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Evento na filosofia ocidental

FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.

  • Eventos possuem poder transformador atestado na literatura, história, cinema, tragédia e na memória pessoal, mas receberam insuficiente atenção na história da filosofia ocidental até o século XX.
  • Filosofia do século XX, inspirada pelo despertar nietzschiano, reconheceu centralidade do evento para existência e pensamento humanos, com contribuições de Heidegger, Arendt, Gadamer, Deleuze, Maldiney, Levinas, Ricoeur, Foucault, Derrida, Lyotard, Badiou, Dastur, Agamben, Nancy, Virilio, Meillassoux, Žižek, Davidson, entre outros.
  • A diversidade de abordagens sobre o evento atesta seu caráter elusivo e a necessidade de um novo quadro de pensamento, pois discursos filosóficos tradicionais, ao racionalizá-lo via causalidade ou substancialidade, neutralizam sua peculiaridade e caráter excepcional.

Delimitação do estudo: fenomenologia do evento em Marion e Romano

  • Este estudo foca fenomenologia do evento no trabalho de Jean-Luc Marion e Claude Romano, pensadores que operam nas margens do discurso fenomenológico e para os quais evento possui importância central em suas respectivas compreensões da fenomenologia.
    • Escolha não é arbitrária, pois literatura secundária existente falhou em fazer justiça ao pensamento de ambos, especialmente de Romano.
  • Objetivo principal é responder duas questões: o que é evento e quem o experiencia.
    • Primeira questão explora fenomenalidade do evento, seu modo de mostrar-se e sua distinção de outros modos de fenomenalidade.
    • Segunda questão investiga como evento mostra-se e é experienciado pelo ser humano, exigindo nova compreensão de subjetividade, distinta da ideia típica de sujeito na fenomenologia.

Razões para focar em Marion e Romano

  • Ambos propõem versão fenomenológica do evento que não transgride limites da fenomenologia, mas a expande para fazer justiça à fenomenalidade do evento, tratando-o como fenômeno.
  • Distinguem sistematicamente fenomenalidade do evento de outros modos de fenomenalidade, não identificando toda ocorrência como evento.
  • Engajamento com fenômeno do evento não é acidental, mas constitui cerne de sua compreensão da fenomenologia; para Marion, evento é paradigma para fenomenalidade, enquanto para Romano é fonte de todo fenômeno.
  • Ambos reconsideram subjetividade à luz do evento, propondo novos nomes para sujeito (adonné, advenant) e concebendo que “subjetivação” torna-se possível através do evento.
  • Essas abordagens fornecem elaboração mais radical do evento no movimento fenomenológico, justificando foco do estudo.

Desencontro com a noção heideggeriana de Ereignis

  • Na filosofia continental, opinião predominante associa tema do evento à noção heideggeriana de Ereignis, mas esta não será abordagem adotada neste estudo.
  • Análises como as de Tengelyi e Gondek, que tomam Sinnereignis como noção unificadora da nova fenomenologia francesa, arriscam perder novidade qualitativa e reduzir discussão ao topos de Husserl e Heidegger.
  • Christian Sommer também interpreta modificação do conceito de fenômeno na nova fenomenologia francesa a partir de sua compreensão como evento (Ereignis), reforçando associação com Heidegger.
  • Defende-se que noção heideggeriana de Ereignis não é pedra angular nem ponto de origem para Marion e Romano.
    • Ereignis heideggeriano é compreendido como singulare tantum ahistórico, enquanto evento em Marion e Romano é sempre plural e refere-se a acontecimentos na história pessoal de seres humanos finitos.
  • Conceito de evento neste estudo aproxima-se mais do alemão Geschehen do que de Ereignis.

Lacunas na literatura secundária sobre evento e fenomenologia

  • Livro Neue Phänomenologie in Frankreich omite completamente fenomenologia do evento de Claude Romano, e noção de Sinnereignis não resume adequadamente projetos de Marion ou Henry devido ao papel da hermenêutica.
  • François Raffoul, em Thinking the Event, oferece contribuição importante, mas desconsidera trabalho de Romano, perdendo oportunidade de diálogo, pois sua abordagem geral parece bem adequada à concepção romaniana.
  • Gert-Jan van der Heiden, em Ontology after Ontotheology, é primeiro estudo a dar lugar adequado a Marion e Romano no contexto da noção de evento, sem reduzi-la à Ereignis heideggeriana, servindo como inspiração e guia.
  • Lasma Pirkina, em Das Ereignis, trata Heidegger como fonte primária de inspiração para filosofia subsequente do evento, avaliação considerada inválida para Marion e Romano, pois examinar seu pensamento através da lente da Ereignis heideggeriana desorienta e distorce ideia de fenomenalidade do evento.

