estudos:marion:ereignis-reencobrimento
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| + | ====== EREIGNIS, UM RE-ENCOBRIMENTO ====== | ||
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| + | //MARION, Jean-Luc. Étant donné: essai d’une phénoménologie de la donation. 2e. ed. Paris: PUF, 1998.// | ||
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| + | * Certamente, em um primeiro momento //Tempo e Ser// confirma e radicaliza o que avançava //Ser e Tempo//: a fenomenalidade do ser tem parte ligada com um " | ||
| + | * "Do ente dizemos: ele é. Tomando em vista o que concerne ao ' | ||
| + | * Mas esta viragem linguística marca mais radicalmente um reviramento conceitual: "... o ser [ele mesmo], a entrada em presença (// | ||
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| + | * Em que consiste esta mudança decisiva? Em que Heidegger admite que, se somente o ente é e se o ser ele mesmo não é, o ser só pode se pensar como se dá — tomado em uma doação | ||
| + | * Ao contrário do começo grego, onde "... ser, // | ||
| + | * Pensar que " | ||
| + | * Primeiro porque é preciso reconhecer a impossibilidade de ter o ser no horizonte do ser (somente o ente é, o ser não é), portanto a obrigação de atribuí-lo a um novo horizonte | ||
| + | * Em seguida porque a doação, desde sua primeira descrição, | ||
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| + | * Com efeito, como compreender que "o ser se retrai (//sich entzieht// | ||
| + | * "Um dar (// | ||
| + | * É preciso absolutamente conceber que a retração do dar (dom dando) não vem contradizer, | ||
| + | * O dar (//Geben//) se retém fora do dom (//Gabe//), de sua visibilidade e de sua disponibilidade, | ||
| + | * Por uma consequência inevitável, | ||
| + | * O dar só dá plenamente o dado ao abandoná-lo decididamente — portanto ao dele se retrair | ||
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| + | * Aliás, o equilíbrio, | ||
| + | * Com efeito, a diferença não falta ao ser, porque o pensamento só chegaria à sua retração, sua falta e seu defeito | ||
| + | * Ao contrário, o pensamento não tem nada a pensar para além desta retração, mas somente esta retração mesma como o próprio do ser e seu avanço o mais íntimo | ||
| + | * Desde então que não se trata mais de pensar diretamente o ser como tal (à maneira de um ente), mas sua retração como tal, pois que esta retração se dá como o ser | ||
| + | * O diagnóstico sumário sobre o niilismo e a primeira investigação sobre a diferença ontológica se confundem em um mesmo desconhecimento da natureza da retração e do que a identifica ao ser | ||
| + | * Em compensação, | ||
| + | * Pois ele somente torna possível, de um mesmo golpe, a diferença de ser e de ente e a retração: o ser (e o tempo) difere e se retrai, porque obedece a uma única "lei de essência" | ||
| + | * O ser se retrai do ente, porque o dá; ora toda doação implica que o dar desapareça (se retraia) na exata medida em que o dom aparece (avança), precisamente porque dar demanda de [se de-]partir | ||
| + | * O ser avança em sua própria retração — este paradoxo só se esclarece a partir da doação | ||
| + | * A doação somente descobre o ente em (e sem) seu ser, portanto também bem a diferença ontológica que o niilismo | ||
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| + | * Heidegger cumpriria então isto diante de que Husserl havia falhado — pensar o ser e o ente no horizonte da doação, reconhecida como tal? | ||
| + | * Para responder, é preciso primeiro tomar ato do que Heidegger sublinha com força: a doação do " | ||
| + | * Este enigma deve preservar de toda regressão metafísica, | ||
| + | * E se fosse preciso contudo determiná-lo, | ||
| + | * Em suma, é preciso escrever o " | ||
| + | * A indeterminação não salva somente o enigma, defende a pura doação | ||
| + | * Esta exigência opera assim uma maneira de colocação entre parênteses de toda transcendência, | ||
