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Campos
DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : Une pratique concrète. Paris: Armand Colin, 2012.
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As diferentes posturas dos fenomenólogos diante dos textos da tradição e diante da experiência em ato, confrontadas aos ensinamentos prático-práticos dos pragmatistas, abrem espaço para considerar a experiência de sua mortalidade, isto é, de sua precariedade, através da imersão em outras disciplinas.
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Sete contextos experienciais distintos concernem e enriquecem a fenomenologia — a inscrição no outro que si mesmo representa uma morte a si mesmo da qual se ressai inevitavelmente alterado e, se não se está demasiado apegado à identidade a priori, regenerado: nas ciências da vida e do cérebro, a neurofenomenologia; na teologia, o cristianismo ortodoxo da oração do coração; na psicologia, a experiência arcaica do mimismo na criança pequena; no Oriente, a prática da meditação budista; na psiquiatria, o projeto da Daseinsanalyse e seu possível além numa pós-psiquiatria ligada à terapia familiar; na antropologia, a démarche da etnometodologia; na estética, a experiência do gozo artístico.
1. OS CAMPOS-RAIZ
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Campos de experiência que descrevem práticas científicas ou espirituais radicais servem de paradigmas à colocação em prática da fenomenologia.
1.1. NEUROFENOMENOLOGIA
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O programa de pesquisa em epistemologia fenomenológica lançado por F. J. Varela nos anos 1990 é inaugural, apoiando-se, além da influência husserliana, em tentativas científicas anteriores.
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A psicologia introspeccionista do início do século, em Stumpf, Wundt e James, psicólogos experimentalistas do final do XIX e início do XX, explora a dupla componente física e mental dos fenômenos: Wundt funda em Leipzig um laboratório de fenomenologia experimental onde os vividos subjetivos participam da objetivação descritiva dos fenômenos físicos; Stumpf analisa os fenômenos sonoros correlacionando fatos fonéticos e eventos auditivos subjetivos; James ancora a análise dos vividos subjetivos em observação experimental quantificável.
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O projeto da psicologia da forma, de Koffka e Köhler nos anos 1930 até Goldstein e Weizsäcker nos anos 1950-1960, privilegia a estrutura do campo experiencial — primeiro no vivente animal, reformando a etologia através da visão do organismo que integra o mundo em que evolui, depois na percepção normal e patológica, reavaliando a intencionalidade numa ontologia originariamente monista que reúne parâmetros objetivos e subjetivos.
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Ensaios mais recentes de circulação entre disciplinas (Flannagan, Chalmers, Baars) fazem comunicar neurologia, psicologia e filosofia, mas a originalidade da neurofenomenologia, apresentada no artigo de F. Varela Neurophenomenology: a Remedy to the Hard Problem (JCS, 1996), reside na firmeza com que mantém juntos neuroimagem e fenomenologia sob o signo de constrangimentos generativos mútuos.
Contra os projetos interdisciplinares assimétricos que instrumentalizam uma disciplina em proveito de outra, ou que apenas espelham dados heterogêneos mantendo sua estanqueidade, a aposta da neurofenomenologia consiste em levar a sério ambos os terrenos igualmente, transformados internamente um pelo outro, o que exige imersão de corpo inteiro em cada espaço disciplinar.-
Francisco Varela adquiriu competência fenomenológica rara ao acessar as análises técnicas husserlianas de maturidade genética, notadamente os textos de Husserl dos anos 1920 sobre o tempo (manuscritos de Bernau) e a síntese passiva (Analysen zur Passiven Synthesis), familiarizando-se com o enraizamento da temporalidade na esfera passiva do sujeito.
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Varela jamais abandonou o terreno científico experimental estrito, considerando que apenas experimentações detalhadas fornecem critério científico legítimo de validação da hipótese filosófica geral, permanecendo praticante e experimentalista até o fim.
