O pensamento de M. Henry é orientado por uma problemática definida, que de fato se sobrepõe à questão da manifestação da essência: a problemática da receptividade. De fato, qualquer manifestação de algo implica a recepção desse algo, e esta recepção pressupõe o poder de receber precisamente o que é dado em cada fenómeno. Se, então, a essência de qualquer manifestação deve ela própria manifestar-se, deve envolver um poder de receptividade, deve constituir uma receptividade original que funda, ao mesmo tempo que a sua própria manifestação, a do ser do ente que nela repousa. A elucidação de uma esfera originária última da receptividade, capaz de fundamentar verdadeiramente a esfera ontológica da própria fenomenalidade, será, como veremos, o resultado essencial da reflexão crítica que aqui se institui.
Que a receptividade constitui um fenómeno central no processo de manifestação da essência, que ela é idêntica à essência, é o que Heidegger já havia compreendido. O desígnio profundo (41) que inspira o autor de Kant e o Problema da Metafísica (GA3), através da procura da essência comum do pensamento e da intuição e da sua descoberta na imaginação transcendental, não é outra coisa senão a apreensão do fundamento da fenomenalidade, da própria transcendência na sua possibilidade interna, na estrutura que a determina. É mérito de Heidegger ter reconhecido a receptividade como um carácter essencial desta estrutura. No entanto, porque o conceito heideggeriano de receptividade permanece um conceito monista, longe de poder compreender nele o fundamento último dos fenómenos, ele impede a sua determinação e apenas testemunha a impotência radical da filosofia transcendental para se elevar ao nível do fundamento absoluto e da sua receptividade original. Para definir o poder de receptividade que pertence à imaginação transcendental e que nela funda a estrutura interna da essência, Heidegger apela à (Anschauung). A intuição é a recepção do objeto. Ao nível ontológico puro da essência de toda a manifestação, o objeto da intuição é o horizonte puro que a imaginação transcendental faz surgir no próprio ato em que o recebe. No ato pelo qual a imaginação transcendental objetiva o horizonte, a recepção do objeto constitui o momento essencial. O horizonte só pode ser projetado e mantido nessa projeção se for recebido pela essência e, nessa recepção, mantido nela e para ela. O processo de oposição só é possível através da recepção que mantém presente o que se opõe. Nesta recepção do horizonte, que é identicamente a sua produção ou manifestação, realiza-se a essência da manifestação. Para a filosofia transcendental, a essência da manifestação é a manifestação do horizonte. Como se apresenta, então, o fenómeno da receptividade? Qual é o seu estatuto fenomenológico? É o do próprio horizonte, pois é no horizonte e através dele que se realiza o devir fenomenológico da essência da manifestação. O ato fundamental da essência, a recepção do horizonte, esgota-se na emergência do horizonte. Mas o horizonte é apenas o efeito deste ato. Assim, ao reduzir o ato da essência e a sua manifestação à manifestação do horizonte, a filosofia transcendental confunde este ato com o seu produto e confere ao ato o estatuto fenomenológico do seu produto, isto é, a exterioridade. A receptividade da essência, longe de fundar o horizonte e a sua fenomenalidade, é assimilada a ele. Nesta assimilação, a essência perde-se como fundamento, ou melhor, permanece como fundamento indeterminado, incessantemente pressuposto pela fenomenalidade do horizonte. Tal é (42) o resultado da identificação, por Heidegger, da receptividade originária com a intuição, tal é a confusão da essência originária de todo o conhecimento com uma forma de conhecimento, uma forma que sempre foi privilegiada e sempre foi também privada de fundamento. O monismo ontológico de Heidegger conduz a um beco sem saída.
O ato que produz o horizonte, o ato de transcendência, contém em si a possibilidade do horizonte, do meio fenomenológico e ontológico em que se realiza toda a presença: não pode ser definido por aquilo que funda. O meio fenomenológico do ser deixa indeterminado o ato de transcendência que o projeta, apenas o pressupõe. “ … A fenomenalidade do horizonte transcendental do ser não contém a realidade do ato de transcendência que ela de fato pressupõe” (MHEM:245). Assim, na emergência do horizonte transcendental do ser, o ato originário que o produz permanece oculto, e é por isso que ele está também oculto em toda a forma que desdobra este horizonte, isto é, em todo o pensamento que se move em direção a ele, “no movimento do pensamento em direção a ele”, escreve M. Henry, e isto, acrescenta, “como constituindo a própria essência deste movimento” (MHEM:246). A realidade da transcendência não se manifesta no ambiente da exterioridade; ela é o que torna possível esse ambiente e a sua receptividade, mas não é o fundamento da sua própria receptividade, isto é, da sua própria manifestação. Não é o seu próprio fundamento.
A análise crítica do conceito monista de receptividade conduz então a este resultado, que é crucial para o problema da fenomenalidade da essência dos fenómenos: a manifestação desta essência não é obra da transcendência.
Isto traz à luz a razão do fracasso de todo o pensamento que obedece aos pressupostos ontológicos do monismo, a sua impotência constitutiva para exibir o fundamento de toda a manifestação. Isto porque a transcendência é precisamente tal que não a pode revelar, que é incapaz, no meio que abre, nem de se fundar nem de manifestar o seu próprio fundamento. Este resultado negativo tem um significado positivo rigoroso. A elucidação das próprias razões da ocultação do fundamento na transcendência é uma primeira determinação do fundamento. Com efeito, se a manifestação da essência, isto é, da transcendência, não é obra da transcendência, se não ocorre na exterioridade do (43) horizonte transcendental do ser, então tem de se realizar fora desse meio, independentemente do processo de objetivação que o constitui. O ato originário de transcendência revela-se em si mesmo, na imanência. Daí que se possa afirmar o seguinte: o modo originário de revelação da transcendência é a imanência.