(Revista Brasileira de Filosofia, vol. IX, Fase. 1, 1959.)
Variam as acepções da Filosofia e varia também o seu nome. Mas, como quer que a Filosofia seja tomada, ela não se confunde com nenhuma outra ciência, com nenhum outro campo de preocupações. O âmbito em que se move, se distingue, pela sua natureza, de todos os outros. A Philosophia pode ser tomada num sentido estrito, designando uma ciência do Ser ou uma ciência das essências como a definiu Platão. Ou ainda, uma ciência da essência e da existência de todos os seres, como a compreendem Aristóteles e os filósofos realistas tradicionais. Em sentido lato, a Filosofia pode ser entendida como Sabedoria da Vida ou como conjunto de pressupostos e regras da vida sábia. Ou ainda, como visão, imagem ou perspectiva do Mundo, o que se exprime na palavra alemã Weltanschauung. Em todos os seus sentidos a Filosofia constitui um reino que as demais ciências não atingem, nem podem, por natureza, atingir.
Variam as acepções da Filosofia e varia também o seu nome. Mas, como quer que a Filosofia seja tomada, ela não se confunde com nenhuma outra ciência, com nenhum outro campo de preocupações. O âmbito em que se move, se distingue, pela sua natureza, de todos os outros. A Philosophia pode ser tomada num sentido estrito, designando uma ciência do Ser ou uma ciência das essências como a definiu Platão. Ou ainda, uma ciência da essência e da existência de todos os seres, como a compreendem Aristóteles e os filósofos realistas tradicionais. Em sentido lato, a Filosofia pode ser entendida como Sabedoria da Vida ou como conjunto de pressupostos e regras da vida sábia. Ou ainda, como visão, imagem ou perspectiva do Mundo, o que se exprime na palavra alemã Weltanschauung. Em todos os seus sentidos a Filosofia constitui um reino que as demais ciências não atingem, nem podem, por natureza, atingir.
Variam desde a Antiguidade os nomes da Filosofia: Platão denomina Dialética este caminho da Sabedoria, como sendo uma ciência que tem o mesmo nome do método que usa (Dialética), para chegar à Verdade, que é o seu objeto. Aristóteles denomina esta ciência pré-eminente de Teologia ou Filosofia Primeira. Andrônico de Rhodes, ordenando as obras de Aristóteles colocou, depois dos livros Físicos, os livros que tratam do objeto da Filosofia propriamente dita, que vêm depois da Física e que porisso se denominam Meta-Físicos; de onde, a Filosofia recebeu a denominação tradicional de Metafísica.
Dialética, Teologia, Filosofia Primeira, Metafísica, foram as denominações clássicas da Filosofia. Na época moderna, e refletindo o seu espírito, Clauberg deu à Filosofia o nome de Ontologia. A Metafísica, porém, se distingue, pelo seu espírito, da Ontologia e não se deve tomar uma denominação pela outra. Ontologia é uma denominação moderna da Filosofia, orientada para o racionalismo e para a subjetividade e não é sinônimo exato de Metafísica. Foi a tentativa de reconciliação entre empirismo e racionalismo, processada por Leibniz, que deu a classificação das ciências de Wolff, onde a Ontologia aparece como parte da Metafísica. Qualquer que seja porém a perspectiva em que se coloque a Filosofia, jamais o seu objeto se identificou com o de qualquer outra ciência.