A metodologia de Varela é inédita ao produzir simultaneamente uma abordagem científica nova das práticas experimentais e uma fenomenologia renovada dos fenômenos vividos, como no artigo The Specious Present, onde demonstra a pertinência do método co-generativo ao reformar, a partir de experimentações de percepção visual (depth-perception), o caráter linear da análise husserliana do presente vivente com suas fases retencionais e protencionais, evidenciando o vivido protencional em sua componente afetiva como abertura temporal do sujeito ao imprevisível.O projeto de fenomenologia prática foi fortemente inspirado pela metodologia e epistemologia requalificada da pesquisa científica de F. J. Varela, desde o trabalho de tese sobre Husserl, Transcendance et incarnation (1995), buscando reenraizar a démarche fenomenológica em sua prática experiencial, aprofundada na colaboração interdisciplinar formalizada em On Becoming Aware (2003).Os terrenos experienciais examinados a seguir se apresentam como pesquisas de confirmação e avaliação da pertinência do esquema co-generativo, variações sobre esse tema metodológico, mais que gestos fundadores de uma nova démarche.1.2. A TEOLOGIA ORTODOXA
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O terreno prático da oração do coração ortodoxa reveste significação especial no percurso pessoal de pesquisa.
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Em Lucidité du corps. De l'empirisme transcendantal en phénoménologie, o interesse pela experiência corporal, não em sua passividade opaca ao espírito mas em sua luminosidade intrínseca, revelou que a teologia cristã continha chaves indispensáveis para reapreender a experiência de outrem em fenomenologia, notadamente em Husserl.
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Para apreender a experiência da encarnação tematizada por Husserl e seu além fenomenológico, tornou-se necessário apropriar-se experiencialmente da Encarnação do Cristo e de sua perpetuação eucarística na comunidade eclesial, o que conduziu a privilegiar uma abordagem teológica de tipo prático e místico.
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A teologia ortodoxa da Igreja do Oriente porta fundamentalmente tal aspiração à prática espiritual, enquanto o catolicismo ocidental desenvolveu uma reflexão escolástica e depois hermenêutica que recobre o socle da experiência espiritual viva sob argumentações racionais esclerosantes — o que Vladimir Lossky evidencia em Essai sur la théologie mystique de l'Église d'Orient (Cerf, 1990).
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Na experiência da oração do coração, depositada no manual prático de referência A Filocalia, buscou-se a descrição mais detalhada de nossa relação ao corpo-espírito, isto é, ao ritmo atencional e aos registros emocionais, cuja intimidade concerne ao corpo do nosso corpo, o coração.
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A experiência da oração do coração, ao penetrar nas camadas mais íntimas do vivido corporal — seus abismos e vertigens, mas também seus entusiasmos e iluminações —, nutriu por dentro a compreensão da encarnação fenomenológica husserliana, tentando dar corpo à análise do Leib e do Körper através de uma prática experiencial inédita, sem identificar indevidamente experiência mística e experiência fenomenológico-pragmática, mas mostrando sua circulação co-generativa.
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A metodologia neurofenomenológica revelou-se estimulante ao fazer com que as experiências do corpo depositadas na teologia ortodoxa prática e mística e na fenomenologia husserliana se ressourçassem mutuamente, gerando uma corporeidade reciprocamente requalificada.
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Em Le Corps glorieux. Une approche phénoménologique de la Philocalie, mostra-se como a experiência do corpo glorioso descrita pelos primeiros Padres gregos enriquece a fenomenologia do corpo conhecida através de Husserl, Merleau-Ponty, Levinas e M. Henry, ao longo de suas dimensões — espaço, tempo, imagem, socialidade.
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O espaço corporal é revisitado a partir de acentos atencionais e emocionais, e não apenas perceptivos ou motores-táteis, revelando relevo e mobilidade amplificados e uma verticalidade espiritual em que o sensorial e o espiritual se relacionam, tornando tangível o mistério de uma presença pressentida mas inapreensível.
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O tempo dessa corporeidade lúcida é reapreendido a partir de uma relação possível com o porvir, não linear mas circular, feita de imbricações das três dimensões temporais, permitindo formas de presciência que reinvestem a memória sem paralisar o futuro, cultivando confiança (esperança) mais que incerteza (angústia).
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A carne da comunidade se dá em sua vitalidade transformadora, dando origem ao termo altérologia para designar essa generatividade mutacional de si ao contato dos outros, com ênfase em figuras-limite como a criança, o louco, o animal, o estrangeiro.