Relação com Heidegger: “com e contra Heidegger”

  • Distância entre concepções de Marion e Romano e a Ereignis heideggeriana é estabelecida para evitar reduzir contribuições originais a uma série de notas de rodapé a Heidegger.
  • Filosofia de Heidegger exerce papel vital na formação das contas de fenomenalidade e subjetividade de ambos, mas influência deriva principalmente de trabalhos anteriores a Contribuições à Filosofia (Do Acontecimento), não da noção de Ereignis.
  • Marion e Romano lidam com definição heideggeriana do fenômeno em suas concepções de evento; paralelamente ao uso de Dasein, Marion sugere adonné e Romano propõe advenant para ser humano.
  • Compreensão da fenomenalidade do evento e concepções do sujeito podem ser descritas como estando “com e contra Heidegger”; estudo engajará com legado heideggeriano e sua recepção por Marion e Romano em detalhe, sem apelar para ideia de Ereignis.

Abordagens fenomenológicas contemporâneas ao evento: Dastur e Barbaras

  • Françoise Dastur, em “Phenomenology of the Event: Waiting and Surprise”, pergunta o que nas fenomenologias husserliana e heideggeriana torna possível uma “fenomenologia do evento”, argumentando que não há pensamento possível do evento que não seja também pensamento da fenomenalidade.
    • Dastur prefere considerar fenomenalidade do evento a partir de modelos husserliano e heideggeriano, sem buscar ir além deles.
  • Marion e Romano, em contraste, buscam fenomenalidade do evento fora dessas versões da fenomenologia, oferecendo contas alternativas que reconfiguram compreensão da própria fenomenologia.
  • Renaud Barbaras aborda noção do evento em termos de correlação entre sujeito e mundo, propondo conceito de “arquievento” (archi-événement) como fonte de manifestação e subjetivação, que nasce do arqui-movimento do mundo.
    • Barbaras afirma que, com arquievento, cruza-se limiar da metafísica, posicionando-o além da correlação fenomenológica e, portanto, além da fenomenologia; sua noção de evento fica fora do escopo da investigação fenomenológica aqui apresentada.

Questões metodológicas e hermenêuticas

  • Estudo oferece compreensão fenomenológica do evento, considerando-o como fenômeno e abordando eventos que acontecem a seres humanos finitos no mundo (nascimento, morte, amor, doença, acidente, perda).
  • Foco em Marion e Romano justifica-se por quatro razões principais:
    • Proposta de versão fenomenológica do evento que expande fenomenologia sem transgredi-la.
    • Distinção estrita e sistemática da fenomenalidade do evento de outros modos de fenomenalidade.
    • Engajamento com fenômeno do evento como cerne de seus projetos fenomenológicos.
    • Reconsideração da subjetividade à luz do evento, com novos nomes para sujeito (adonné, advenant) e compreensão de que “subjetivação” torna-se possível através do evento.
  • Abordagem não é comparativa; pensamento de Marion e Romano será discutido separadamente para dar conta justa de cada um, embora haja momentos comparativos quando referem trabalhos um do outro.
  • Fenomenologia é entendida como possibilidade (segundo Heidegger), não como versão atualizada absoluta; “nova fenomenologia francesa” é resultado de tais transformações, e encontro filosófico de Marion e Romano com evento traz transformação radical da fenomenologia.