Antes de tudo, como ciência da essência e da existência de todos os seres, a filosofia não é uma ciência do particular, mas uma ciência da realidade trans-física, ou meta-physica, isto é, da realidade total e profunda. A filosofia não é, como a julgaram os positivistas e como a julgam ainda hoje muitos cientistas, uma soma das ciências particulares ou uma generalização dos resultados das ciência particulares e sim e sempre uma ciência que tem por objeto o que as outras ciências não atingem e que é a essência e a existência dos diferentes seres. A filosofia não é a soma das ciências particulares, as quais tratam de aspectos particulares dos seres, porque a filosofia não tem por objeto o resultado, mas antes o fundamento dos aspectos particulares dos seres. A filosofia não se preocupa com os aspectos particulares dos seres, mas com o fundamento desses aspectos que é a essência ou a substância dos seres. Não é pois a filosofia uma ciência qualquer, uma ciência no sentido atual da palavra. A generalizada corrupção do uso da palavra ciência torna lícito dizer que a Filosofia está fora de todas as ciências; que a filosofia não é ciência, mas sabedoria. Platão havia separado a Dialética de todos os outros conhecimentos, tomando a Filosofia como iluminação e inspiração; o filósofo, segundo Platão, é aquele cujas disposições inatas levam facilmente para a Ideia de cada ser; e a filosofia é o nome de um estado peculiar de entusiasmo e inspiração que faz intuir a essência transcendental das aparências ilusórias. Essas aparências são os objetos das ciências particulares, as quais não são verdadeiras ciências, mas conjuntos de opiniões que julgam sobre fenômenos, os quais não têm em si mesmos a sua realidade. Só a Filosofia procura o Ser além das aparências. Só a Dialética é o conhecimento do Ser. Em várias passagens da República de Platão se distingue claramente entre a Dialética e os demais conhecimentos: isto é, entre o conhecimento do que realmente é real e a opinião que não vai além do fenômeno.
A nostalgia — que etimologicamente significa vontade dolorosa para regressar — é o fundamento da filosofia platônica, tomada como inspiração poética. Pela nostalgia voltamos ao reino da Verdade, que trazemos sepulto em nós desde antes do nascimento. A verdade não está neste mundo sensível e perituro que é o objeto dos sentidos; os platônicos não negam, com os racionalistas, o valor do sensível; mas o sensível platônico é apenas a tradução simbólica de outras realidades mais fundas, que são as verdades inteligíveis; começamos pelo sensível, como quando admiramos a beleza do corpo; remontamos para a Beleza da qual participam todos os corpos belos; e dos corpos remontamos para a Beleza da alma, elevando-nos gradualmente até a Beleza como imagem do divino, a Beleza eterna da qual o belo sensível é apenas um reflexo. O sensível reflete a verdade, mas não é a Verdade; a Verdade, que é por excelência o Ser, não pode estar no que não é; a Verdade é o que é idêntico a si próprio, o que não tem vir-a-ser, o que é si-mesmo. O real são as Ideias eternas, de que os seres passageiros são apenas a projeção apagada e transitória. Estas Ideias são o objeto da Dialética. Mas o conhecimento vulgar, inclusive o científico, está confinado ao reino do nascimento e da morte, o reino do que realmente não é, porque está sempre em transição e não pode ter em si o fundamento da sua existência. Assim, na alegoria da caverna, estão os prisioneiros postos contra o muro sombrio, de sorte que não podem mover a cabeça; entra um raio de luz, contra o qual as sombras se movem no fundo da caverna e os prisioneiros ouvem as vozes que vêm de fora e que atribuem às sombras. Se retiramos a um dos prisioneiros as correntes que o imobilizam e ele caminha para a luz, seus movimentos o farão sofrer e o clarão luminoso cegará os objetos cuja sombra contemplava antes. Que responderia esse prisioneiro se lhe disséssemos que, há pouco, ele não via mais que sombras inconsistentes e se, voltado para a luz agora, mais perto da verdade, lhe perguntássemos o que é? Não ficaria embaraçado e as sombras que há pouco via não lhe pareceriam mais verdadeiras que os objetos que lhe mostramos sob a luz? Não ficaria cego e não procuraria de novo a sombra? — Mas, habituado depois à luz, não teria horror ao seu primitivo estado e aos prisioneiros que não abandonaram nunca as correntes da ignorância?
Segundo Platão, as sombras e as prisões da ignorância são este nosso mundo sensível; o reino das Ideias é a verdade que apenas se reflete na caverna da vida em que estamos. Cercados de sombras sem consistência; guiados pela nostalgia da luz, podemos contudo romper as cadeias e distinguir o que é do que não é. E isto é a Filosofia, ao mesmo tempo método dialético e Metafísica. E de toda a teoria platônica decorre essa distinção profunda entre a filosofia e os demais conhecimentos.
