Fink (1994b:194-196) – o ente

destaque

O ente: refere-se fundamentalmente a uma pluralidade, uma pluralidade imprevisível e vasta de coisas e dados sendo. Em caso algum podemos afirmar que o campo da aparência coincide com o domínio global do ente. Pelo contrário — temos a representação de que o ente se estende incomensuravelmente para além da esfera da aparência, que o ente não se esgota na aparência, mostra apenas lados, talvez apenas uma superfície, e esconde mais do que revela. O ente: entendemo-lo na sua estrutura categorial (Bau), aquela pela qual é o portador de propriedades, um portador de propriedades aparentes e não aparentes que nunca nos aparecem. O ente, se inicialmente o postulamos de forma exemplar como substância, como coisa, apresenta-se nas suas propriedades e ao mesmo tempo encerra-se no seu ser-portador; todo o coisa sendo se exterioriza e se encerra, está tanto em si como fora de si. A estrutura ontológica da coisa singular finita auto-consistente (selbstständig) é ao mesmo tempo um ser-em-si e um ser-fora-de-si, e divide-se na sua essência interior e na sua exteriorização. Cada coisa apresenta-se a outras coisas que coexistem. Além disso, cada coisa é limitada por outras, tem a sua “autoconsistência” apenas em conexão a outros entes; nunca é a autoconsistência de uma existência única, não partilhada. Cada ente só é “ele próprio” na medida em que está rodeado de outras coisas, tem nelas o seu limite. A estrutura fundamental do ente enquanto tal — do ente finito — é uma tensão-oposição de momentos contrários: manter-se em si mesmo e exteriorização, ser-si-mesmo e ser limitado pelos outros, essência interior e apresentação exterior. E se incluirmos também no nosso pensamento o ser-no-tempo do ente, então talvez possamos distinguir as coisas que são sempre, como o tecido material do mundo ou a revolução celeste — coisas que não se esgotam no tempo, que permanecem e perduram através dele, e em seguida as coisas que se esgotam, que duram apenas um tempo limitado, que nascem e perecem, florescem e desvanecem, aumentam e diminuem. Todo o ser-no-tempo pressupõe estabilidade (Bleiben) e mudança — quanto mais não seja a mudança dos mantenedores de uma coisa cuja duração é homogênea. A mudança só existe naquilo que persiste, e a persistência só existe na mudança.

Kessler

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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