(RMAP:235-237)
Que eu existo, que existo como sujeito, percebo isso toda vez que algo me toca e toda vez que me decido a fazer isto ou aquilo. Que eu existo, sei, percebo vividamente nesses momentos, sinto confusamente sempre, pela alternância das minhas variações de estado — fome, [236] sono, frescor, fadiga, mal-estar e bem-estar — e das minhas variações de humor. Mas quem eu sou, qual é a minha identidade como pessoa — isso eu não sei muito bem. De qualquer forma, não é na pontualidade desse viver presente, sujeito a essa enxaqueca, ou sujeito desse ato de escrever, que esse ser me é dado. Da realidade do que sou, esse presente vivido acende e ilumina, por assim dizer, cada vez apenas um ponto, uma parte. Eu, agora, sou a mão que segura a caneta e a mente que a guia; sou agora o corpo que abraça, que é abraçado; sou agora o olhar que percorre a pintura; sou a parte de mim que é posta em movimento por um ato sempre novo, e existo neste instante e neste ato, nos quais vivo: não há viver senão no presente. Minha vida presente é, por sua vez, pensamento, carícias, exercício do olhar, escuta, caminhada. E eu, sujeito desses atos, sou cada vez um ponto, uma parte diferente… Mas de quê? No próprio ato de me sentir viva, sinto que não estou toda presente, aqui e agora. Assim como vejo que outro não está “presente por inteiro”, exposto integralmente ao meu olhar, também sinto que não estou inteiramente “aqui”, toda presente para mim mesma. Mesmo no meu caso, a realidade não é apenas a superfície agora ativa, iluminada, “consciente” — da minha pessoa. Eu não sou apenas o ponto vivo, o ponto iluminado do meu ser atual.
Essa parte da realidade que me escapa, no entanto, aprendo gradualmente a conhecê-la, embora esse aprendizado nunca esteja concluído. Esse é, de fato, o futuro da fenomenologia: nos dizer como devemos pensar, conceber explicitamente essa realidade, que implicitamente já concebemos, já que conseguimos nos conhecer, ainda que de forma inadequada. O que significa, então, conhecer a si mesmo?
[…] devemos pensar explicitamente essa essência individual, como a concebemos implicitamente, quando a conhecemos.Essa realidade, a concebemos antes de tudo como dotada de uma individualidade essencial, que não pode ser duplicada, nem mesmo como princípio. É, de fato, essa individualidade que quero conhecer, que entendo quando pergunto “quem” eu sou. Entendo uma “essência” que não pode ser pensada como compartilhada por mais de um indivíduo, pois qualquer outra pessoa idêntica a mim que se possa mostrar neste mundo ou em outro não seria, justamente, eu.