Segundo Aristóteles a Filosofia é a ciência do Ser enquanto ser, a ciência da substância, a ciência do universal, a ciência das ciências. A filosofia, segundo Aristóteles, não se confunde com nenhuma das ciências particulares, as quais recortam uma certa parte do ser e só se preocupam com os atributos dessa parte (Met. L. IV. G,E). A filosofia é a ciência da essência ou do que a cousa realmente é; não é o superficial conhecimento da quantidade, ou da qualidade, da atividade ou passividade, que são apenas acidentes de que podem tratar as ciências particulares (Met. B. 2, 15). A filosofia aristotélica tem por objeto a realidade total. E a realidade total não é a soma das realidades parciais, tal como a filosofia não é a soma das ciências particulares. Se a totalidade do real fosse uma justaposição de partes, teriam razão os positivistas e materialistas em considerar a filosofia como uma “spécialité de la généralité”, isto é, como soma e generalização dos resultados das ciências particulares, ou ainda, como síntese dos resultados gerais das ciências quantitativas; teriam razão esses manuais de filosofia que começam por negar a existência da filosofia, negando-lhe um objeto próprio e um sentido próprio e fazendo em suma da filosofia uma espécie de almanaque das ciências. — Mas, ao contrário, a totalidade do real não é uma justaposição de partes; a totalidade do real é a sua radicalidade; é a unidade profunda que dá sentido às partes.
A filosofia segundo Aristóteles tem por objeto a substância, indo além dos acidentes que estudam as ciências secundárias. Havendo inserido nos seres concretos aquela realidade que Platão punha no reino das Ideias, a filosofia aristotélica estabeleceu a substância como significando o sujeito ao qual compete existir por si e não por outrem; a filosofia se tornou então a verdadeira ciência do concreto, pois o seu objeto é a substância como existente por si, que é o que faz com que o concreto seja concreto. A substância é o fundamento intrínseco da única realidade verdadeira, que é o indivíduo; é o que faz com que o indivíduo seja indivíduo (individuum, que não pode ser dividido). Como fundamento, a substância é também suporte, hypo-heimenos, no sentido de sub-stans, o que torna possíveis os acidentes, como diz também supporte, de sub-portare, que sus-tenta os acidentes. A substância é, portanto, o que é por si e o que sub-está aos acidentes. Ora bem, a Filosofia é a única ciência que tem por objeto a substância; as demais ciências são ciências do superficial, do que está à superfície ou do que é acidental.
O que é a substância do lado da cousa concreta, individual, é também a essência do lado do sujeito. A essência é geral e lógica. A substância é individual e concreta. A essência é a tradução lógica da verdade metafísica da substância. A filosofia é pois uma sabedoria do fundamento ou da essência e da realidade última dos seres. E por isso mesmo a palavra philosophia encerra o termo Sophia, que significa Sabedoria. Não é ciência no sentido vulgar. Sabedoria não é saber.
Sophia, sabedoria, se distingue de episteme, ciência. E distingue-se de doxa, opinião. De onde, o sentido mais radical da Filosofia, é o da Sabedoria, que se distingue do saber. A filosofia não é o conjunto das cousas que se sabem, não é uma synthèse scientifique (como se diria no século XIX), mas uma sabedoria da realidade profunda. O saber se distingue da sabedoria, como a ciência se distingue da filosofia. Ou seja, a filosofia pode englobar todas as ciências, dando-lhes validade e sentido, sem todavia confundir-se com nenhuma delas. Não haveria nada mais positivista do que julgar, por exemplo, que os primeiros filósofos gregos, que puseram a realidade na Physis, foram por isso precursores da física ou da química. O que os primeiros filósofos gregos procuraram foi a essência da realidade, posta na Água, na Terra, no Fogo ou no Ar, não como nalguma cousa material e sim como numa essência última dos fenômenos: procuravam a realidade trans-física do físico e não a composição química dos corpos a partir de algum suposto corpo simples. Ninguém melhor do que Heidegger pôs em relevo o alto significado da filosofia pré-socrática, tão grosseiramente deformada pelo “naturalismo” dos séculos caducos.
