Caron (2005:809-810) – cura – si mesmo – eu – sujeito

Nossa tradução

Esta diferença fundamental, no entanto, jamais assinalada pela nossa consciência, e que destaca-se da simples análise disto que contém a expressão “in-sein”, permite igualmente compreender as duas características do si mesmo destacados por Heidegger algumas linhas adiante: a Sorge (a cura), condição de possibilidade da Besorge (a ocupação). “No ser-em-o-mundo voltado para, aberto sobre algo, está presente isto em direção de que se orienta a crua da vida: isto que é a cada vez o mundo. A mobilidade da cura tem o caráter do comércio (Umgangs) da vida fática com seu mundo. O em-direção-de-que da cura é o com-que do comércio. O sentido do ser efetivo e da existência do mundo se funde em e se determina a partir deste caráter: isto a que o comércio ocupado tem lida. O mundo é aí enquanto isto que sempre já de certa maneira é para cura. O mundo é articulado em função das orientações possíveis da cura como mundo-ambiente (Umwelt), mundo comum e mundo-do-si (Selbstwelt). Correlativamente, o se-cuidar é cura das coisas necessárias (de meios de subsistência), do ofício, dos prazeres, da tranquilidade, da sobrevivência, do conhecimento prático de algo, do saber relativo a…, da consolidação da vida nos seus fins últimos” 1. A cura concede o si mesmo de fazer aparecer um mundo junto do qual ele é e ao qual ele pode se relacionar, do qual ele pode em uma palavra se ocupar, ocupação que pode dar lugar a uma perda do si mesmo neste eu substancial que é corolário de uma ipseidade não se desejando concernida senão pelo e-vidente e não se crendo destinada senão ao ente, à inquietude cotidiana e ao afazer doméstico. Este eu destacado de sua fonte não é senão um reflexo derivado da atividade transcendental da ipseidade. Ele persiste em não ser senão um ente. Heidegger o chamará o a-gente a fim de sublinhar que não há na comunidade diferentes eu senão uma multiplicidade de entes todos semelhantes e partindo indiferentes, desviados de seu solo natal e se espalhando em todos os sentidos a fim de ocultar a obscuridade iniciadora das coisas e de encontrar algo como um lugar de habitação dissimulando a estranheza, todas levadas pela dinâmica de eclosão deste solo desertificado, todos voltados para o imediatamente consumível, para o espalhado e não para o espalhamento, todos permanecendo na epiderme desta pulsação desveladora e não se apreendendo como uma tal epiderme, o que somente lhe permitiria no entanto aperceber esta maré ontológica dos quais eles são a espuma.

Original

(CARON, Maxence. Heidegger. Pensée de l’être et origine de la subjectivité. Paris: CERF, 2005, p. 809-810).

  1. GA61/IPA, p. 21[↩][↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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