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O Evento na Fenomenologia da Doação

FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.

Introdução à fenomenologia da doação de Jean-Luc Marion

  • Embora temas como dom, doação, teologia e Descartes predominem na recepção de Jean-Luc Marion, sua contribuição para discussões sobre evento na fenomenologia contemporânea não foi totalmente negligenciada, ainda que sua compreensão da fenomenologia raramente seja analisada à luz do fenômeno do evento.
  • Renovação da fenomenologia por Marion, a partir da perspectiva do evento, introduz nova categoria de fenomenalidade sob nome de “eventicidade” (événementialité).
  • Conceito de evento desenvolve-se gradualmente no pensamento de Marion, desde obras iniciais até trabalho posterior Negative Certainties, que oferece conta plenamente desenvolvida.

A fenomenologia da doação: princípios e redução

  • Meta principal de Marion é liberar fenomenalidade de condições externas que não derivam do próprio fenômeno, afirmando primado da doação (Gegebenheit, donation) como característica fundamental de todo fenômeno, que é primeiramente dado antes de ser objeto constituído ou ser (Seiende).
    • Doação torna-se ponto último para determinação da fenomenalidade, complementando definição heideggeriana de fenômeno como “o que se mostra, auto-exibição, o manifesto” com afirmação de que “o que se mostra primeiramente se dá”.
    • Centralidade da doação em Husserl evidencia-se em seu “princípio dos princípios”, que vincula doação à intuição, enquanto Marion argumenta que descoberta fundamental da fenomenologia reside no primado incondicional da doação do fenômeno, que precede intuição.
  • Redução fenomenológica é redefinida por Marion como “operador da doação”, pois permite ao fenômeno aparecer em si mesmo; estabelece novo e “último princípio” para fenomenologia: “tanta redução, tanta doação” (autant de réduction, autant de donation).
    • Redução transcendental de Husserl, método fundamental que visa correlacionar consciência e mundo e descrever estrutura intencional do ego, é modificada por Marion em sua “terceira redução”, que sucede compreensões de redução em Husserl e Heidegger.
    • Marion vê redução como fundamento da fenomenologia, descrevendo-a como “soma de discussões e desacordos sobre doutrina e práticas da redução”.
  • Três princípios da fenomenologia husserliana (“tanto aparecer, tanto ser”, “Retorno às coisas mesmas” e “princípio dos princípios”) são considerados inadequados por Marion porque não garantem direito do fenômeno de aparecer a partir de si mesmo como dado, subordinando aparência a ser, negligenciando redução ou condicionando doação à intuição, ao ego e ao horizonte.
  • Princípio final de Marion, “tanta redução, tanta doação”, visa dar primazia ao fenômeno mesmo, mostrando que aparecimento dos fenômenos provém de iniciativa própria e não depende de condições ou determinações exteriores.
  • Terceira redução, redução à doação, distingue-se de redução husserliana ao objeto e redução heideggeriana ao ser por não limitar fenomenalidade aos horizontes da objetidade (Gegenständlichkeit) e da entidade (Seiendheit), libertando doação dessas condições.

As reduções de Husserl e Heidegger como modos limitados de doação

  • Redução transcendental de Husserl visa apreender objeto constituído pela consciência, interpretando todos os modos de doação em termos de objetidade devido à ênfase na consciência, que determina fenomenalidade reduzindo todo fenômeno à certeza de presença atual.
  • Redução heideggeriana, identificada por Marion no projeto de ontologia fundamental, é desempenhada por Dasein como redução à entidade (étantité), onde fenômenos aparecem em termos de horizonte subjetivo do Dasein, que se torna condição para ser dos entes, paralelamente ao ego transcendental husserliano.
    • Uso posterior de “es gibt” por Heidegger, embora sugira dado de ser e tempo, não destaca conceito de doação (Gegebenheit) e atribui caráter doador à Ereignis, que se torna mais primordial que doação, segundo análise de Marion.
  • Ambas as reduções oferecem conta limitada da função central da doação, impondo condições de possibilidade sobre o dado; terceira redução de Marion busca desdobrar horizonte da doação para fenômenos, permitindo pluralidade de horizontes sem impor condições à auto-exibição.

Determinações do fenômeno dado

  • Doação de um fenômeno é ilustrada por meio de “determinações do fenômeno dado”, que explicam caráter da doação no aparecimento: anamorfose, chegada imprevisível (arrivage), fait accompli, incidente, evento e ser dado.
    • Determinações enfatizam novo modo de recepção dos fenômenos, originando-se em sua doação e sendo modos pelos quais fenômenos se manifestam, obrigando adonné a recebê-los de acordo com essas determinações.
  • Anamorfose destaca como recepção de fenômeno dado provém de “distância (um alhures)” que orienta receptor para o recebido, indicando modo não subjetivo de aparecimento.
  • Chegada imprevisível refere-se à chegada súbita e contingente do fenômeno, sublinhando sua individuação singular e não mediação pelos horizontes da objetidade ou sentido do ser.
  • Fait accompli enfatiza facticidade do fenômeno, impondo finalidades de modo independente de qualquer causa, como exemplificado na amizade entre Montaigne e La Boétie.
  • Incidente denota acontecimento na recepção do fenômeno, consistindo em puro surgimento imprevisível e não constituível, relacionado à concepção medieval de acidente (symbebekos) fora do regime da ousia.
  • Evento, como determinação final, possui privilégio de reunir todas as determinações anteriores, sendo fenômeno dado que se mostra a partir de si mesmo com características de acontecimento, contingência, individuação singular, facticidade e vinda sem causa.

