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Questão de princípios
MarionDado
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Dificuldade do tournant fenomenológico e questão do primeiro princípio: em sua simplicidade implacável, o tournant oferece tal dificuldade que a démarche fenomenológica não cessou de retomar sua formulação, sem talvez tê-la ainda atingido
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Dificuldade pode se medir pelo fio condutor da determinação do primeiro princípio da fenomenologia
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Desde a partida, a questão do princípio coloca uma questão de princípio: como atribuir um princípio ao método ou à ciência (três termos sinônimos em metafísica) que toma a iniciativa de se desfazer da iniciativa?
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Que tipo de princípio permaneceria um (indiscutível, universal, incondicionado) sem contradizer o tournant fenomenológico ele mesmo, sem preceder e portanto pretender produzir o aparecer?
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Seria preciso então que o próprio conceito de princípio sofresse, ele também e o primeiro conforme a sua dignidade, o tournant fenomenológico?
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Princípio não cumpriria sua primazia senão desaparecendo diante da aparição?
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Deveria se deixar determinar por isso mesmo — a manifestação do que se manifesta — que pretende reger ou ao menos descrever?
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Neste caso, merece ainda o título de princípio? Certamente, na medida imprecisa onde um princípio derradeiro e último permaneceria ainda um princípio
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Que entender por princípio derradeiro? Se se trata de um último princípio para nós, primeiro em si, retornamos à aporia de partida (o domínio da manifestação pela demonstração)
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Se se trata bem do último enquanto último (a contra-método), restará compreender como este último permanece ainda o primeiro, isto é, como sua primazia pode cumprir o tournant que o ordena ao que se mostra a partir de nenhum outro princípio senão si
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Aporia não recai apenas sobre a identidade do princípio último da fenomenologia, mas sobre a possibilidade e mesmo a conveniência de formular um
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Recensão das formulações que podem pretender a este posto: deve-se, na esteira de M. Henry, duvidar não somente de sua coerência, mas sobretudo de seu acesso à manifestação
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Primeira formulação: “Tanto aparecer, tanto ser”; querendo restabelecer a dignidade ôntica do aparecer, reabilita-o a ponto de opô-lo ao ser ele mesmo
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Primado assim reconhecido ao aparecer, que se torna o único rosto do ser, deixa-o ainda inteiramente indeterminado: o que cumpre então o aparecer, para que ele possa, quando aparece simplesmente, colocar em evidência o ser mesmo?
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Como ultrapassa o estatuto de simples aparência para se fazer a manifestação mesma do que é? Como o aparecer poderia bem, nesta indeterminação, fazer parecer o que é?
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Sobre esta mutação da fenomenalidade em manifestação, portanto sobre o essencial do tournant, o primeiro princípio permanece silencioso: permanece assim fenomenologicamente insignificante
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Segunda formulação do princípio: “Direito às coisas mesmas!”
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Abre bem a questão do aparecer, mas de tal maneira que o ordena a “coisas” supostas já lá, disponíveis e acessíveis, senão constituídas
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Sem dúvida, Husserl insiste, estas “coisas” não devem se entender empiricamente, mas como “assuntos” em questão (Sache)
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Porém, mesmo sem o retorno fenomenológico em direção a elas, estas “coisas” não permaneceriam igualmente bem o que elas são — precisamente o que elas são sem aparecer?
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Primado do ser sobre o aparecer rebaixa este último ao posto metafísico de um simples modo de acesso, que mostra sempre menos do que deveria, pois as “coisas” o precedem e se exibem sem ele
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Inadequação ao tournant fenomenológico estoura à evidência
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Objeção e contra-objeção: responder-se-á sem dúvida que estes dois princípios, embora o uso os atribua à fenomenologia, não a caracterizam contudo em próprio, que ela só os retoma criticando-os e portanto não tem que assumir suas insuficiências
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Mas justamente, em que consiste a crítica que ela é suposta lhes endereçar? Que outra formulação os corrige?
