Excertos do livro “Aprendendo a Pensar”, Tomo I.
5. A Hermenêutica da Introdução à Metafísica: Concebida como um retorno à fonte originária de sua essencialização, a superação da metafísica e por conseguinte a investigação da questão sobre o sentido e a Verdade do Ser parece reduzir-se a um simples renascimento do pensamento pré-socrático. À primeira vista a Introdução dá a aparência de não ser senão um esforço de tradução e interpretação filosófica da doxografia primitiva dos gregos. Em todos os capítulos as questões são sempre conduzidas através de pacientes discussões sobre a significação originária de determinadas palavras entre os primeiros filósofos gregos. Aprendendo a pensar I: Itinerário do Pensamento de Heidegger
Todo esse processo de desfiguração não foi um acaso, nem se trata de um processo, que poderia ter sido sustado. É o vigor do próprio esquecimento do Ser que se destina historicamente durante toda a época da metafísica. Nesse sentido o retorno às origens da metafísica não é um esforço para fazer renascer o pensamento pré-socrático, como pretendia Nietzsche. É a imposição de um pensamento de essencialização (— das wesentliche Denken, diz Heidegger —), um pensamento, isto é, que a partir da própria essencialização da metafísica procura superar-lhe o esquecimento da Verdade do Ser. Por isso a Hermenêutica, que na Introdução conduz à dimensão originária da Essencialização do Ser, não se identifica com nenhuma hermenêutica científica, em cuja luz aparecerá sempre arbitrária e deturpadora. Aprendendo a pensar I: Itinerário do Pensamento de Heidegger
A dialética de presença e ausência da Verdade do Ser na História da metafísica é o que distingue a Hermenêutica da Introdução de qualquer hermenêutica científica. Essa se limita, em e por força de sua própria essencialização metafísica, ao pensado pelos filósofos da tradição. Visa com todo o rigor imposto por essa limitação reconstruir o que foi pensado. Para ela legado e pensado coincidem. Aquela, procurando pensar a essencialização da metafísica, situa-se aquém desses limites, na dimensão do não-pensado mas legado pelo pensamento da tradição. Visa uma “re-petição” do passado-presente, embora não pensado pelos filósofos da tradição. É uma hermenêutica que é o Hermes do não-pensado, isto é, que interpreta o pensado pela mensagem do não-pensado. A hermenêutica científica não é mais rigorosa. É apenas mais limitada do que a Hermenêutica da Introdução. Aprendendo a pensar I: Itinerário do Pensamento de Heidegger
O tema, Hermenêutica, Revelação, Teologia, como todo tema Essencial, é uma provocação e um desafio. Uma provocação, para o debate ser diálogo. Pois nos propõe identificar coisas que, em seu modo de aparecer, são diferentes. — Um desafio, para o pensamento pensar radicalmente. Pois nos impõe seguir um caminho capaz de chegar à identidade pela diferença. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
A Linguagem é a passagem misteriosa e, por isso mesmo, diretamente imperceptível de todos os caminhos do pensamento. Pensar a identidade de Hermenêutica, Revelação e Teologia a partir de sua diferença equivale a pensar o mistério recíproco da Linguagem fazendo-se língua, do Verbo fazendo-se carne, de Deus fazendo-se homem. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Na sua raiz mais profunda, todo pensamento pensa sempre reciprocamente a identidade a partir da diferença. Por ser simples, é uma resposta difícil de se entender logicamente. A resposta extingue a pergunta. Ora, uma pergunta, cuja resposta a extingue, não sobrevive na resposta. Não é uma pergunta Essencial. Falta-lhe radicalidade de estruturação para sustentar o vigor da resposta. É uma pergunta aparente que fala a língua in-diferente da irreflexão. Trata-se de uma língua tão in-diferente que pode tornar-se até a língua comum de todo mundo. Assim é a simplicidade da resposta que impõe a radicalização do pensamento, onde se articulam perguntas Essenciais. Para se chegar, portanto, à identidade de Hermenêutica, Revelação e Teologia pela diferença, fez-se necessária toda a coragem e toda a ascese de um pensamento radical. O que é um pensamento radical? Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Uma reflexão radical sobre a época atual da existência nos apresenta a necessidade de pensarmos a identidade de Hermenêutica, Revelação e Teologia a partir da diferença. Vivemos hoje um mundo essencialmente transiente, cujas estruturas de sustentação se esboroam em alta velocidade. Por toda parte tudo passa e nada permanece. O tempo entre a criação de um novo conceito e seu esboroamento se torna cada vez mais diminuto. Um exemplo. Para os aparelhos inventados antes de 1920 houve um intervalo médio de 34 anos entre a descoberta e a produção em massa. Já para a série que apareceu entre 1939 e 1959 o intervalo foi de oito anos apenas. E hoje o transistor, o gravador cassete, o walkie-talkie se precipitam sobre o homem num ritmo quase instantâneo. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Num mundo assim trancado em sua auto-suficiência produtiva, Deus está tão distante que já não há lugar para o Nada misterioso da religiosidade. O nome de Deus é o nome do mistério de outro mundo. As coisas perdem qualquer valência numinosa. Tudo é fugaz, transitório, profano e substituível. É neste contexto de distância de Deus e pro-fanidade do mundo que se põe ao pensamento radical o problema das relações entre Hermenêutica, Revelação e Teologia. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Estas poucas reflexões já bastam para abrir o horizonte de diálogo do pensamento radical que procura pensar a identidade de Hermenêutica, Revelação e Teologia a partir da diferença. Pois nos permitem perceber o apelo hermenêutico que nos advém da época de mistério de nossa existência. No jogo de recusa desta teologia está porvindo uma nova parusia do mesmo mistério de Cristo. Este novo advento se constrói na força que o Sim do mistério de Cristo confere ao Não lançado contra a interpretação do mistério e do homem pela racionalidade discursiva. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Aqui chegamos ao sentido originário de Hermenêutica. Na raiz de seu exercício, a hermenêutica não é nem teoria nem processo de interpretação. É o acontecer da Linguagem do Mistério na estrutura da língua. Há sempre hermenêutica . O que não há sempre é interpretação consciente da hermenêutica . Pois essa só se dá quando a Linguagem do Mistério vigente na interpretação recolhe em si todas as línguas das palavras de um texto. É aqui neste fazer-se língua do mistério da Linguagem que Hermenêutica, Teologia e Revelação se identificam em sua diferença. (Nós estamos mergulhados constantemente no mistério da Linguagem, o que nos faz sempre de novo encontrarmo-nos com a experiência provocante de sentirmos a impossibilidade de falarmos sobre a Linguagem, e nessa impossibilidade sentirmos a Linguagem de todas as nossas línguas. A Linguagem é a impossibilidade de falarmos sobre a Linguagem de tudo de que falamos.) Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Vivemos a Hermenêutica de uma existência re-volucionária. Tudo se contesta. Por toda parte age um re-volucionário. O que é um re-volucionário ? — É um homem, que diz não. Mas só é um homem, que diz não, por ser um homem, que já disse sim. Na dinâmica da negação articula o vigor de uma afirmação originária. O sim, que constrói, se dá na força do não, que subtrai. Ora, dar-se na medida e à proporção que se subtrai, é a parusia do Mistério de Cristo. A Hermenêutica de nossa existência revolucionária inclui, pois, o vigor Histórico do Mistério de Cristo. Aprendendo a pensar I: Cristo e a Re-volução do Pensamento
Não é difícil de se ver que giramos num círculo de genitivos: no mistério de existência, se edifica o vigor da fé. No vigor da fé vive o Mistério de Cristo. Não é senão a partir do Mistério de Cristo que a existência pode libertar-se do cristianismo para recuperar e viver sua Cristandade. A Hermenêutica revolucionária de nossa existência nos faz errar por um círculo. Mas, assim errando, não descobrimos apenas um círculo. Descobrimos a Essência da existência. Circular é o caminho de sua caminhada histórica. Entrar e permanecer no círculo é fazer a festa do pensamento. E por isso não somente a passagem do mistério da existência para o Mistério de Cristo é um círculo por partir do Mistério de Cristo para a existência. Cada passo dessa passagem circula também nesse círculo. E a tal ponto que, se não se aturar a circularidade dos genitivos, se perderá a disposição tanto de pensar como de crer. Aprendendo a pensar I: Cristo e a Re-volução do Pensamento