O dom na fenomenologia da doação

  • Dom é tratado por Marion como exemplo privilegiado de doação, entendido como “dado como dobra da doação”; debate com Derrida centra-se na possibilidade de pensar dom fora de economia de troca.
    • Marion propõe redução ao dom que põe entre parênteses um ou dois de seus três aspectos (doador, presente e receptor), mostrando que dom é governado por regras diferentes das aplicadas a objeto ou ser.
    • Derrida argumenta que dom, se identificado como tal, é cancelado ao ser reintroduzido em círculo de troca, afirmando sua impossibilidade fenomenológica, enquanto busca relação com dom além do círculo econômico e da determinação fenomenológica.
  • Divergência origina-se de diferentes compreensões da capacidade da fenomenologia; Marion usa doação para fornecer sentido ampliado de fenomenologia, permitindo conceber dom sem apelo à noção de troca, enquanto Derrida distingue etimologicamente “Gabe/don” de “Gegebenheit/donation”, negando relação fenomenológica entre doação e dom.

O fenômeno saturado

  • Fenômeno saturado é categoria central na fenomenologia da doação, visando gerar nova categoria de fenômenos como dados não regidos por horizonte ou ego, possibilitada pela liberação da fenomenalidade de estruturas metafísicas remanescentes em Husserl.
    • Fenômenos saturados invertem relação entre intuição e intenção, apresentando excesso de intuição sobre conceito ou intenção, contradizendo definição metafísica de verdade como adaequatio e ideia de fenômenos como objetos.
  • Marion classifica contribuição da intuição em três níveis: fenômenos pobres (intuição superdeterminada pelo conceito), fenômenos de direito comum (intuição regulada adequadamente pelo conceito) e fenômenos saturados (intuição transborda o conceito).
    • Intuição “doadora” é selo da doação, sendo excesso do fenômeno saturado proveniente de superabundância da intuição doadora que enfraquece capacidades intencionais.
  • Definição comum de fenômenos como objetos, herdada de Kant e Husserl, subsume fenômenos sob horizonte de aparecimento e ego constituinte; fenômeno saturado, em contraste, não é constituído pela consciência, mas dá-se a si mesmo excedendo toda capacidade subjetiva.
  • Fenômeno saturado ecoa ideia estética kantiana e sublime, mas move centro da fenomenalidade além da objetidade, invertendo categorias kantianas do entendimento para mostrar excesso de intuição.
    • Marion associa quatro tipos de fenômenos saturados a categorias kantianas de modo invertido: evento (quantidade), ídolo (qualidade), carne (relação) e ícone ou rosto do outro (modalidade).
    • Quinto tipo, fenômeno da revelação (Jesus Cristo), é saturado em todos os quatro aspectos, denominado “paradoxo dos paradoxos”.
  • Fenômeno saturado é definido como “contra-experiência”, invertendo compreensão de experiência e gerando nova categoria onde fenômeno é dado de modo excessivo, não apreendido por conceito ou intencionalidade, tornando “eu” em “mim” passivo.
  • Papel paradigmático do fenômeno saturado é atribuído à noção de evento em Negative Certainties, levantando questões sobre papel da hermenêutica no aparecimento e como fenômeno particular pode tornar-se referência para toda fenomenalidade.

Fenomenalidade: objetidade e eventicidade

  • Noção de evento gradualmente ganha importância na fenomenologia da doação, levando Marion a posição radical que entende eventicidade como novo modo de fenomenalidade, claramente classificado em Negative Certainties como um dos dois modos de fenomenalidade, junto com objetidade.
  • Tensão em obras anteriores entre evento como determinação da doação e como fenômeno saturado é resolvida com definição de eventicidade como modo de fenomenalidade.
  • Papel da hermenêutica, questão longamente debatida, é abordado por Marion em Negative Certainties, adquirindo papel central para distinguir entre objetidade e eventicidade de um fenômeno.