O método de entrecruzamento das análises não é de sentido único, mas busca malaxar o fenômeno até conferir-lhe densidade e unidade harmônica máxima.1.3. A MEDITAÇÃO BUDISTA
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A dificuldade do cristianismo reside, paradoxalmente, em sua relação pouco elaborada com a corporeidade, pois a insistência no caráter decaído do ser humano desenvolve relação forte à culpabilidade que oblitera a eminência da encarnação; a ortodoxia, ao acentuar a deificação do corpo finito através das energias divinas incriadas e humanas criadas, abre espaço dinâmico de liberdade, ainda que essa terra virgem permaneça minoritária e pouco reconhecida mesmo entre os próprios ortodoxos.
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A experiência da meditação no contexto budista permitiu reunir exigências fenomenológicas que não convergiam por outra via.
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Diante do déficit de trabalho sobre o corpo no cristianismo, o budismo insiste com meticulosidade na postura corporal da meditação e na apreensão vivida das energias do corpo (os canais, nadi), sendo a atenção à respiração o eixo da interface entre o orgânico e o mental.
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A descrição budista do corpo-energia reencontra a busca ortodoxa do corpo de glória, os corpos do buda (nirmanakaya, samboghakaya, dharmakaya) descrevendo um caminho de não-dualidade com a realidade, prevalecendo a unidade transpessoal da natureza do espírito.
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A singularidade da experiência meditativa budista reside no ponto de báscula, deliberado e espontâneo, de interiorização da prática, em que é preciso parar de falar, refletir e argumentar para simplesmente fazer em silêncio, gesto elementar do Buda, radicalizado na via rápida do Tantrika Dzogchen — em seus Enseignements secrets, Ch. Trungpa cultiva no leitor uma instabilidade criadora, convidando a largar o lastro mesmo em relação às formas, expondo-se à ausência total de formas, situação sem rede onde a prova é constante.
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Um exame minucioso em primeira pessoa da experiência interna — qualidades atencionais do espírito, tendências emocionais diferenciadas — é destacado por Chögyam Trungpa em Hinayana-Mahayana Seminary Transcripts 1979, apostando que apenas essa minúcia na relação ao espírito produz descobertas internas inéditas.
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A. Lutz, primeiro estudante neurofenomenólogo de F. Varela, demonstrou em publicações científicas a co-implicação entre experiência subjetiva e experimentação objetiva contrastando estados atencionais treinados de monges budistas com estados fragmentados ou não preparados, a partir do artigo de 2002 sobre dinâmica cerebral com dados em primeira pessoa (com J.-Ph. Lachaux, J. Martinerie e F. J. Varela), estudando os correlatos neuroelétricos de estados meditativos (2004) e os efeitos de práticas meditativas sobre processos atencionais e emocionais (2008), sintetizados com Ph. D. Zelazo, M. Moscovitch e E. Thompson no Cambridge Handbook of Consciousness (2007) e no artigo de A. Lutz, J. D. Dunne e R. J. Davidson sobre meditação e neurociência da consciência.
2. OS CAMPOS RELACIONAIS
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Apesar da eminência dos três primeiros campos experienciais — metodologia co-generativa, experiência do corpo deificado e liberado, prática aguda da relação do espírito consigo mesmo —, uma dimensão cardinal permanece ainda não nomeada: a experiência do outro (outrem, a comunidade) em seu caráter relacional radical, já que cada um daqueles campos concentra uma prática ainda individual ou interindividual sem abrir possibilidade relacional forte.
2.1. DA PSIQUIATRIA EXISTENCIAL À PÓS-PSIQUIATRIA
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O interesse pela psiquiatria revelou, em seu renovamento desobjetivante via a Daseinsanalyse — acompanhado no seminário de F. Dastur e J.-M. Azorin/J. Naudin na ENS entre 1992 e 2000 —, uma perspectiva que, através de Binswanger e Blankenburg, parecia libertar a experiência psicopatológica de todo paradigma reducionista, substituindo o tratamento medicamentoso por uma escuta do outro que faz da relação intersubjetiva o lugar mesmo da terapia.