A palavra Hermenêutica deriva-se de hermeneutike, cujo sentido se determina pelo verbo, hermeneuein, que os romanos traduziram com interpretari. Hermeneuein, hermeneia e hermeneus não dizem, como sempre de novo se ouve, esclarecer no sentido de conduzir uma coisa estranha e obscura para o âmbito claro e familiar da razão e do discurso. Esta maneira de se entender a hermenêutica parte de pressupostos indiscutidos. Por um lado, supõe que razão e discurso são a coisa mais clara do mundo. Por outro, que o originário e decisivo é a discursividade e a racionalidade. Pois precisamente estes pressupostos é que discute e questiona o pensamento radical. O originário e decisivo não é o inteligível e racional mas o inefável e o mistério. Neste questionamento se elabora a identidade e diferença de língua e linguagem. E é esta con-juntura de identidade e diferença que evoca o radical grego, herm-, cuja forma primitiva iniciava com um digama, Werm-, posteriormente substituído pelo fonema h do ‘spiritus asper’. Como o latim verb-, o alemão Wort e o inglês word, o radical grego Werm- provém de uma mesma raiz, wer ou wre, que significa o falar e o dizer da língua enquanto interpretação do mistério. E só por isso foi possível chamar o intérprete dos deuses de Hermes e identificá-lo com a língua. Assim, hermeneuein, interpretar, não diz conduzir alguma coisa para a claridade da razão e o discurso da língua mas reconduzi-la a seu lugar de origem no mistério da Linguagem. Aprendendo a pensar I: Poder e Autoridade no Cristianismo
1) A jovialidade, isto é, a estrutura do comportamento jovem é constituída essencialmente por um projeto de possibilidades por virem. O comportamento jovem não é uma condição etária. É uma condição humana. A jovialidade transcende as realizações presentes, potenciando as estruturas de um futuro libertador a partir de um passado vigente. Somos jovens quando somos mais livremente o que fomos, por estarmos abertos ao que seremos. Os jovens são os argonautas da humanidade. Toda hermenêutica existencial principia aqui, com a determinação desta dinâmica de projeto da jovialidade. — Ora, o projeto da jovialidade vive sempre encarnado numa situação. Elabora-se a partir de um contexto histórico de determinações, que permite objetividade e diferenciação aos fenômenos de juventude de uma dada época. É o sentido da segunda pergunta: Que espaço de liberação concede nossa época ao comportamento jovem? Aprendendo a pensar I: Juventude e Tóxico
5. Para, nos caminhos da ciência, chegarmos à via da Historicidade, temos de aprender a pensar no meio do próprio des-espero da ciência que, não tolerando esperar, se atropela na impotência de seu poder em alcançar o mistério do pensamento. Um maior conhecimento crítico dos textos estabelecidos, uma explicação mais objetiva dos contextos sociais não nos ajudam a pensar o pensamento dos primeiros pensadores, se todo este esforço científico não tiver por pre-texto um diálogo a partir da coisa do pensamento. Sem o pre-texto de pensar, os recursos da ciência se tornam uma luz que tanto mais obscurece quanto mais esclarece. Pois pretender explicar o pensamento de um texto pela comparação com outros textos equivale a procurar esclarecer a veracidade de uma notícia de jornal, conferindo o maior número possível de exemplares da mesma edição. Mas o obscurecimento da ciência não provém de desleixo ou falhas nos métodos das pesquisas científicas. Deve-se ao abismo da con-juntura em que o mistério do pensamento envia a via Histórica do Ocidente. Por isso se impõe sobretudo questionar o próprio poder da ciência em sua impotência de pensar. É o que nos proporciona unia hermenêutica originária. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário
