Flusser (2021:148-149) – Sein

A tradução da palavra sein para o português revela radicalmente essa dependência linguística da ontologia. A língua portuguesa analisa as diversas modalidades do sein sem existencialismo, sem fenomenología e sem a análise categorial de Hartmann. Heidegger, Jaspers, Sartre e Camus teriam talvez analisado o problema do ser de urna forma radicalmente diferente, se tivessem apreendido o português. A palavra ser significa, aproximadamente, o Sosein dos existencialistas (ser assim), a palavra estar representa o Dasein em largos traços, e a palavra estar abrange o Vorhandensein e o Zuhandensein (ser-diante-da-mão e ser-à-mão) e ultrapassa-os. O predio fica do lado direito significa tanto a sua disponibilidade como a limitação que ele representa para os que estão na rua, isto é, para aqueles que são pedestres. A simples contraposição das três palavras neste contexto esclarece, de um golpe, a problemática do existencialismo e vale pela leitura de muitos temas de filosofía. Os pensadores como Hartmann e Heidegger, que se esforçam honestamente por ultrapassar os limites que a língua alemã lhes impõe, nunca podem chegar a formular tão autenticamente as modalidades do ser como o faz a língua portuguesa. O português é uma língua fundamentalmente existencialista, enquanto o alemão tende para o essencial, o Wesen. É um paradoxo de nossa geração ter surgido o existencialismo moderno na conversação alemã.

(FLUSSER, V. Língua e Realidade. São Paulo: É Realizações Editora, 2021)

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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