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Terceira formulação do princípio, de fato a primeira e a única, pois Husserl a assume como tal sob o título sem ambiguidade de “princípio de todos os princípios”: o genitivo vale evidentemente aqui como um superlativo
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Coloca, contra todas “teorias absurdas”, que “toda intuição doadora originária é uma fonte de direito para o conhecimento, que tudo o que se oferece originariamente a nós na intuição (em sua efetividade carnal, por assim dizer) deve ser simplesmente recebido para o que ele se dá, mas sem tampouco ultrapassar os limites nos quais ele se dá”
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Avanços do princípio de todos os princípios
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Certamente, libera a fenomenalidade da exigência metafísica de um fundamento: nenhum outro direito que a intuição é doravante requerido de um fenômeno para que ele apareça
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Por exemplo, o direito de aparecer não depende mais de uma razão suficiente, que o outorgaria a certos fenômenos “bem fundados” e o recusaria a outros
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Certamente também, este princípio liberta a fenomenalidade do quadro e dos limites da analítica kantiana, não impondo nenhum a priori conceitual, nem mesmo nenhuma forma pura à intuição
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Certamente enfim, a fenomenalidade se vê reconhecer a mais alta figura da presença, sob o título da “efetividade carnal (leibhafte Wirklichkeit)”, pelo que deixa definitivamente o estatuto diminuído de semi-ens
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Preço dos avanços: a intuição justamente liberada torna-se ela mesma a medida da fenomenalidade
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Primeiro porque a intuição torna-se em si mesma um a priori: segundo o “princípio de todos os princípios”, fora da intuição, ponto de doação
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Em seguida porque este princípio assume que por vezes falta a “fonte de direito” ao que pretenderia aparecer; mas donde vem que a intuição possa simplesmente faltar, que o direito faça defeito de fato?
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Sem dúvida de que a própria definição da intuição implica sua penúria possível; porém, nenhuma análise vem esclarecer esta possibilidade, nem explicar em que sentido pertence à essência da intuição poder faltar
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Mais, este defeito possível uma vez admitido, seria preciso repará-lo, medi-lo e escaloná-lo: faz defeito sem transição ou por grau? Neste caso, onde se situa o limite entre a intuição suficiente e a intuição faltante, em suma quais são os graus da intuição?
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A estas questões, o “princípio dos princípios” não responde, como se fosse evidente que a intuição permanece unívoca e não admite nem graus, nem metamorfoses
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Motivo radicalmente outro pelo qual a intuição permanece limite da fenomenalidade: a intuição faz propriamente ver um objeto; ora o objeto implica uma transcendência em relação à consciência; portanto “a intuição não é senão um nome desta transcendência”
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Ou ainda: a intuição tem sempre por função preencher uma visada ou uma intencionalidade de objeto; portanto ela se ordena à objetividade e a sua consciência extática
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Desde então a intuição restringe a fenomenalidade a uma acepção limitada: a transcendência, o êxtase e a intencionalidade do objeto
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Que esta acepção da fenomenalidade se desdobre o mais frequentemente e legitimamente, não interdita — impõe mesmo — perguntar se ela permanece a única possível, até a mais determinante
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A intuição de preenchimento aplicada a uma intencionalidade de objeto define em geral toda fenomenalidade ou somente um modo restrito da fenomenalidade?
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A intuição de um objeto intencional cumpre sem nenhuma dúvida uma manifestação fenomenal, mas por isso toda manifestação de um fenômeno se cumpre pela intuição de uma intenção de objeto transcendente à consciência?
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Em suma, a constituição de um objeto intencional por uma intuição preenchendo um êxtase objetivante esgota toda forma de aparecer?
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Bem antes, deve-se perguntar se a intuição deve se restringir aos limites da intencionalidade e da transcendência do objeto, ou se ela pode se estender às possibilidades imensas do que se mostra
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Husserl aqui hesita: de um lado, parece pretender liberar o aparecer (e não somente a intuição) de todo princípio a priori; de outro lado, parece restringir a intuição ao preenchimento da intencionalidade de objeto, portanto limitar a ela o aparecer
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A intuição contradiz finalmente a fenomenalidade, porque ela mesma permanece aqui submetida ao ideal da representação objetivante
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Última distorção confirmando que a intuição contradiz a fenomenalidade: o “princípio de todos os princípios” intervém antes e sem a implementação da redução
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Ora sem redução, nenhum procedimento de conhecimento merece o título de fenomenológico
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Como então poderia ele mesmo fixar à fenomenologia sua contra-método, se não se articula sobre ela?
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E se a intuição doadora não se exceptuasse da redução, seria preciso admitir que ela lhe ofereceria um pressuposto tácito?
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Mas então em que a redução permaneceria a operação inaugural de toda vista fenomenológica?
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A terceira formulação do princípio coloca bem o aparecer como tal, atribuindo-o à intuição somente; mas a intuição aí combate menos por que contra ele, pois parece ela mesma escapar à redução, portanto contradizer o aparecer que somente esta última permite
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