Dizemos: “as pessoas são bizarras”. Essa frase é uma de nossas afirmações ontológicas mais rudimentares e constantes. E, de fato, ela diz muito. “As pessoas” são todos os outros, indistintamente, designados como o conjunto das populações, linhagens ou raças (inclinações), dos quais quem fala se exclui, consequentemente. (No entanto, ele se exclui de uma maneira muito particular, pois a designação é tão geral — é o caso de dizer… — que inevitavelmente retorna ao locutor. Quando digo que “as pessoas são bizarras”, me incluo, de certa forma, nessa bizarrice.)
A expressão “as pessoas” não cobre exatamente o “a-gente” [Impessoal, das Man] heideggeriano1, embora seja, em parte, uma modalização dele. No “a-gente” — tal como se diz —, nem sempre está decidido se quem fala se inclui ou não no anonimato do “a-gente”. Por exemplo, posso dizer “me disseram”, ou “dizem que”, ou “é assim que se faz”, ou “nasce-se, morre-se”: esses usos não são equivalentes e, principalmente, não é certo que seja sempre o “a-gente” que fala de si mesmo (a partir de e sobre si mesmo). Heidegger, por sua parte, considera apenas o “a-gente” que seria pronunciado como uma resposta à pergunta “quem?” feita ao Dasein, mas ele não coloca essa outra questão, ainda que inevitável, de saber quem faz essa resposta e quem, ao responder assim, se exclui ou tende a se excluir. Ele corre assim o risco de negligenciar o fato de que não há um “a-gente” puro e simples, no qual o existente “propriamente existente” estaria, de início, pura e simplesmente imerso. “As pessoas” designa claramente essa modalização do “a-gente” pela qual “eu” me excluo — e desta vez, a ponto de parecer esquecer ou negligenciar o fato de que eu mesmo faço parte das “pessoas”. No entanto, essa exclusão não ocorre sem o reconhecimento da identidade: “as pessoas” também enuncia claramente que somos todos, precisamente, pessoas, ou seja, indistintamente, indivíduos, seres humanos, todo um gênero comum, mas um gênero que só existiria de forma numerosa, dispersa, indistinta em sua generalidade e apreensível apenas na simultaneidade paradoxal do conjunto (anônimo, confuso, até mesmo massivo) e da singularidade disseminada (das pessoas: cada vez tal ou qual “pessoa”, ou como dizemos, “um cara”, “uma garota”, “um moleque”).
“As pessoas” não é o rumor anônimo do “domínio público”, são silhuetas ao mesmo tempo imprecisas e singularizadas, esboços de vozes, esquemas de comportamentos, rascunhos de afetos. Mas o que é um afeto, senão, cada vez, um esboço? Um comportamento, senão, cada vez, um esquema? Uma voz, senão, cada vez, um rascunho? O que é uma singularidade, senão, cada vez, seu “próprio” traçado, sua “própria” iminência, a iminência de um “próprio” ou o próprio enquanto iminência, sempre tocada de leve, sempre roçada: revelando-se ao lado, sempre ao lado. (Como diz a expressão coloquial, “vivendo no mundo da lua” [à côté de ses pompes] — e o cômico da expressão não é por acaso, seja para mascarar uma inquietação, seja para liberar o riso de um não-saber: trata-se sempre de uma fuga, de um desvio e de um esvaziamento bem próximo, de uma estranheza pressentida como a própria regra.)
A exceção ou a distinção na qual “eu” me recolho ao dizer “as pessoas”, também a confiro, obscuramente, a cada uma das pessoas. E é provavelmente por isso que as pessoas suscitam tão frequentemente o julgamento “as pessoas são bizarras” ou “as pessoas são incríveis”. Não se trata apenas ou principalmente da tendência (evidente, aliás) de erigir em norma nossos próprios hábitos. É preciso discernir um registro mais primitivo desse julgamento, onde o que ele apreende não é outra coisa senão a singularidade como tal. Do rosto à voz, aos gestos, às atitudes, ao vestuário e ao comportamento — e quaisquer que sejam os traços “típicos”, sempre tão amplamente distribuídos —, não há ninguém que não se destaque por uma espécie de precipitado instantâneo onde se condensa a bizarrice de uma singularidade. Sem esse precipitado, simplesmente não haveria “alguém”. E também não haveria interesse ou hostilidade, desejo ou repulsa, por quem quer que fosse.
(NESP)