McNeill (2006:xvii-xviii) – poiesis originária

Tradução

Recordamos a primeira revelação do mundo pelo fenômeno da tonalidade afetiva, bem como o que o curso de 1929-30 já identificava como o momento poiético da formação do mundo, entendido como um acontecimento antecedente que primeiro fundamenta nosso Ser como morada. Esta formação e acontecimento de um mundo, como manifestação dos entes como um todo em seu Ser, é, sugerimos, o acontecimento de uma poiese originária da qual não somos a origem, mas que, acontecendo em e através de nós, permite primeiro nossa habitação. Uma linguagem e um pensamento sintonizados com essa chegada, com esse acontecimento de um mundo, presumivelmente ainda não seria um discurso que busca determinar algo “como” algo – seja o do discurso apofântico da ciência, o discurso apofântico-hermenêutico de Heidegger a fenomenologia primitiva, ou mesmo aquela da deliberação hermenêutica da própria phronesis aristotélica, todas dianoéticas, e preocupadas em determinar o que já se manifesta de uma determinada maneira (com vistas a leis constantes que determinam a presença das coisas; com uma visão da situação histórico-existencial e do engajamento do eu filosofante; ou com a visão de determinar o melhor curso de ação em determinadas circunstâncias, a fim de atingir um determinado fim). Seria, presumivelmente, uma “nomeação simples” tonalizada com um deixar-ser revelador do mundo em geral, um deixar-ser que, como a própria presença capacitadora, primeiro possibilita a visão, deixando algo ser visto em seu Ser. É na poetização de Hölderlin acima de tudo, tentamos indicar, que Heidegger encontra precisamente essa linguagem e tonalidade afetiva. No entanto, a poesia de Hölderlin é distinta para Heidegger na medida em que busca poetizar precisamente o momento inaugural (ou Augenblick) dessa revelação poética e chegada do mundo. Poetiza, como diz Heidegger, a “essência” ou acontecimento dessa própria poetização, o tempo de poetizar. E, ao fazê-lo, poetiza a essência da morada humana como uma exposição a essa dimensão daquilo que, em sua própria retirada, excede essa morada ao mesmo tempo que a chama ao Ser – a dimensão do que Hölderlin chama de divino. A realização poética da morada humana é assim, tentamos mostrar, chamada a desdobrar-se numa exposição contínua a um não sendo/estando em casa, ao que os gregos chamavam de deinon, que Heidegger – em consonância com sua compreensão do ser humano como habitação – traduzido como das Unheimliche: o “estranhamento” ou, literalmente, “aquilo que não é da casa”. No entanto, esta mesma exposição, a situação trágica da ação humana e do êthos, é o que antes foi trazido à tona e celebrado na tragédia grega.

Original

(MCNEILL, William. The Time of Life. Heidegger and Êthos. New York: State University of New York Press, 2006, p. xvii-xviii)

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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