Procurando a realidade de dentro para fora, como totalidade radical, e não de fora para dentro, como soma de aspectos, a filosofia é essencialmente intuitiva; é intuitiva, no sentido original de in-tuitus e do verbo in-tueri que significa olhar dentro. Esta intuição, ou a comunhão com a cousa, é o que se chama hodiernamente a vivência, termo traduzido do alemão Erlebnis, como significando a experiência interiorizada e sentida do objeto; por outro lado, a intuição como associada ao verbo ver, intueri, conserva ainda o seu sentido originário no termo alemão Anschauung que quer dizer intuição ou visão (profunda), do verbo schauen, ver. Filosofia é intuição e vivência. É intuição porque é Sophia e é vivência porque é Philia; de fato, o termo grego philia, vai além da simples significação atual de amizade e abrange uma amplitude tão profunda que frequentemente os filósofos gregos, como Pythagoras e Epicuro, punham na Philia, amor desinteressado, o máximo da felicidade; philia pode significar comunhão e êxtase. É enquanto comunhão e vivência que philia entra na composição da palavra Philosophia.
Mas a filosofia é intuição também no sentido pelo qual seu método consiste em captar diretamente um objeto, que transcende as experiências e as operações ao cabo das quais as ciências do particular elucidam, ou pretendem elucidar certas modalidades do ser. Essas operações, que levam indiretamente ao conhecimento, real ou suposto, de partes exteriores do ser, se chamam discurso. O método discursivo, que é o de todas as ciências assim chamadas “naturais” é indireto, ao passo que a intuição é a captação direta (sem o intermediário dos sentidos ou das experiências), da realidade, ou do valor, ou do sentido do ser. A intuição, como a Inteligência, no seu sentido originário, é um ler dentro, de intus legere. O discurso é uma operação que se dá em torno da cousa, examinando suas partes como separadas, ou seja abstraindo-as; mas a intuição vive a unidade íntima da cousa, vendo-a na sua radicalidade e como de dentro para fora. Então a cousa não se apresenta como soma de aspectos examináveis pelas várias ciências particulares e sim como totalidade e como raiz daqueles aspectos, que são apenas a sua expressão. Intueri significa pois olhar dentro e a intuição é visão, é vidência e é o que Aristóteles denominava theoria.
A filosofia se apresenta, originalmente, como intuição contemplativa. Este sentido lhe era atribuído por Pythagoras, a quem se atribui também, mas não de modo seguro, a origem da palavra Philosophia: Interrogado Pythagoras por um rei de Phlius sobre quem era, disse: Filósofo; e comparava a vida humana a uma dessas feiras a que concorrem todas as gentes, indo uns por amor à glória disputar nos jogos; outros por amor ao dinheiro comprar e vender; e outros, que são os melhores, apenas para ver; também na vida, nascem uns, escravos da glória, outros da riqueza e outros, que são os filósofos, amantes da virtude (Diógenes Laércio, II.L.VIII). Os filósofos são portanto os que contemplam as cousas, isto é, que buscam a essência das cousas.
Desde suas origens a filosofia constitui contemplação e meditação sobre a essência da realidade e principalmente sobre a essência da Natureza (Physis) nos filósofos anteriores à época socrática. A inocente atitude que consiste em perguntar porque algo é, ou porque uma cousa é o que ela é, está na base de toda a filosofia. Ambas as perguntas se reduzem a uma só, porque, quando se pergunta porque algo é, pergunta-se também porque a cousa é o que ela é. Pergunta-se pela essência da realidade. A filosofia se põe, desde seu início, como ciência das essências.
