrutura fenomenológica e não de veracidade.
A. O ídolo
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O ídolo é a imagem de Deus adaptada aos critérios do humano e do finito, experiência humana do divino que não nos assemelha ao divino mas assemelha o divino à nossa experiência, sendo o olhar humano que cria o ídolo e o fixa naquilo que enche seu olhar, o “primeiro visível”.
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A fixidez é o traço mais importante do ídolo, comparável à necessidade do olhar de se ancorar num ponto fixo do horizonte ou ao enamoramento que fabrica sua própria imagem do ser amado, funcionando o ídolo como espelho que reflete apenas o próprio olhar, conforme já observara Feuerbach, citado por Marion ao lado de Nietzsche e Marx quanto à idolatria como idolização de si mesmo.
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O ídolo pode assumir a forma de ideia ou conceito, sendo a onto-teologia justamente o nome dado à conceitualização de Deus dentro de uma ordem lógica.
B. O ícone
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O ícone é Deus mesmo aparecendo livre de todo desejo individual, mas não pode nunca ser fixado sem recair na idolatria, não sendo Marion um escritor de método para “ver Deus”, mas um filósofo interessado em evitar a fixação de Deus.
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A teologia do ícone, própria da Igreja ortodoxa oriental e fundada em Colossenses 1,15, opõe-se historicamente ao ídolo desde a controvérsia iconoclasta, sendo o ícone aquilo que não é aparente, analisável nem compreensível, cujo olhar pertence não ao espectador mas ao próprio ícone que o envolve na profundidade infinita.
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O ícone é a presença de um não-objeto que não resulta de uma visão mas a provoca, invertendo a intencionalidade ao concentrar seu olhar sobre mim e se doando à consciência como dádiva.
2. Deus e a onto-teologia
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A fenomenologia marioniana não se desliga inteiramente de toda ontologia, já que a metafísica ocidental pensou Deus em termos de ser, questão que a doutrina escolástica da analogia não resolveu satisfatoriamente, opondo-se Marion a essa objetivação de Deus como ser.
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Diferentemente da crítica heideggeriana à onto-teologia, voltada a evitar pensar Deus, Marion busca libertar todo pensamento de Deus dos predicados ontológicos que o aprisionam, sendo a onto-teologia, para ele, a maior aliada da idolatria, à qual o ícone se contrapõe abrindo caminho a um pensamento de Deus.
3. Dom, dado e doação
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A partir do final dos anos 1980, Marion volta-se ao desenvolvimento fenomenológico do conceito de aparência, substituindo em Étant donné a onto-teologia crítica pela fenomenologia pura, deslocando seu objeto de Deus para o modo não-ontológico de seu aparecer.
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A questão da doação, reformulada a partir do “dado” husserliano (Gegebenheit), privilegia não o que é dado, nem quem dá ou recebe, mas o próprio fato de que se dá, definindo-se assim o fenômeno como dobra da doação.
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Ao contrário da ciência, que trata seus objetos como objetos de saber, a teologia manifesta uma abertura receptiva ao que é dado, aproximando-se aqui Marion de Michel Henry, assumindo a doação múltiplas formas teológicas, entre elas a Eucaristia, através das quais o cristianismo recebe o dom sem cair na idolatria.
4. O fenômeno saturado
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A questão fenomenológica central não é se Deus aparece, mas se é possível descrever um aparecer que não esteja sujeito à minha intencionalidade, buscando Marion em Étant donné uma fenomenalidade “saturada” capaz de responder a essa questão.
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Enquanto Husserl definiu o fenômeno por um déficit constitutivo, em que a intuição jamais preenche inteiramente a intenção, Marion pergunta se é possível um fenômeno caracterizado não por falta mas por excesso de intuição, o fenômeno saturado, que não precisa ser preenchido pela intencionalidade e que me ofusca, como no exemplo do sol que não posso fitar diretamente.
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Tal fenomenalidade saturada, irredutível a estrutura puramente intencional e tributária de uma origem não fenomenal, aproxima-se das noções de carne em Merleau-Ponty, de Vida em Henry, de alteridade em Levinas e mesmo da diferença em Derrida, sendo também condição de possibilidade de pensar a revelação divina, da qual o fenômeno religioso, invisível e submergente como o sol, é um caso.
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Cristo constitui, para Marion, não o paradigma da teologia mas o paradigma do fenômeno de revelação, o fenômeno saturado por excelência, saturado por todos os tipos de saturação possíveis, sem que a fenomenologia pura possa presumir nem Deus nem Cristo como ponto de partida.
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Recorrendo às quatro categorias kantianas do saber, Marion mostra como o fenômeno saturado transcende os limites estabelecidos pela filosofia kantiana, examinando-se em seguida dois desses tipos de saturação, o ídolo e o ícone.
A. O ídolo
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Como fenômeno saturado, o ídolo já não se opõe diretamente ao ícone, mantendo porém suas características: é plenamente visível, excede em abundância minha intencionalidade e, como o Cristo transfigurado citado em Marcos 9,2-3, torna-se insustentável de tão intenso.
B. O ícone
5. O paradoxo
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Diferentemente de Dieu sans l'être, Étant donné constitui um ensaio de fenomenologia pura em que o fenômeno saturado deixa de ser extraído da teologia para se tornar figura da própria fenomenologia, prosseguindo em De surcroît o exame das quatro categorias kantianas através de artistas e pensadores como Dürer, Descartes, Rothko e Levinas.
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A obra de Marion é considerada paradoxal por demonstrar simultaneamente a inadequação da filosofia e da teologia ocidentais para compreender a aparência autodada de Deus e a possibilidade dessa mesma aparência através dessas mesmas disciplinas, sem que a fenomenologia, ocupada das estruturas da aparência e não dos objetos, possa ela mesma tocar a última aparência de Deus.
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Permanecem questões quanto à possível deriva crypto-teológica dessa fenomenologia da possibilidade, que Marion prefere entender como fenomenologia da esperança, e não como demonstração, distinguindo estruturalmente aparecer e perceber.
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O próprio fenômeno saturado constitui um paradoxo, pois não resulta apenas da atividade da consciência mas possui intencionalidade própria orientada a mim, invertendo a relação entre o si e o fenômeno, como na experiência musical em que não sou eu quem faz a música mas ela quem me faz, testemunha e não sujeito, sendo somente essa reflexão paradoxal capaz de constituir os prolegômenos de uma teofenomenologia que faça justiça à aparência autônoma de Deus.
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