Estrutura da obra e objetivos dos capítulos

  • Primeira parte (capítulos 1 e 2) aborda questão “O que é evento?”, explorando fenomenalidade do evento.
    • Capítulo 1: evento na fenomenologia da doação de Jean-Luc Marion.
      • Apresenta contornos da fenomenologia da doação e discute papel e lugar do evento.
      • Evento é fenômeno paradigmático, estabelecendo polo de fenomenalidade (eventicidade) contra outro polo (objetidade).
      • Marion amplia e muda critérios de fenomenalidade em relação a Husserl e Heidegger, destacando papel crítico da hermenêutica para decidir entre modo de eventicidade ou objetidade.
    • Capítulo 2: fenomenalidade do evento em Claude Romano.
      • Inicia com distanciamento de Romano da ontologia fundamental heideggeriana e sua transformação em hermenêutica eventual.
      • Distingue eventos de fatos, descrevendo características do evento.
      • Fenomenalidade do evento leva a reconsiderar problemas da fenomenologia (mundo, possibilidade, temporalidade, experiência) sob nova perspectiva.
  • Segunda parte (capítulos 3 e 4) aborda questão “Quem experiencia o evento?”, investigando transformação da subjetividade.
    • Capítulo 3: noção de adonné em Marion.
      • Discute crítica de Marion a concepções anteriores de subjetividade e foca na “subjetivação” do adonné pelo evento.
      • Adonné fornece conta não transcendental do sujeito, que só se torna si mesmo através da recepção do evento.
      • Aborda conta de Marion da redução em relação à superação do transcendentalismo, incluindo crítica de Romano ao método da redução na fenomenologia da doação.
    • Capítulo 4: noção de advenant em Romano.
      • Romano cunha termo advenant para falar de ser humano, abandonando perspectiva transcendental.
      • Engaja criticamente com outros modelos de sujeito, especialmente Dasein heideggeriano, por não permitirem que eventos se mostrem.
      • Foca na “subjetivação” do advenant pelo evento, colocando evento do nascimento no centro de sua configuração.
      • Utiliza noção de ipseidade para indicar transformação do advenant diante do evento, desenvolvendo realismo fenomenológico por meio de abordagem não transcendental.

Uso dos conceitos de sujeito e subjetividade no estudo

  • Marion e Romano propõem novos nomes (adonné, advenant) para substituir noção de sujeito, resultado de crítica à formação mesma da subjetividade na fenomenologia e necessidade de transformar papel e função do que antes era “sujeito” na experiência de eventos.
  • Advenant e adonné não são sujeitos e não incluem mais qualquer forma de subjetividade; podem ser chamados de pós-subjetividades, respondendo à questão de Nancy “Quem vem depois do sujeito?”.
  • Novos termos ocupam lugar do sujeito, tentando superá-lo e descentrá-lo, oferecendo novo modo de pensar papel do ser humano fenomenologicamente; ainda assim, não estão totalmente fora da tradição do sujeito.
  • Uso dos termos “sujeito” e “subjetividade” refere-se principalmente a essas noções como emergiram e foram reformuladas na tradição da filosofia moderna e na fenomenologia husserliana.
  • Par de termos “self” e “ipseidade” também são discutidos; “ipseidade” (tradução de Selbstheit e ipséité) adquire significado filosófico no século XX, principalmente com Heidegger, oferecendo alternativa a “sujeito” e “subjetividade”.

Conclusões prospectivas sobre impacto da fenomenologia do evento

  • Fenomenologias do evento permitem articular concepção mais realista do fenômeno, pois descentramento do sujeito resultante da fenomenalidade do evento retira seu papel constitutivo frente ao fenômeno.
    • Fenomenalidade do evento não pode ser regulada por nada além do próprio fenômeno; acontecimento do evento não depende do sujeito, pavimentando caminho para entendimento realista do fenômeno.
  • Fenomenologia do evento amplia concepção de racionalidade na fenomenologia, pois razão fenomenológica é moldada pela compreensão da fenomenalidade e subjetividade.
    • Tematização de eventos nas fronteiras da fenomenologia leva à transformação da razão fenomenológica; evento re-estabelece logos dos fenômenos e traz novo logos.
    • Nesta nova concepção de razão, eventos não são mais excluídos do pensamento e sujeito não é mais entendido como força central e autárquica na constituição do mundo.
  • Estudo busca contribuir para discussões sobre fenomenalidade do evento e suas pós-“subjetividades” na nova fenomenologia francesa, focando em Marion e Romano, que ampliam logos dos fenômenos e traçam novo modo de compreender ser humano à luz do evento.
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