Os dois usos do evento em obras iniciais

  • Em Being Given, evento aparece tanto como determinação da doação quanto como exemplo de fenômeno saturado, gerando questão sobre coerência dessas duas contas.
    • Como determinação da doação, evento mostra “si” do fenômeno, caracterizado por capacidade de produzir-se e mostrar-se por iniciativa própria, suspendendo princípio de causalidade e sendo definido por irrepetibilidade, excessividade e possibilidade.
    • Evento reúne todas as outras determinações da doação, sendo característica da eventicidade agregá-las.
    • Como fenômeno saturado, evento excede categoria de “quantidade” kantiana, não podendo ser previsto ou unificado em horizonte individual, exemplificado por batalha de Waterloo com múltiplos horizontes.
  • Ausência de explicação abrangente desses dois entendimentos em Being Given é suprida em Negative Certainties, onde noção de evento acede a seu lugar próprio, sendo definida tanto como polo paradigmático de fenomenalidade quanto como fenômeno saturado, unificados com base na eventicidade como polo de fenomenalidade.

O evento como polo de fenomenalidade em Negative Certainties

  • Marion desenvolve características do evento em oposição às categorias kantianas do entendimento, mostrando como evento difere e supera condições da objetidade.
    • Quanto à quantidade, evento não pode ser previsto, pois não consiste em partes quantificáveis cuja soma forme um todo previsível.
    • Quanto à qualidade, evento não se conforma à regra de magnitude intensiva, pois seu grau não pode ser medido, diferindo de objetos tecnológicos redutíveis à forma.
    • Quanto à relação, evento suspende princípio de razão suficiente e relação causal, pois seu surgimento imprevisível não depende de causa precedente, e causa só é conhecida posteriormente, criando paradoxo entre prioridade ontológica e posterioridade epistemológica.
    • Quanto à modalidade, evento suspende noção de possibilidade ligada a condições formais da experiência e ao ego transcendental, pois impõe sua própria possibilidade, convertendo “eu” ativo em “mim” passivo.
  • Temporalidade do evento é não apresentável e indisponível, acontecendo de modo inesperado e passando subitamente, dado pelo tempo de modo que não se preocupa com o sujeito, revelando contra-experiência.
    • Questão do tempo permanece periférica na fenomenologia da doação, com Marion afirmando que tempo é questão de doação, não de consciência.
  • Exemplos de eventos fornecidos por Marion incluem passante de Baudelaire, nascimento, batalha de Waterloo e discurso em conferência, todos aparecendo no reino fenomenal da eventicidade, mas podendo também ser interpretados segundo objetidade, perdendo características especiais.

Eventicidade ou objetidade: o papel da hermenêutica

  • Distinção entre aparecimento de fenômeno como evento ou objeto resulta de decisão hermenêutica, com Marion atribuindo nova função à interpretação em Negative Certainties.
    • Marion não adota distinção kantiana entre fenômenos e númenos baseada em tipos de intuição, mas diversifica intuição segundo relação com conceito, classificando fenômenos em pobres, de direito comum e saturados (eventos) com base no grau de intuição.
    • Saturação e eventicidade vinculam-se mutuamente: fenômeno mostra-se mais saturado quanto mais se dá com maior eventicidade.
  • Marion recorre à estrutura “como” (as-structure) hermenêutica de Heidegger, que diferencia Zuhandenheit e Vorhandenheit, para mostrar como mesma coisa pode aparecer de modos diferentes conforme contexto interpretativo.
    • Distingue, porém, sua hermenêutica da existencial heideggeriana, pois evento acontece sem minha mira, frequentemente contra minha intenção, exilando-me fora do que poderia ter sido para mim.
  • Hermenêutica dos horizontes proposta por Marion visa distinguir objeto de fenômenos dados primordialmente, operando alargamento da fenomenalidade ao decidir se dado aparece como objeto, ser ou evento.
    • Decisões hermenêuticas estão em jogo no aparecimento dos fenômenos, sendo possível decidir se fenômeno aparece como evento ou objeto, com eventicidade fazendo justiça à própria definição de fenômeno na fenomenologia da doação.
  • Alargamento da fenomenalidade pela eventicidade rejeita autoridade paradigmática da objetidade e proclama prioridade da eventicidade, determinando horizonte da doação por operação hermenêutica.

Conclusão: alargamento da fenomenalidade e transformação da subjetividade

  • Eventicidade como polo de fenomenalidade revela alargamento da fenomenalidade, tornando-se novo paradigma que resulta de ato hermenêutico no horizonte da doação, permitindo aparecimento de fenômenos saturados no modo da eventicidade.
  • Tal alargamento sugere nova racionalidade baseada na eventicidade que suspende qualquer regra a priori sobre fenomenalidade, implicando nova compreensão do “sujeito”, denominado adonné.
    • Assim como objeto requer seu sujeito (ego transcendental) para constituição, evento traz seu próprio “sujeito”, mas este não tem função constituinte; evento descentraliza e dessubjetiva sujeito, fazendo do adonné o que vem depois do sujeito.
  • Transformação da fenomenalidade leva diretamente à transformação da subjetividade, tema a ser explorado na segunda parte do estudo quanto aos resultados para sujeito fenomenológico.
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