Mas a filosofia tem, ao mesmo tempo, um sentido estrito, como ciência da essência e da existência de todos os seres; e um sentido lato, como sabedoria da vida e como visão do mundo. De todo modo, a filosofia se distingue do saber vulgar, inclusive do saber científico. A filosofia é sophia e não episteme. Os pitagóricos faziam claramente essa distinção entre sabedoria e saber e distinguiam entre a mente, a sabedoria e a “ira” (D. Laércio, L.VIII. O conhecimento vulgar e o instinto se distinguem do entendimento e da racionalidade — estes se distinguem da sabedoria e da contemplação). — Mas é claro que se a filosofia procura saber como as cousas são, procura também como devemos ser; o conhecimento de como as cousas são, implica no como devemos ser. De toda filosofia como ciência da essência e da existência, ainda mesmo da mais abstrata, deriva um conjunto de noções de como devemos ser. Toda filosofia, em certo sentido, é sabedoria da vida. Como sabedoria da vida, a filosofia exerce uma ação catharctica, ou de purificação; tal era o sentido do orfismo, para o qual a filosofia não saiu do âmbito da contemplação religiosa. Tal é o motivo pelo qual os pitagóricos, quando estudavam matemática ou música, medicina ou ginástica, o que viam nesses estudos era, em graus diferentes, meios de purificar as almas e correlativamente os corpos (como também observa Léon Robin, La Pensée Grecque, 1948, pág. 65). O chamado “paradoxo socrático” consistia em identificar a sabedoria e a virtude, levando ao exagero o pressuposto segundo o qual o conhecimento do bem produz necessariamente a virtude. Este paradoxo sublinha o fato pelo qual não se pode traçar um limite entre a ciência das essências e a sabedoria da vida. A filosofia, mesmo enquanto abstração, está profundamente ligada ao destino da vida e ao sentido das cousas. Mesmo enquanto abstrata, a filosofia está profundamente ligada ao concreto. O saber vulgar, ao contrário, estabelece o domínio do abstrato sobre o concreto. O saber vulgar não vai além do que os gregos denominavam opinião (doxa) e, num grau mais alto do que denominavam ciência (episteme); só a filosofia procura a verdade profunda; Parmênides, no seu poema sobre A Natureza estabelece a oposição que há entre Verdade e opinião, esta última não sendo mais que ilusão e erro; a verdade não é outra cousa senão o Ser Absoluto, objeto da filosofia de Parmênides. A mesma distinção entre Verdade e Opinião está fortemente marcada nos fragmentos de Demócrito e Leucipo, onde o conhecimento autêntico se opõe ao convencional. Tal é a distinção que se desenvolve em toda a obra platônica entre o mundo das Ideias e o mundo dos sentidos. É uma distinção vivamente assinalada por Plotino, que separa radicalmente o saber e a sabedoria, sendo o saber a negação da Sabedoria. Diz Plotino, em sua Sexta Enéada, que a alma se afasta da unidade e deixa de ser una quando apreende um objeto pela ciência; porque ciência é discurso e discurso é multiplicidade; é preciso portanto superar a ciência, abandonar a ciência e seus objetos, se não se quer perder a unidade de si mesmo, caindo no múltiplo que é o caminho da matéria e portanto do nada. — Do mesmo modo, Santo Agostinho separa a ciência e a sabedoria; a sabedoria e a verdade segundo Santo Agostinho estão acima da razão e portanto da ciência; são explícitas neste sentido várias passagens de Santo Agostinho, principalmente no De Trinitate e no De Magistro.