O verbo, hermeneus, significa trazer mensagens. O hermeneos, o mensageiro, pode ser posto em referência com Hermes, o mensageiro dos deuses. Ele traz e transmite a mensagem do destino que trama as vicissitudes da história de homens e deuses. Nem toda interpretação é uma hermenêutica . Somente a que descer até o vigor do mistério que estrutura a história. Na hermenêutica , a interpretação procura, retornando-lhe à proveniência, recuperar o vigor originário do pensamento. Originário, porque foi a redução deste vigor que deu origem à filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles, de quem a ciência é uma transformação Histórica. Nesta perspectiva, o problema da ciência não é apenas um problema de epistemologia. A verdade da ciência não é apenas um resultado entre outros resultados ou o conjunto de todos os resultados. É inseparavelmente o vigor do mistério e o vigor da verdade. O pensamento procura levar a sério a radicalidade de sua errância e sente no estrangeiro a nostalgia da pátria. Não rejeita a ciência com a onipotência de quem rejeita o bárbaro e primitivo. Para pensar, o pensamento sente a dependência de uma pro-vocação de sua coisa. Aceita sua decadência na filosofia e na ciência como uma outra infância, como um novo principiar da identidade do mistério. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário
A hermenêutica originária exige despojarmo-nos de tudo quanto julgamos já saber sobre o pensamento dos primeiros pensadores gregos. O que geralmente julgamos saber, advém-nos da tradição platônico-aristotélica: os primeiros pensadores, quando perguntavam pelos princípios da realidade, tomavam por objeto de especulação sobretudo a natureza. No termo de Aristóteles, eram physiologoi. Suas concepções eram ainda primitivas e ingênuas, se comparadas com o conhecimento da natureza alcançado pelas escolas de Platão e Aristóteles, pelos estóicos e nas escolas médicas posteriores. Uma interpretação, que se desenvolver no espaço destas pressuposições, não poderá deixar de ver nos primeiros pensadores simples precursores da filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles. Pois é dessas pressuposições que nos afastamos para, numa hermenêutica originária, pensarmos o pensamento destes pensadores a partir da própria coisa do pensamento. O único indício, que nos servirá de guia, se reduz apenas ao que é e pretende ser um pensamento originário. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário
Um pensamento originário é a coragem de descer às raízes das próprias possibilidades de pensar. Um pensamento originário é um pensamento radical. Procura interpretar os modos de ser da realidade, restituindo as estruturas de suas diferenças à identidade do mistério. O modo de ser, que nos apresenta como presente, não é originariamente um determinado presente cronológico. É tão antigo como a história. Algo, que é e sempre foi como é, por mais que se recue no tempo, é reconduzido ao vigor de um destino que estrutura a dimensão radical do Ser e por isso remonta para além de toda memória historiográfica. É a partir deste diapasão que nos fala o pensamento originário. O que é e como é o espaço-tempo de todas as coisas nas diferenças de seus modos presentes de ser é pensado num pensamento re-velador da identidade no mistério das dicotomias de ser e não ser, de movimento e permanência, de uno e múltiplo, de aparência e verdade. O propósito desta hermenêutica não é corrigir ou substituir-se à ciência. Nem mesmo é o diálogo pelo diálogo mas exclusivamente o que no diálogo se faz linguagem: a identidade que misteriosamente reivindica, de modo diferente, a nós modernos e aos gregos antigos, por ter aviado a aurora do pensamento no Dia do Ocidente. É na viagem deste Dia que o pensamento dos primeiros pensadores se faz originário. Originário não diz, portanto, uma determinação cronológica nem indica uma explicação diacrônica do modo de ser ocidental. Originária é a aurora em que a própria escuridão do Ser se dá em sempre novas vicissitudes de sua verdade, ora como pensamento ora como filosofia, ora como cristianismo ora como modernidade, ora como ciência ora como mito, ora como técnica ora como arte, ora como planetariedade ora como marginalidade, mas sempre em qualquer ora, tanto outrora como agora, só se dá enquanto se retrai como mistério. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário
Dentro dessa revolução libertadora, a interpretação do mito recupera a força de uma hermenêutica originária. O verbo hermeneuein significa transmitir, trazer mensagens. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito
Ho hermeneus, o mensageiro, pode ser posto em referência com Hermes, o mensageiro dos deuses. Ele traz e transmite a mensagem do destino que trama as vicissitudes da história dos homens. Nem toda interpretação é uma hermenêutica . Somente aquela que descer até à dinâmica do destino que estrutura a história. Nesse contexto o mito assume um outro sentido. Deixa de ser uma lenda — isto é, um relato de estórias sem verdade — para reaver toda a força de sua palavra. Pois ho mythos exprime o destino que se lega historicamente à existência. Por isso, em sua originalidade, todo mito é uma etiologia. A vivência de uma estruturação destinada. Só originadamente o mito é um relato, a expressão daquela vivência. A hermenêutica interpreta, então, o mito quando desce da expressão à dinâmica da vivência. E o faz numa variedade de níveis e de graus. E é de acordo com o nível de sua dinâmica e o grau de sua descida que a interpretação do mito se torna uma hermenêutica fenomenológica, uma hermenêutica psicanalítica ou uma hermenêutica existencial. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito
Muito mais elucidativo do que uma caracterização formal da diferença entre essas três hermenêutica s é o seu exercício. O que segue é uma tentativa de se exercer a hermenêutica existencial no mito da Árvore do Conhecimento. Trata-se de um dos mitos mais arcaicos e importantes da história ocidental. Encontra-se entre os versículos quarto do segundo e 24o do terceiro capítulo do livro do Gênese. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito
É esse o teor do Mito da Árvore do Conhecimento de acordo como o texto massorético. Deixando de lado algumas questões de crítica textual, referentes aos versículos 9 e 17 do segundo capítulo, tentaremos aqui uma interpretação hermenêutica . Semelhante tentativa exige despoj armo-nos de tudo quanto julgarmos já saber sobre o mito. O que mais comumente julgamos saber advém-nos da interpretação teológico-cristã. Para ela o mito é a história da queda do homem. Por essa queda entrou no mundo o pecado e, com o pecado, a morte, de cujo império o sacrifício de Cristo resgatou todos os que crêem. Uma interpretação, que se desenvolver no espaço dessa fé, não poderá deixar de admitir a articulação num mesmo mito de uma história sobre a queda no pecado com outra sobre a criação do homem. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito
Este pensar não é um fazer. É um deixar fazer-se. Ele pensa enquanto deixa ser. E é somente por isso que um pensar assim é o Hermes da Revelação. Pois deixa a revelação ser Revelação — o mistério de Deus no vigor da Linguagem de salvação — e não uma comunicação de sentenças sem evidência de conteúdo. É o Hermes da teologia. Pois deixa a teologia ser teologia — a história do mundo no mistério da Linguagem de Deus em Cristo — e não um dicionário de definições sem ordem alfabética. É o Hermes da hermenêutica . Pois deixa a hermenêutica ser hermenêutica — a Linguagem de mistério da existência — e não a teoria e método de tradução de uma comunidade lingüística para outra. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Esta nesciencia nesciente do mistério que se dá enquanto se retrai em nossa época de mistério é o princípio fundamental de toda hermenêutica digna deste nome. O nome, hermenêutica , deriva-se do verbo, hermeneúein, que os romanos traduziram com interpretari. Numa longa história de constituição foi-se firmando o costume de se entender hermeneúein e hermeneía, interpretari e interpretatio, como um nome comum, onde se empacotam todas as funções semânticas da linguagem: explicar, traduzir, comentar, expressar. No NT encontramos o nome usado para designar estas quatro funções semânticas da linguagem. (Assim por exemplo para explicar: ICor 12,10, hermeneía glossõn; para traduzir: Jo 9,7, Siloám — ho hermeneúetai apestalménos —; para comentar: Lc 24,27, dierméneusen autpis en pasáis tais graphais tà perl heauton; para expressar: At 14,12, ekáloun te ton Barnabãn Día, tón dè Paulon Hermen, epeidè autos en ho hegoúmenos tou lógou.) O denominador comum de