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Em Mélancolie et manie, Binswanger faz emergir, no estudo da esquizofrenia, uma forma aguda de lucidez e atenção ao outro enraizada na relação à abertura infinita dos possíveis; na melancolia, o repli sobre si indica retraimento diante do outro; em ambos os casos o ritmo temporal se transtorna — passado empobrecido, futuro inchado —, tornando instável a vida do sujeito.
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Em La Perte de l'évidence naturelle, Blankenburg descreve a fragilidade da relação ao mundo em casos de pauci-esquizofrenia, patologias limitadas e provisórias que interessam mais que as psicoses francas, por servirem de espelho ao sujeito dito normal.
Essa abordagem, embora renove reciprocamente psiquiatria e fenomenologia, permanece aquém em três pontos: a exigência radical e produtora da co-generatividade, a relação ao outro nela engajada, e a prática clínica mobilizada.O encontro com uma equipe de urgência psiquiátrica de intervenção domiciliar, na filiação da psiquiatria existencial, desenvolveu precisamente esses três requisitos.Baseada no hospital Charcot em Plaisir (78), dirigida pelo Dr. Frédéric Mauriac, a equipe ERIC (Équipe rapide d'intervention de crise) celebrou seu décimo aniversário em congresso internacional no Palácio de Congressos de Versalhes em 11 e 12 de junho de 2004, levando a desobjetivação do paciente ao extremo ao evitar tratamento psicotrópico — usado apenas como meio relacional — e sobretudo a hospitalização, mantendo a pessoa em domicílio ao requalificar todos os membros da família.-
Diante de uma crise entre um adolescente e seus pais, que costumam se declarar impotentes e incompetentes, o psiquiatra eriquiano se apaga para tornar o pai novamente competente em seu papel, invertendo a demissão parental e o controle objetivante do corpo médico.
A abordagem em terapia familiar, elaborada exemplarmente pelo psiquiatra belga Mony Elkaïm, é ferramenta complementar essencial, fazendo emergir uma ética que privilegia a prática de terreno sem preconceitos teóricos (uma espécie de epoché de base), a virtude transformadora da confrontação com a experiência crítica, e uma experiência relacional que ultrapassa a intersubjetividade fenomenológica em favor de um vínculo interpessoal múltiplo por ressonância.2.2. A ANTROPOLOGIA ETNOMETODOLÓGICA
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Mais naturalmente que a prática psiquiátrica, ancorada num paradigma interindividual de face a face, o terreno mais afinado com um requisito altruísta e comunitário se liga a uma abordagem coletiva de tipo antropológico.
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Na tradição fenomenológica, a abordagem sociológica de A. Schütz privilegia a experiência vivida das relações sociais em sua dimensão sincrônica (os cossociais de que fala também Gurwitsch) e diacrônica (ascendentes e descendentes), através de uma epoché natural que ressoa com os reencontros encarnados e a partilha habitual com o mundo tematizados por Husserl na Krisis, ainda que faltem uma prática efetiva da relação aos outros e uma empiricidade suficientemente distanciada para ser vista em sua dimensão transcendental sem se tornar abstrata.
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Numa perspectiva microssociológica mais qualitativa e descritiva, os trabalhos da etnometodologia de Garfinkel e Goffman e os avanços da etnologia pré-reflexiva de J. Favret-Saada, G. Althabe e M. Segalen abriram pistas para uma fenomenologia comunitária concreta.
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Garfinkel, fundador da etnometodologia, em Studies in Ethnomethodology no início dos anos 1960, privilegia a dimensão interacionista entre sujeitos até erradicar a noção de subjetividade em favor da imanência interativa.
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E. Goffman cultiva a descrição das situações da vida cotidiana com o mínimo de pressupostos.
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J. Favret-Saada, experimentando o terreno-limite da magia negra no bocage bretão, elabora metodologia de observação à medida da implicação estrutural do observador no observado, revelando in vivo a inanidade de toda neutralidade do sujeito na situação de feitiçaria.
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G. Althabe, etnólogo dos terrenos urbanos, evidencia as experiências locais e a cultura do próximo, pondo em xeque o preconceito exótico dos africanistas e americanistas.