| + | * Para que " | ||
| + | * O enigma do " | ||
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| + | * Ora, ao encontro de sua prudência declarada, Heidegger levanta imediatamente o anonimato do " | ||
| + | * Viola ele mesmo o interdito, tão logo o formulou, ao batizar o " | ||
| + | * Esta atestação depende de fato de uma interpretação, | ||
| + | * Heidegger o admite explicitamente: | ||
| + | * Mas de que direito justificar esta interpretação? | ||
| + | * Esta pretensa maior luz obscurece então; ofusca pelo acontecimento apropriador do acontecimento apropriador também bem o ser (o que permanece coerente com o projeto), que a doação (o que contradiz o projeto) | ||
| + | * Heidegger o confessa aliás à letra: "O dom da presença retorna ao acontecimento apropriador (//Eigentum des Ereignens// | ||
| + | * Dito de outro modo, o primeiro gesto — reduzir a presença (o ser) a um dom apropriado à doação — se acaba (e também se anula) em um segundo — abolir a doação no acontecimento apropriador | ||
| + | * Heidegger só reconhece a doação para além ou fora do ser, senão para desconhecê-la imediatamente, | ||
| + | * Doação certamente, mas de breve transição entre ser e // | ||
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| + | * Esta substituição importaria pouco, se se tratasse apenas de palavras: mas trata-se, como frequentemente com as palavras, do essencial | ||
| + | * O // | ||
| + | * Quando o ser " | ||
| + | * O recobrimento do " | ||
| + | * Pensa-se que a irrupção do // | ||
| + | * Emprega certamente as propriedades, | ||
| + | * Sobretudo esta denegação o dispensa de pensar a doação como tal | ||
| + | * Uma única questão basta para mostrá-lo: a " | ||
| + | * Heidegger mobiliza certamente — e mais potentemente que todo outro fenomenólogo — certas propriedades da doação, mas a escraviza em proveito de uma empresa que dela recusa por princípio a função fenomenológica de princípio | ||
| + | * Aqui como por vezes, mascara mais que mostra; e mascara sobretudo que mascara | ||
| + | |||
| + | * Heidegger e Husserl procedem assim da mesma maneira e até o mesmo ponto | ||
| + | * Um e outro recorrem de fato à doação e dela confessam a função de princípio último; pelo que a atestam e atestam do mesmo golpe seus gênios respectivos | ||
| + | * Mas um, ao chegar à objetidade, deixa escapar a doação, ao passo que o outro, ao atribuir a entidade à conta do // | ||
| + | * Um e outro conhecem a doação sem reconhecê-la de direito como tal | ||
| + | * Pergunta-se: | ||
| + | * Para responder, convém retornar ao princípio último — " | ||
| + | * Se a doação pôde se deixar recobrir por instâncias que lhe permanecem contudo de direito subordinadas, | ||
| + | * Em suma, se a objetidade ou a entidade puderam mascarar a doação nelas, é que suas reduções respectivas se limitavam a reconduzir até o objeto ou ente, atribuindo por adiante condições de possibilidade ao dado — nada se dá senão como objeto ou ente —, impondo por adiante ao dado fenomenal de só se dar segundo duas modalidades particulares da manifestação | ||
| + | * A questão de uma doação fenomenológica radical pode então legitimamente se colocar como a de uma redução pura, que nenhum horizonte incontestado delimitaria | ||
| + | * A esta condição somente a doação se tornaria então a ela mesma seu próprio horizonte, porque obedeceria à possibilidade de se determinar a partir dela mesma | ||
| + | * Então nada do que aparece apareceria de outro modo senão enquanto dado; pois o fenômeno sobre o modo do objeto ou do ente só pode aparecer ao se encontrar já mais originalmente dado | ||
| + | * Objetidade e entidade poderiam assim se pensar como simples variações, | ||
| + | * Também bem trata-se doravante de definir a doação nela mesma e a partir dela somente | ||
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