Biemel (1987:88-90) – ôntico e ontológico [ontisch-ontologische]

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(…) Antes de mais, porém, gostaríamos de fazer um comentário à crítica de Sartre a Heidegger em O Ser e o Nada (1943, p. 302 ss). Sartre afirma que Heidegger não pode passar do plano ontológico para o plano ôntico (concreto). Esta objeção deriva de um mal-entendido sobre o significado que Heidegger dá ao termo “ontológico”. O plano ontológico não é de modo algum um plano completamente separado do ôntico, é o plano que inclui as estruturas essenciais do real concreto (ôntico) (uma palavra que Heidegger evita cuidadosamente, além disso, porque evoca imediatamente o seu oposto, o abstrato, e esta oposição parece-lhe arbitrária e falsa). (…)

Na busca ontológica da existência, tentamos tornar manifesto o que determina a existência ôntica (concreta). As estruturas fundamentais do Dasein, por exemplo, não são estruturas abstratas, inventadas, construídas, mas elementos que se encontram necessariamente em cada Dasein concreto. Se quisermos contestar a validade da análise heideggeriana do Dasein, não o podemos fazer declarando impossível a passagem do plano ontológico ao plano ôntico: de fato, Heidegger parte do ôntico, e o ontológico não é mais do que uma explicação do que está envolvido no ôntico, ou seja, da raiz da sua possibilidade. Teríamos, portanto, de provar que o elemento apresentado como estrutura fundamental não o é. Sartre faz do ontológico e do ôntico dois planos separados, de acordo com a metafísica tradicional, que separa o sensível do suprassensível, o “Diesseits” do “Jenseits”; ele ignora a intenção de Heidegger de ir além da metafísica tradicional e abandonar as suas separações e demarcações. É, portanto, em nossa opinião, um erro dizer que o plano ontológico é um plano abstrato. Esta distinção perde aqui todo o sentido, uma vez que o ontológico é precisamente o que torna possível o “concreto”, não podendo, por isso, ser-lhe oposto. Seria também uma má interpretação do pensamento de Heidegger reduzi-lo a Kant e à sua problemática do a priori.

original

  1. S.u.Z., p. 12 « Die ontische Auszeichnung des Daseins liegt daran, dass es ontologisch ist. »[↩]
  2. Cf. La remontée au fondement de la métaphysique, Fontaine, t. X, n° 58, p. 896 « Toute métaphysique dit de l’étant ce qu’il est en tant qu’étant. Toute métaphysique, en tant qu’énonciation de l’étant est donc un logos de l’on: ontologie. Mais quand la question vise le fondement de la métaphysique, c’est-à-dire le fondement de toute ontologie, une telle quête qui recherche le fondement de l’ontologie pourrait s’appeler ontologie fondamentale. » Et Rovan ajoute une note très juste : Fundamentalontologie, ontologie des fondements plutôt qu’ontologie fondamentale. Cf. Was ist Metaphysik? 5e éd., pp. 17-18.[↩]
  3. S.u.Z., p. 13 « Die existenziale Analytik ihrerseits aber ist letztlich existenziell d.h. ontisch verwurzelt. »[↩]
Excertos de ,

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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