Jean-Louis Chrétien (2014) – esquecimento

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Se há um primeiro esquecimento, o que ele produz é um imemorial absoluto: não um passado que, tendo estado presente e, portanto, já aberto e destinado à memória, teria subsequentemente se tornado inacessível nele ou para ele, mas um passado inicialmente passado e originalmente perdido, um passado antecipado e por essência roubado de toda memória futura, um passado simultâneo com sua própria passagem e roubo, sempre já passado, sempre já desaparecido, sendo apenas para ter desaparecido. Heidegger insiste com frequência no redobramento do esquecimento: para esquecer de verdade, esquecer não é suficiente, porque esquecer ao lembrar que esquecemos é apenas um modo de lembrar, precisamente aquele que nos permite redescobrir o que foi esquecido. O esquecimento consumado, mostra ele, é o esquecimento do esquecimento, o desaparecimento do próprio desaparecimento, onde a própria cobertura é coberta [Cf. GA7:256-257]. Esse redobramento, esse segundo poder do esquecimento deve, na verdade, ser colocado como o primeiro: não é uma forma superior de esquecimento que sucede a outra por exponenciação, pois o esquecimento que não é esquecido constitui, ao contrário, uma primeira memória, uma primeira abertura para a superação do esquecimento. O mesmo se aplica à ignorância socrática: a ignorância que se ignora a si mesma não é uma ignorância excepcional, é a própria ignorância, enquanto o conhecimento de nossa ignorância é o primeiro conhecimento e o acesso a todo conhecimento. Se há um primeiro esquecimento, ele só pode ser este: o esquecimento que se esquece de si mesmo, que já se esqueceu de si mesmo, radicalmente inacessível, radicalmente inacessível, a própria perda perdida, a perda que não podemos nem mesmo reter como perda, a perda na qual nada falta e que não cava em nós nada que queiramos preencher.

original

[CHRÉTIEN, Jean-Louis. L’inoubliable et l’inespéré. Nouvelle éd. augmentée ed. Paris: Desclée de Brouwer, 2014]


  1. Cf. Vorträge und Aufsätze, pfullingen, 1978, p. 256–257, trad. Préau, Essais et conférence, paris, 1958, p. 320. ↩

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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