Haar (1999) – Langeweile (tédio)

tradução parcial

Há a mesma atmosfera de Unheimlichkeit, a mesma dissolução de identidades preliminarmente reconhecidas, as mesmas proporções monstruosas de universalidade. Mais importante ainda, a angústia e o tédio têm o mesmo poder de atingir a totalidade dos seres com indeterminação, insignificância, e assim revelar o ser do mundo, enquanto tal. Enquanto a angústia deixa o ser sem voz, corta a fala (“perante a angústia, toda a enunciação do ‘é’ se cala”), o tédio é marcado pelo silêncio desse “nevoeiro”, que é a metáfora da indiferenciação que invade e afoga todas as coisas. Mas a angústia parece manter um privilégio fenomenológico, nem que seja pelo pormenor e extensão das análises que lhe são dedicadas, tanto nesta passagem como, anteriormente, na seção 40 de Ser e Tempo. No entanto, um curso publicado tardiamente, do Semestre de inverno de 1929-1930, não deixa dúvidas quanto à natureza igualmente primordial do tédio para o Dasein. Já não se pode dizer, como fez Bollnow, que “todo o edifício filosófico de Heidegger assenta na base estreita de uma única tonalidade afectiva”. Na sua expansão da citação de What Is Metaphysics? (a que se alude explicitamente várias vezes), o significado ontológico dessa Grundstimmung é analisado em profundidade: mais de 170 páginas sobre o tédio! Só esta quantidade é suficientemente rara na obra de Heidegger – em relação a um único tema – para indicar uma possível inversão de prioridade.

Douglas Brick

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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