Toda a filosofia reflete uma visão fundamental, que é ao mesmo tempo religiosa, intelectiva, volitiva e emotiva. Estes elementos são inseparáveis, embora, didaticamente, se possa distinguir entre a intuição intelectiva e a volitiva, entre a intuição emotiva e a religiosa. A intuição intelectiva recebe as verdades racionais e os primeiros princípios da Inteligência; é por exemplo a intuição que nos diz que o que é, é, e o que não é, não é; que não se pode afirmar e negar o mesmo do mesmo, ao mesmo tempo e na mesma relação; é a intuição que recebe os axiomas geométricos, através dos quais se demonstram os teoremas, mas que não podem ser demonstrados eles próprios, por isso mesmo que são intuitivos; os primeiros princípios são indemonstráveis, porque se fossem demonstráveis não seriam os primeiros. Esta é a intuição intelectual ou a intuição metafísica, cujo objeto é a essência da realidade. Platão e Aristóteles, Santo Tomás e Descartes se fundam nessa intuição intelectual, como ponto de partida de suas construções filosóficas. Mas, se examinamos os fundamentos de uma filosofia como a de Duns Scot, de Fichte, ou de Nietzche, vemos que se voltam para a existência do objeto, que descobrem essa existência, como partindo de uma intuição volitiva, digamos, uma Vontade que se põe contra o objeto que a nega. A intuição emotiva sente o ser e o valor do objeto, procede por uma compenetração sympathica, como em Bergson e William James. A intuição religiosa é o fundamento das grandes filosofias místicas como a de Jacob Böhme, Meister Eckhart e São João da Cruz. E é ainda o fundamento daquelas filosofias míticas que floresceram na época pré-socrática.
Mas estes diversos fundamentos da filosofia, estes diferentes sentidos da intuição filosófica, não devem levar a ignorar a unidade do ato intuitivo; se o filósofo se apoia na intuição intelectual ou na intuição emotiva, nem por isso estão as outras ausentes, como aspectos de um só e mesmo ato intuitivo. São diferentes modos de captar a essência e a existência, o valor e o sentido último dos seres. Como não é a vontade que quer, ou a inteligência que pensa, mas o homem todo que quer e pensa, (como dizia Santo Tomás), assim também no ato intuitivo é o homem todo que pensa, quer e sente.
Vimos pois que a filosofia não se confunde com nenhuma outra ciência e que tem um objeto próprio que é a essência e a existência dos seres. Esta observação preliminar é de capital importância em virtude do erro que consiste: 1.°) em querer explicar a substância dos seres, por algum de seus aspectos; 2.°) em julgar que a filosofia, desde os gregos, teria sido representada pela soma de todo o saber humano, incluído tudo quanto veio a constituir depois o objeto de cada uma das ciências particulares. — Os positivistas vulgarizaram essa noção e julgaram que, na proporção em formar várias ciências foram surgindo e crescendo, desmembraram-se da filosofia, cujo domínio se foi assim empobrecendo; e no dia em que não mais houvesse mistérios e regiões atualmente incognoscíveis, isto é, quando tudo fosse conhecido cientificamente, não mais haveria lugar para a filosofia; a filosofia seria então um campo de indagações, sobre o qual a ciência amplia constantemente o seu domínio; o progresso da ciência seria a morte da filosofia, porque a filosofia viveria do que a ciência ainda não explicou; a filosofia, que foi o fruto da ignorância, cederia lugar ao único saber verdadeiro, que é o saber científico: Tal a perspectiva do positivismo que decretou, do alto do saber científico, a morte da sabedoria filosófica. E este ponto de vista é ainda hoje divulgado por muitos manuais de filosofia, se assim se podem chamar.
Mas, o erro básico desta visão positivista da filosofia consiste numa confusão inicial entre saber e sabedoria, entre opinião e verdade, entre “progresso” e aprofundamento. É além disso um ponto de vista falso porque: 1.°) o ser não é o conjunto dos seus aspectos superficiais; o ser é uma totalidade radical, da qual os aspectos (examinados pela ciência) são apenas as manifestações. 2.°) O objeto da filosofia não é atingido por nenhuma ciência secundária, porque nenhuma ciência tem por objeto a essência ou a existência sequer do seu próprio objeto; as ciências secundárias partem do objeto como existindo e não lhes cabe, de direito, examinar a sua essência ou a sua existência. 3.°) Não é exato que o campo da filosofia diminui à medida em que progridem as ciências, porque, mesmo admitido esse progresso como um progresso do conhecimento, deve-se notar que, as ciências, para cada problema resolvido, levantam novos problemas, de sorte que o número de problemas aumenta e não diminui com o chamado progresso das ciências; haverá tanto mais problemas não resolvidos, quanto mais problemas a ciência houver “resolvido”; isto já fez alguns filósofos pensar que as ciências não resolvem nada, senão que giram no círculo vicioso dos problemas que desaparecem e reaparecem sob outras formas; o progresso das ciências não elimina, mas antes, cria problemas. O campo das indagações filosóficas, ainda que fosse o mesmo da problemática científica, longe de diminuir, cresceria com o progresso das ciências.