todas elas costuma-se encontrar no fato de que sempre em qualquer função hermeneía e hermeneúein exercem o papel de esclarecer, seja uma mensagem obscura, uma língua estranha, uma passagem pouco clara ou uma vontade desconhecida. Por isso também, assim se usa dizer, a hermenéia se aplica às palavras divinas, à mensagem de Deus, que, sendo por sua própria natureza obscuras e misteriosas, necessitam de interpretação. Os métodos e técnicas, as leis e teoria desta interpretação nos proporcionam uma ciência, a hermenêutica . Ora, estas leis e métodos, estas técnicas e teoria da interpretação são os mesmos do pensamento objetivo que o homem emprega sempre que pretende conhecer em sua intenção o sentido de qualquer contexto semântico. Daí também a definição hoje corrente de hermenêutica : a leitura do sentido de uma estrutura significante em sua intenção significativa dentro de uma comunidade lingüística. No nível do pensamento objetivo da ciência hermenêutica não há como distinguir a exegese de um texto da escritura da interpretação de qualquer outro texto literário, do mesmo modo como no nível da química não é possível distinguir uma tela de van Gogh de um cartaz de coca-cola ou no nível da lingüística uma poesia, de um jingle de propaganda. Está muito certo, o método histórico-crítico, a filologia, a arqueologia, a história das formas literárias, a lingüística estrutural, a crítica das fontes e dos textos, a história comparada das religiões, a antropologia são meios e recursos indispensáveis à interpretação e ao entendimento da Escritura. O errado é pretender que tudo isso se dê sem nenhuma pré-compreensão e perspectiva prévia sobre o ser em causa no texto e no intérprete. Tal pretensão seria tão espirituosa como a de quem procurasse apreender a força criadora de um quadro de van Gogh só com a análise química das tintas ou quisesse encontrar-se com uma poesia só na análise estrutural da língua. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
A experiência grega do homem se construiu no Zõon lógon échon, de quem a formulação metafísica, animal rationale, não é de forma alguma uma tradução hermenêutica pelo simples fato de não nos traduzir para o nível de radicalidade da experiência grega. O homem não é um animal a quem se acrescentou razão e racionalidade. O homem é a vida da Linguagem, tanto no sentido do que sua humanidade chega a si mesma na passagem continua e recíproca da língua para a Linguagem como no sentido de que na sua humanidade a Linguagem se dá enquanto se retrai como língua. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
Se a partir desta perspectiva quiséssemos fazer uma tradução hermenêutica do Prólogo de São João, talvez nos servissem de aceno as seguintes palavras:
No princípio era a Linguagem e a Linguagem estava no Mistério e a Linguagem era Mistério. Toda palavra veio a ser língua por ela e sem ela nenhuma língua se fez língua. O Sim estava nela e o Sim era a língua dos homens. O Sim resplandece no não e nenhum não nega sem o Sim. A jovialidade enviada pelo Mistério fala do Sim de sorte que nela os homens creem no Sim. A jovialidade não é o Sim mas vem na revelação do Sim, como a língua em que os homens se entendem. A Linguagem estava no mundo, nela o mundo chegou a si mesmo mas nela o mundo não se reconheceu. Adveio na língua dos homens e os homens não a entenderam mas aos que a entenderam, deu o vigor do Mistério, deixando falarem as palavras do Sim. E assim a Linguagem se fez língua e atendeu entre as palavras, cheia da jovialidade, da verdade e da revelação do Mistério. Aprendendo a pensar I: Hermenêutica, Revelação, Teologia
O mistério da Existência nos advém hoje, isto é, se dá e se subtrai numa hermenêutica de negação. A força nadificante do não age por toda parte. As sombras da ausência do Sagrado desceram sobre o mundo. A luz da Divindade se extinguiu. O dia dos deuses, “der Göttertag” de Hölderlin, declinou na paisagem do Ocidente. Os homens e as coisas já não estão reunidos de modo visível e natural no seio de Cristo. Abateu-se sobre a “Terra do Ocaso” uma noite histórica cuja escuridão administram as potências do niilismo. Aprendendo a pensar I: Cristo e a Re-volução do Pensamento
