- Alves
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Alves
Desde a analítica do Dasein até às últimas meditações sobre os «mortais», Heidegger atribui ao pensamento uma tarefa singularmente ambiciosa e desconcertante: mudar a essência do homem e, por isso, compreendê-lo diferentemente de toda a tradição até ele. «Para quem entende a história do homem como história da essência do homem, a questão “o que é o homem?” não pode significar a necessidade de fazer sair o homem pelo questionamento para fora da sua morada metafísica tradicional, de o dirigir, ao questionar, para «uma outra essência, e por aí ultrapassar a própria questão». Mas porquê um tal projecto? Por que deve o homem ser determinado diferentemente de um composto de alma e corpo, ou como «este vivente dotado de palavra», zoon logon echon, que durante séculos chamaram «animal racional», e que a Técnica transformou recentemente na sua última metamorfose: «o vivente que calcula», ou «que trabalha», «a besta de trabalho»? Estas representações não são falsas, diz Heidegger, mas perderam de vista o traço essencial do homem. Esquematicamente, todo o processo heideggeriano do «humanismo» metafísico (93) reconduz-se a duas acusações principais: o substancialismo e o antropocentrismo. O homem não é primeiramente uma substância corporal animada, ou unidade de duas substâncias, mas ek-sistência, quer dizer, abertura, transcendência, relação ex-tática com o ser. Tal é o seu traço essencial. O homem não possui em si mesmo as suas propriedades e os seus poderes; ele não se dá o ser nem a relação com o ser. Não é o centro dos entes; ele mantém-se «no meio do ente» sem ser o meio destes, está longe de possuir o segredo da sua própria essência, talvez nunca a alcançando.
Original
- Le retour au fondement de la métaphysique devrait permettre une «mutation (Wandel) de l’essence de l’homme» (Questions I, p. 26).[
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- Beiträge zur Philosophie, GA65, p. 491.[
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- Essais et conférences, trad. p. 81-82.[
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