Você pode, e sem dúvida deve, tentar traduzir Heidegger, mas não se iluda: ele é intraduzível. E esse é certamente o único motivo de sua desventura. Veja, por exemplo, a palavra Erschlossenheit: desvelamento, revelação? Não é isso. Erschlossenheit des Seins [SZ:§28 (ET28)] significa que o Ser já foi descoberto, que ele é acessível, visível, iluminado (gelichtet), que ele se dá a nós antes de qualquer ato conceitual, que em graus variados e em proporções variadas, temos inteligência dele. Sein kann daher unbegriffen sein, aber es ist nie völlig unverstanden1. A palavra Erschlossenheit sugere, por si só, que a verdade nada mais é do que a luz na qual o Ser é banhado. É na não dissimulação do Ser (die Unverborgenheit des Seins [SZ:219]) que reside a verdade primordial, a possibilidade de a Existência humana estar na verdade: Dasein ist “in der Wahrheit” [SZ:221].
[BESPALOFF, Rachel. Sur Heidegger. Paris: Éditions de la revue Conférence, 2009]