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M. Segalen, instruída por sua Sociologie de la famille, desenvolveu ferramenta de interrogação das práticas culturais a partir de sua experiência de museógrafa no Museu de Artes e Tradições Populares.
Com esses instrumentos metódicos de terreno, buscou-se dar conta da comunidade grega de Istambul, terreno prático de pesquisa sobre o estatuto da comunidade numa démarche etnológica, após dois anos na antiga Constantinopla (1988-1990) e retornos breves subsequentes, descrevendo os eixos temporal-histórico, espacial-social, familiar-genealógico e simbólico-mítico do vivido dessa comunidade, iluminados fenomenologicamente em suas dimensões internas (memória, imaginário, percepção, empatia) e intersubjetivas (festas, comemorações, conflitos sociais, greves, celebrações históricas, cerimônias religiosas), o que permite desatar apories da fenomenologia quanto à descrição de pluralidades em movimento e coletividades heterogêneas.2.3. A PSICOLOGIA DA CRIANÇA
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Cada outro é diferente, e a busca por dar conta da experiência intersubjetiva em seu caráter concreto e encarnado revela que a alteridade reserva surpresas que nos nutrem.
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Seguindo a pista husserliana das figuras-limite de outrem — o vivente na autopoiese, o louco na Daseinsanalyse e na terapia familiar eriquiana, o estrangeiro/primitivo na antropologia etnográfica do semelhante —, a criança expõe de modo único à novidade e à surpresa, desconcertando quem dela provém e revelando outra potencialidade de si mesmo.
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A criança coloca em presença do tréfundo arcaico, pulsional, vital e gerador mais do que num território espaço-temporal, permitindo recomunicar consigo mesmo, isto é, com o corpo e a espontaneidade, articulando a experiência do corpo à experiência íntima de alteridade que porta em si.
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Desde os trabalhos de D. Stern sobre a vida interpessoal do lactente nos anos 1960-1970 e depois a escola americana em torno de Meltzhoff, aprofundando pistas abertas por Merleau-Ponty e Piaget, demonstrou-se experimentalmente que o recém-nascido, desde as primeiras horas (e mesmo intrauterinamente), está voltado para o outro, em posição de receptividade — o que Stern nomeia affective atunement — sendo apenas a cultura e a educação capazes de induzir um condicionamento que nos afasta dessa vitalidade primeira.
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Os trabalhos em psicologia da criança do antropólogo dos anos 1930 Marcel Jousse, notadamente Anthropologie du geste e Le Style oral, aprofundaram a compreensão da experiência arcaica da alteridade que atravessa a criança, ao centrar sua investigação não no mimetismo reprodutor e estéril mas no mimismo inventivo e renovador, aptidão universal a ser reativada em cada um.
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Jousse, que utiliza o termo intussuscepção para designar essa faculdade de interiorização espontânea da criança, convida a não fazer o carro ou o cavalo, mas a ser o carro, a ser o cavalo — em estágio de mimismo, percebe-se o quanto se está habituado a funcionar mecanicamente sem fazer reviver aptidões primordiais que constituem os vivos e que atravessam espontaneamente as crianças.
A intuição de Jousse sobre a criança estende-se ao ser humano em geral, depositário de uma abertura infinita ao que o ultrapassa e aguilhoa, receptividade dada mas a ser cultivada, pois naturalmente tendemos ao repli e ao silêncio, erguendo uma linha de separação entre eu e outrem que só existe na projeção mental — a criança, sem barreira psíquica, ensina que a realidade é toda abertura e a distinção eu/outro uma ficção, ainda que a educação corresponda ao dressage (Zucht) reclamado por Kant na esteira de Pestalozzi para impor os limites da cultura à força selvagem da desinibição.3. O TECIDO DOS “FORAS” DA FENOMENOLOGIA
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A fenomenologia, ao contato desses diferentes campos de experiência, se enriquece e se renova: reinervada em sua metodologia redutiva pela co-generatividade da neurofenomenologia; requalificada na prova fundamental do corpo pela experiência das energias no pensamento ortodoxo do corpo glorioso; revisitada em sua efetivação pela prática minuciosa da relação ao espírito própria do budismo; reassegurada na dimensão intersubjetiva pela ética relacional da psiquiatria da ERIC; reabilitada na experiência comunitária pela investigação de terreno etnológico e a etnometodologia; radicalizada em sua intuição do vínculo entre corpo e outro pela antropologia do mimismo da criança em M. Jousse.