Que é, afinal de contas, um problema? A palavra grega problema é como sinônimo de objecto. Etimologicamente significa, e de fato é, algo jogado na frente, ob-jectum. O problema é, para mim, algo posto na minha frente, algo que intercepta o meu caminho e que devo “resolver”. Os problemas se multiplicam com a progresso das ciências e multiplicam-se assim os temas da meditação filosófica. O objeto porém da meditação filosófica, não são os problemas descobertos, levantados, ou quem sabe, projetados pelas ciências. A filosofia tem por objeto a realidade fundamental, ou a realidade trans-física e seu horizonte se confunde também com o mistério.
Problema não é mistério. O problema se põe já com a sua solução ou ainda, é a solução que põe o problema. Mas o mistério é insolúvel. — A distinção entre problema e mistério, implícita em quase todos os filósofos e místicos, tornou-se com Gabriel Marcel tema explícito de cogitações filosóficas. É uma distinção importante para diferençar também a filosofia das demais ciências.
O problema é algo ante-posto, posto na frente, ao passo que o Mysterio é algo em que nós estamos postos. Há o mistério do objeto, por mais conhecido que seja. Há o mistério do estarmos aqui e de serem as cousas e serem assim. Há o mistério de toda a realidade, porque a mesma realidade, por mais que se desvele, mais se oculta, como sublinhou recentemente Heidegger a propósito da exegese do sentido da palavra grega aletheia, desocultamento (a este respeito, La Pensee de Heidegger et la Poesie de Hölderlin, de Jean Wahl); segundo os filósofos realistas a realidade se manifesta no fenômeno, mas enquanto se manifesta se oculta, porque não se manifesta exaustivamente. Em suma, a realidade se revela, mas é um mistério. — As ciências particulares lidam com problemas, com ob-jecções ante-postas; as ciências resolvem os seus problemas, porque são elas mesmas que os põem; põem os problemas dentro de uma perspectiva em que as soluções vêm dadas por si mesmas. Deste modo pode-se dizer que toda indagação científica já é feita no sentido de uma resposta determinada. Inversamente, a meditação filosófica não põe o mistério, como as ciências põem os problemas. A perscrutação filosófica está cercada e constrangida de mistério por todos os lados. E a diferença essencial entre o problema e o mistério, é que o problema é o que está posto na minha frente, como algo exterior a mim; mas o mistério é algo em que eu estou posto e que está em mim. O problema está diante de mim; e eu estou no mistério. Estamos como na interioridade do mistério; e tudo o que entra na vida e no mundo, entra no mistério.
Se a filosofia não é apenas uma fria investigação racional da existência e da essência dos seres, mas se, ao contrário, suas meditações envolvem o mistério em que estamos, é justamente porque a filosofia traz em si a densidade de uma preocupação sobre o destino. A filosofia não é pois um conhecimento desinteressado, gratuito. É, ao contrário, um conhecimento interessado. Quando Aristóteles disse que a filosofia era um conhecimento pelo conhecimento, isto é, um conhecimento desinteressado, isto significava desinteressado de técnicas, desinteressado de aplicações. Mas interessado e profundamente, no mistério do mundo e no destino do homem. — O mistério é um processo em que estamos inseridos; não podemos dizer exatamente o que é, porque estamos nele. E se as respostas da filosofia aos mistérios da vida e do mundo são várias, divergentes e opostas, isto mostra claramente que a filosofia se move numa região que as outras ciências não atingem. Se a filosofia se movesse na região superficial dos objetos científicos, não haveria nenhuma necessidade de filosofar.