SZ:251-252 – dejecção e morte

Castilho

Sua possibilidade mais-própria, irremetente e insuperável, o Dasein não a cria para si posteriormente e de modo circunstancial, no curso do seu ser. Mas se o Dasein existe, ele já está também dejectado nessa possibilidade. Que ele (691) seja entregue a sua morte sob sua responsabilidade, que ela pertença, assim, ao ser-no-mundo, é algo de que o Dasein não tem de pronto e no mais das vezes nenhum saber expresso e menos ainda teórico. A dejecção na morte se lhe desvenda do modo mais originário e mais penetrante no encontrar-se da angústia 1. A angústia diante da morte é a angústia “diante” do mais-próprio, irremetente e insuperável poder-ser. O diante de quê dessa angústia é o ser-no-mundo ele mesmo. O porquê dessa angústia é pura e simplesmente o poder-ser do Dasein. A angústia diante da morte não deve ser confundida com um medo de deixar-de-viver. Ela não é um “fraco” e contingente estado-de-ânimo qualquer do indivíduo, mas, como encontrar-se-fundamental do Dasein, ela é a abertura de que o Dasein existe como ser projetado para o seu final. Com o que se esclarece o conceito existenciário do morrer como ser projetado para o poder-ser mais-próprio, irremetente e insuperável e ganhando-se rigorosamente a diferença ante o puro desaparecer, mas também ante um só-findar e finalmente ante um “vivenciar” o deixar-de-viver.

O ser para o final não nasce somente de e com uma atitude que surge de vez em quando, mas pertence essencialmente à dejecção do Dasein que se desvenda no encontrar-se (no estado-de-ânimo) desta ou daquela maneira. O “saber” ou “não saber” sobre o ser-para-o-final mais-próprio que é cada vez factualmente predominante no Dasein é somente a expressão da possibilidade existencial de se manter nesse ser de um modo diverso. Que muitos não saibam factualmente, de pronto e no mais das vezes, sobre a morte não deve ser aduzido como fundamento-de-prova de que o ser para a morte não pertence “universalmente” ao Dasein, mas somente que, de pronto, e no mais das vezes, se encobre o mais-próprio ser para a morte, fugindo diante dela. O Dasein morre factualmente, enquanto existe, mas, de pronto e no mais das vezes, no modo do decair. Pois (693) o existir factual não é só, em geral e indiferentemente, um dejectado poder-ser-no-mundo, mas já está sempre também absorvido no “mundo” da ocupação. Nesse ser decaído junto a… anuncia-se a fuga do estranhamento, isto é, agora ante o ser mais-próprio para a morte. Existência, factualidade, decair caracterizam o ser para o final e são, por conseguinte, constitutivos para o conceito existenciário da morte. O morrer se funda na preocupação quanto a sua possibilidade ontológica 2. (p. 691, 693, 695)

Rivera

Vezin

Macquarrie & Robinson

Original

  1. Cf. § 40, p. 206 ss.[↩][↩]
  2. Mas a preocupação se desdobra a partir da verdade do ser.[↩]
  3. (a) Pero el cuidado se despliega desde la verdad del Ser (des Seyns).[↩]
  4. Cf. §40, p. 184 sqq.[↩]
  5. Mais le souci se déploie sur fond de vérité de l’être.[↩]
  6. ‘. . . gegen ein “Erleben” des Ablebens.’ (Cf. Section 49 above.)[↩]
  7. Vgl. § 40, S. 184 ff.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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