Zarader (1990:26-28) – Andeken – Vordenken

João Duarte

É neste ponto que se impõe uma nova distinção. A primeira consistia em dissociar o começo da origem, com o fim de mostrar (33) que o pensamento (das Denken) devia ultrapassar este em direção àquela. A segunda consiste em dissociar, no interior do pensamento da origem, duas das suas modalidades possíveis, correspondendo a duas finalidades diferentes: a primeira chama-se Andenken, a segunda Vordenken.

Termos de muito difícil tradução, sobretudo se se quiser respeitar o seu paralelismo. Globalmente, pode dizer-se que o Andenken é memória ou comemoração, quer dizer pensamento que se volta para trás num movimento retrospectivo, enquanto o Vordenken é avanço ou preparação, quer dizer pensamento que caminha para diante num movimento prospectivo. Convém no entanto não interpretar mal a singularidade deste duplo movimento. A retrospecção característica do Andenken não é olhar incidente sobre um passado revoluto, mas olhar dirigido em direção ao que, na medida em que ainda não pensado, continua proposto ao nosso futuro — mesmo se não podemos esperar atingir esse futuro senão pelo «passo atrás»1. Inversamente, a prospecção característica do Vordenken não é um avanço livre, desligado de todo o passado, mas uma penetração em direção ao futuro, ela própria apenas tornada possível a partir do Andenken — mesmo se deve passar resolutamente para lá dele 2. Andenken e Vordenken constituem de facto os dois polos de uma oposição, mas esta não pode em caso algum ser reduzida à oposição estática do passado e do futuro. Na realidade, ambos pertencem, segundo modalidades diferentes, à dimensão do futuro, e só se opõem no pano de fundo de uma troca ou de uma participação recíproca3. (34)

Perguntávamos um pouco mais acima: qual é o desígnio que Heidegger tem em vista quando prossegue nesta demanda da origem? A distinção das duas modalidades de pensar que são o Andenken e o Verdenken permite pressentir a dupla finalidade desta demanda, dupla finalidade que é ao mesmo tempo a da obra de Heidegger no seu todo. Não é aqui o lugar para a apresentar tematicamente. O que importa, é sublinhar imediatamente o seu caráter plural. Se o gesto de partida é certamente único (retrocesso do pensado ao impensado, do começo à origem), este simples gesto revela estar ao serviço de um duplo projeto. O primeiro é retrospectivo: é certo que implica realmente um «salto», mas só nos afasta da tradição para nos permitir captá-la finalmente na sua verdade. Quer isto dizer que tem como finalidade a apropriação da nossa herança grega. O segundo é prospectivo: não se limitando já a ultrapassar o texto da tradição em direção à sua margem impensada, separa-se resolutamente dela, em proveito de um texto completamente diferente (ainda a pensar). Quer isto dizer que tem como finalidade a superação da herança grega. Clarificada pelo duplo movimento do Andenken e do Vor denken, a noção de Anfang revela assim que encerra uma dupla possibilidade: uma foi experimentada, de modo impensado, na alvorada da nossa história, a outra está por experimentar, como o que é «para pensar», no limiar de uma nova história 4.

Original

  1. Cf. GA4:EHD, p. 95 (127) : «Se o pensamento, lembrando-se daquilo que foi (das Gewesene), lhe deixa a sua essência e não altera o seu reino usando-o apressadamente como presente, descobrimos então que o que foi, pelo seu retorno no Andenken, se estende para lá do nosso presente (Gegenwart) e vem até nós como um futuro (ein Zukünftiges). Bruscamente, o Andenken deve pensar o que foi como algo de ainda-não-desdobrado (als ein Nochnicht-Entfaltetes)». Cf também SvG, p. 107 (147).[↩]
  2. Cf. GA11:IuD, p. 34 (Qu. I, p. 276): «O que quer que tentemos pensar, e seja qual for a maneira por que o façamos, pensamos no espaço de jogo da tradição. Ela reina quando nos liberta da reflexão (Nachdenken) para uma prospecção (Vordenken) — que não significa traçar planos. Não é senão quando, pensando, nos voltamos para o já pensado, que estamos ao serviço do que há ainda para pensar».[↩]
  3. Para uma interessante caracterização do Andenken heideggeriano, nomeadamente na sua diferença em relação à Erinnerung hegeliana, pode consultar-se proveitosamente G. Vattimo, Le avventure della differenza, Milano, Garzanti, 1980, pp. 175 e segs.[↩]
  4. Esta leitura de conjunto, que aqui apenas esboçamos, está desenvolvida, e percorrida segundo a sua dupla dimensão, na nossa iii parte. Inversamente, está condensada ao máximo na nossa conclusão, nomeadamente na figura 6, p. 360, onde nos esforçámos por representar o conjunto do movimento heideggeriano, na sua relação com a origem.[↩]
  5. Cf. EHD, p. 95 (127) : « Si la pensée, en se souvenant de ce qui a été (das Gewesene), laisse à celui-ci son essence et n’altère pas son règne en le portant hâtivement au compte du présent, alors nous découvrons que ce qui a été, par son retour dans l’Andenken, s’étend par delà notre présent (Gegenwart) et vient à nous comme un avenir (ein Zukünftiges). Brusquement, l’Andenken doit penser ce qui a été comme quelque chose de non-encore-déployé (als ein Nochnicht-Entfaltetes) ». Cf. aussi SvG, p. 107 (147).[↩]
  6. Cf. IuD, p. 34 (Qu. I, p. 276) : « Quoi que nous tentions de penser, et quelle que soit la manière dont nous le faisons, nous pensons dans l’espace de jeu de la tradition. Elle règne lorsqu’elle nous libère de la réflexion (Nachdenken) pour une prospection (Vordenken) — qui ne signifie pas faire des plans. Ce n’est que lorsque, en pensant, nous sommes tournés vers le déjà pensé, que nous sommes au service de ce qui est encore à penser ».[↩]
  7. Pour une intéressante caractérisation de l’Andenken heideggerien, notamment dans sa différence avec l’Erinnerung hégélienne, on consultera avec profit G. Vattimo, Le avventure délia differenza, Milano, Garzanti, 1980, p. 175 sq.[↩]
  8. Cette lecture d’ensemble, que nous ne faisons ici qu’esquisser, se trouve déployée, et parcourue selon sa double dimension, dans notre IIIe partie. Elle se trouve, à l’inverse, condensée au maximum dans notre conclusion, notamment dans la figure 6, p. 268, où nous nous sommes efforcée de figurer l’ensemble du mouvement heideggerien, en son rapport à l’origine;[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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