O Pensamento Essencial é o pensamento precursor do Sagrado. É o pensamento da mudança de pensar. Da metánoia, da “voz, que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai-lhe as veredas”. Isso, no entanto, não significa que o Pensamento Essencial, por ser precursor do Sagrado, deságue na fé. Ao contrário. O Pensamento Essencial não somente pensa o seu tempo. Pensa também no seu tempo. Ora, o tempo de sua reflexão é a hermenêutica da re-volução. O pensamento não poderá deixar de ser, pois, um pensamento re-volucionário a fim de poder vir a ser um Pensamento Essencial. Para re-volucionar os modos e hábitos inveterados de pensar, procura concentrar-se naquelas negações, que lhe rasgarão o horizonte e lhe restituirão as possibilidades de uma conversão para sua Essência. O metanoeite constitui a virulência de sua ação re-volucionária. Em que consiste esta re-volução do Pensamento? Aprendendo a pensar I: Cristo e a Re-volução do Pensamento
Assim se pode pressentir já a radicalidade da re-volução, que impõe ao pensamento a hermenêutica de nossa existência moderna. A metánoia do pensamento precursor do Sagrado renuncia a todas as representações tradicionais de Deus. Na hermenêutica atual não se dispõe de uma linguagem divina. A metafísica se apoderou de todas as palavras, de toda a gramática e de todas as linguagens, transformando-as em outras tantas funções de sua estrutura onto-teo-lógica. Temos hoje uma carne tão saturada de metafísica que o Verbo já não encontra as condições de possibilidade para “fazer-se carne e atendar entre nós”. Por isso, para ser precursor, o pensamento não pode pensar em Deus. Mas este pensamento sem Deus não é um pensamento ateu. Ao contrário. Por abandonar o Deus dessacralizado da metafísica, está mais próximo talvez do Deus divino. O silêncio de Deus- talvez seja a única maneira de vencer de forma decisiva a dessacralização do mundo. Talvez seja o cairos de um novo des-velar-se do horizonte do Sagrado. Um horizonte do Sagrado mais originário do que as experiências que nos proporcionam as religiões modernas, cativas todas de uma metafísica mais teológica e mais dessacralizada do que nunca. Talvez na experiência da ausência de Deus, na espera do silêncio, nos seja concedida outra vez a jovialidade necessária para voltar a brilhar a estrela de Deus em novo advento de Cristo. Aprendendo a pensar I: Cristo e a Re-volução do Pensamento
A interpretação das Sagradas Escrituras se faz hermenêutica quando chega à identidade da Linguagem de Deus nas diferenças de tempo e vida entre a língua das Escrituras e a língua de nosso martírio. É que esta identidade constitui o óleo da consagração de qualquer texto enquanto nos coloca no envio do mistério da fé. a fé é a via em que somos enviados à viagem do mistério de Cristo. Daí também o problema hermenêutico não ser o desafio da construção de uma ponte que nos proporcione passar do presente para o passado. É o desafio da consagração da diferença de nosso presente. a fé do presente é a presença da fé nas diferenças que ligam a uma mesma tradição passado e presente. Não foi decerto a partir da experiência da fé que se disse naquela semana da LEB, dever o teólogo abster-se de falar sobre economia e política econômica. Como todas as demais diferenças, também a economia e a política econômica gemem na ânsia de identidade na fé. É isso também que se passa com a exegese, enquanto ciência da interpretação dos textos sagrados. Como ciência, a exegese é uma diferença de nosso presente. Cristo, os apóstolos, os primeiros cristãos não podiam nem necessitavam fazer exegese. Erani mártires. Testemunhavam a verdade da fé com suas próprias vidas. Pois o nosso martírio é o mesmo, sempre que testemunhamos com nossa exegese a verdade da fé. O exegeta é um mártir. Sacrifica a ciência em testemunho da fé. E só por isso ele tem de ser todo o rigor da ciência. Só por isso ele tem de conhecer mais do que ninguém a ciência da Linguagem. Algumas das investigações da lingüística das Escrituras que mais nos ajudam a ser esta radicalidade da exegese, são as seguintes: I.T. Ramsey, Models and Mystery; John Wilson, Philosophy and Religion; James Barr, The Semantics of Biblical Language. Aprendendo a pensar I: Carta para um Exegeta