Caron (2005:98-100) – fenomenologia é ou não é ontologia?

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A tarefa infinita de determinar as vivências, e a resolução da questão da estrutura do ego dentro da exigência conferida pelo dogma científico da evidência (i.e. domínio do olhar e não da fonte desse olhar) : estes são os dois aspectos principais da fenomenologia tal como é apresentada por Husserl, que afirma que o problema da dação de um objeto ao ego “só pode ser resolvido na esfera da pura evidência, na esfera da presença absoluta, que, como tal, é a norma última”, e “que, por conseguinte, devemos seguir, uma a uma e procedendo pela vista, todas as figuras fundamentais do conhecimento e todas as figuras fundamentais dos objetos que entram, total ou parcialmente, na presença, a fim de determinar o sentido de todas as correlações que devem ser esclarecidas”. Mas, e esta é a questão que Heidegger se coloca, como é que a evidência e o olhar podem ser a “norma última” se o sujeito se encontra a si mesmo no modo do enigma e encontra em si mesmo uma inevitável dimensão de noite? Não serão estas normas inadequadas a partir do momento em que optamos por considerar a subjetividade na totalidade das facetas da sua constituição interna, ou seja, como relação a si mesmo na angústia do mistério da sua própria origem e como proximidade ou intimidade deste mistério com a sua própria personalidade? Como apelar ao olhar quando esse olhar depende do encontro com uma obscuridade que lhe impõe o seu carácter primário? Como evitar esgotar em vão a empresa de determinar a globalidade das correlações da consciência com os seus objetos, em vez de voltar ao ser da fonte dessa mesma dação?

original

  1. GA20, p. 98 : « Es gibt keine Ontologie neben einer Phänomenologie, sondern wissenschaftliche Ontologie ist nichts anderes als Phänomenologie ».[↩]
  2. Ideen III, Beilage I, § 6, Hua V, p. 129 : « Denn an sich, wir werden davon sprechen, ist Ontologie nicht Phänomenologie ». Rappelons que, comme l’atteste la note du § 7 de SuZ (ET7) (p. 38) concernant Husserl, Heidegger avait accès aux travaux inédits de Husserl.[↩]
  3. Husserl n’aura de cesse, pour cette recension, qu’il n’ait cherché des collaborateurs que Heidegger fréquentera et dont il fera aussi partie.[↩]
  4. Hua II, p. 76 ; L’idée de la phénoménologie, p. 102. Nous soulignons.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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