3.1. FENOMENOLOGIA DO GOZO ESTÉTICO
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Num sétimo e último ponto, a experiência estética forma um tecido onde se cruzam os fios anteriores, concentrando a relação primordial à sensibilidade corporal (aisthesis), ancoragem de toda prática, e abrindo, pelo regime expressivo, uma liberdade de indeterminação e não-finalidade que expõe a um modo de comunicação livre de toda eficácia esterilizante.
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Em coerência com a evidência interna da experiência em primeira pessoa, privilegia-se um ancoradouro efetivamente trilhado por quem fala, razão pela qual o foco recai sobre o ato de escrever, terreno privilegiado de experimentação da forma estética.
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Isola-se dentro dessa experimentação a dimensão do gozo no ato de escrever, pois o gozo aspira ao núcleo da sensibilidade corporal, lugar por excelência da relação íntima do sujeito consigo mesmo, intimidade caracterizada por autenticidade e gratuidade — não se trata, porém, de um remake da arte pela arte, pois a atenção ao que se dá no ato de escrever o torna lastreado e encarnado.
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Privilegia-se o gozo de escrever sobre a mira de um objetivo demonstrativo, suspendendo o resultado em favor do próprio processo do advento do ato de escrever, mediante a consigna metódica de se reter de escrever para deixar emergir uma qualidade de relação ao instante vital — gesto de retardo sobre o dado e o definitivo que todo artista produz, seja escritor, pintor ou compositor, sendo E. Levinas exemplar dessa atitude em que o Dizer sempre prevalece em dignidade sobre o Dito.
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Tal gesto, artístico ou filosófico, remete à própria método da fenomenologia, a essa epoché do sentido sobre o movimento de sua conquista, a essa retenção dos conteúdos de significação sobre o ato que os origina, abrindo uma temporalidade do retraimento que é também temporalidade de maturação, densificando a relação ao presente ao aliviar o espírito do passado ou da programação do futuro — a epoché da escrita procede da exigência de não escrever, não por medo da imperfeição mas por cuidado de deixar se desdobrar o espaço do sentido.
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Em Écrire en phénoménologue. Une autre époque de l'écriture (1999), a partir dos aportes de Husserl a Marion passando por Heidegger, Merleau-Ponty, Levinas e M. Henry, e explorando junto a poetas como Y. Bonnefoy e F. Ponge os recursos de tal escrita em ato, desenharam-se os contornos de uma prática da escrita fenomenológica que evidencia a epoché aplicada ao sentido, a temporalidade suspensiva do movimento de retraimento, e a relação a outrem como espaço de partilha onde o outro e o si não são mais concorrentes.
3.2. A COERÊNCIA DOS “FORAS”
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Além de sua significação ordenada no percurso pessoal de pesquisa, os sete terrenos revestem coerência epistemológica essencial em quatro traços: o conhecimento desses campos se fez em primeira pessoa, com o fio condutor da empatia (segunda pessoa) determinante em cada caso; o soubassement prático fornece o terreno ontológico da démarche; tematicamente, a experiência corporal, situada no centro da investigação, se aprofundou notavelmente; e, quanto à linguagem adotada, a descrição se viu ao mesmo tempo promovida e limitada em suas pretensões, em proveito de outros paradigmas pragmáticos complementares.
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Os foras da fenomenologia explorados têm por virtude nutrir uma outra fenomenologia, cujo método se faz expressamente em primeira pessoa e é essencialmente retransmitido pela segunda pessoa via empatia, cuja ontologia é eminentemente prática (com variações pragmática, experiencial e experimental), cujo enraizamento temático passa essencialmente pela experiência primordial mas revisitada do corpo, e cuja linguagem descritiva aparece reinvestida mas interrogada no modo de uma escrita fenomenológica em ato.
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