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5 Metodologias

DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : Une pratique concrète. Paris: Armand Colin, 2012.

1. A co-originariedade circular do método

A pluralidade das reduções fenomenológicas, identificada por Husserl desde as Ideias diretrizes I (1913), remete a uma estrutura geral unificada — a modificação da atitude do sujeito na relação com os objetos do mundo, segundo o princípio da ausência de todo pressuposto (Voraussetzungslosigkeit) enunciado já nas Investigações lógicas — que se desdobra em variação eidética, epoché transcendental e conversão reflexiva, reunidas sob o vocábulo genérico de epoché em On Becoming Aware: an Experiential Pragmatics.

  • A epoché desdobra-se em três fases organicamente ligadas: a suspensão prejudicial, ruptura com a atitude natural; a conversão da atenção do exterior para o interior; e o abandono ou acolhimento da experiência, este último de inspiração heideggeriana, privilegiando a abertura ao indecidível e a passividade diante do acontecimento sobre a decisão voluntária.
  • A variação eidética, reinscrita no coração da redução para ressaltar sua dimensão expressiva e categorizante, mantém-se componente intrínseca da dinâmica metódica, ainda que deslocada, em On Becoming Aware, para o estágio facultativo da expressão do ato de tomada de consciência.
  • A pluralidade das vias husserlianas de acesso à redução — sistematizadas por I. Kern e ampliadas por E. Fink e R. Boehm em quatro a sete vias — evidencia que a produtividade do método reside na interação e na generatividade mútua dos percursos, não numa sistemática doutrinária fechada.

1.1. O gesto de suspensão: a epoché

A epoché, designada em 1913 como “colocação entre parênteses” (Inklammersetzung) e “colocação fora de circuito” (Ausschaltung), realiza um duplo movimento de expulsão e conservação que neutraliza — sem negar destrutivamente — o conteúdo ininterrogado, requalificando seu modo de doação a partir da interrupção do fluxo contínuo e irrefletido da consciência, no gesto que Montaigne já nomeava epekhô.

  • A suspensão retém o conteúdo perceptivo sem lhe atribuir força de validade, permitindo contemplá-lo à distância a partir de um desinteresse deliberado quanto à sua efetividade.
  • A epoché sustenta a estrutura precária da conversão reflexiva ao fornecer-lhe manutenção temporal, exigindo, ao contrário do caráter provisório da dúvida cartesiana, reativação incessante a cada instante.
  • A fragilidade da redução transcendental reside no risco de sua sedimentação em atitude formal e não vigilante, oscilando constantemente entre o ato vertiginoso de abalo da tese do mundo e a mera habitualidade.

1.2. O gesto de conversão: a redução psicológica

A redução psicológica não delimita um novo campo de experiência, mas reconduz (zurückführen) a experiência imediatamente dada às suas implicações internas não sabidas, liberando o plano do ato de consciência que visa o objeto — um gesto de libertação (Beschränkung), não de delimitação (Einschränkung), conforme a Ideia da fenomenologia de 1907.

  • A conversão do olhar (Umkehrung des Blickes) permanece fragmentária e pontual, pois o sujeito é a cada instante recapturado pela absorção no objeto percebido.
  • O retorno reflexivo sobre o ato perceptivo situa-se sempre num após-golpe temporal (Nachträglichkeit) em relação à percepção do objeto, seja de tipo retencional imediato, seja de rememoração presente, conforme tematizado em Philosophie première.
  • A não-coincidência constitutiva entre objeto e ato — seja no descolamento retencional, seja na estrutura de dupla complexidade da rememoração — não exclui, contudo, a possibilidade inédita de uma experiência temporal em que o ato perceptivo se veja antecipado desde a própria percepção do objeto.

1.3. O gesto de variação: a redução eidética

A redução eidética tem por tema a essência concreta de todo objeto, distinguindo-se da conversão reflexiva psicológica e da epoché transcendental por libertar, mediante a variação imaginativa, o espaço interior do puro possível a partir do apego ao dado sensível particular.

  • O fato (Tatsache) é abstrato por limitar-se à atualização de um único possível, ao passo que a essência é concreta por reunir a multiplicidade indefinida de variações de que provém, conquistando sua universalidade pelo arrancamento ao arbitrário do contingente.
  • O gesto mental de variação — exemplificado na multiplicidade dos vermelhos percebidos até a extração da essência invariante do vermelho — apoia-se numa dupla fonte perceptiva e imaginativa, a primeira assegurando a singularidade do vivido categorial, a segunda desprendendo o real de sua efetividade meramente empírica.
  • A prática eidética da categorização descritiva confere um segundo esteio, mental-imaginativo, à conversão reflexiva pontual, fazendo emergir uma omnitemporalidade (Allzeitlichkeit) transindividual que já não é de ordem estritamente individual.

2. A co-generatividade metodológica

A distinção entre constituição estática e constituição genética, embora formulada tardiamente por Husserl com sentido inicialmente cronológico, não corresponde a uma disjunção estanque entre os dois registros, mas antes a um entrelaçamento de motivos estáticos e genéticos cuja produtividade reside precisamente em sua generatividade recíproca.

2.1. O trabalho da constituição estática

A primeira efetivação da metodologia husserliana define um processo de estratificação (Schichtung) dos atos de consciência, segundo uma lógica de fundação (Fundierung) vivida — não uma fundação em razão (Begründung) — pela qual a rememoração ou a imaginação pressupõem sempre uma percepção sensível primeira.

  • A percepção constitui o ato primário sobre cujo fundo se destacam os demais atos de consciência, instaurando por edificação as correlações do percebido e do percebente, do rememorado e do rememorante, do imaginado e do imaginante, do empatizado e do empatizante.
  • A imaginação desempenha papel-chave de bifurcação estrutural nessa fundação não linear, distinguindo-se em Bildbewusstsein (consciência de imagem), fundada direta ou mediatamente na percepção ou na rememoração, e Phantasie, dotada de força de imediatidade autônoma frente a ambas.
  • A empatia requer a articulação conjunta de percepção intercorporal passiva, memória orgânica sedimentada e reativável, e transposição imaginativa dos vividos alheios, constituindo assim a experiência vivida do outro para mim e de mim para o outro.
  • A via cartesiana, única entre os percursos husserlianos a merecer o qualificativo de estática, parte da suspensão de todo pressuposto em busca de um solo de evidência apodítica — o ego transcendental — cuja relação primária com o objeto de conhecimento é a percepção, sobre a qual se desdobram as demais regiões do conhecimento.

2.2. A dinâmica da constituição genética

A não linearidade introduzida pela imaginação constitui o ponto de deflagração da dinâmica genética dos vividos, na qual a constituição não parte do dado sensível do percebido, mas do movimento de atração do afeto, que oferece a estimulação sensorial necessária à mobilização da dinâmica perceptiva.

  • O afeto e a imagem partilham a potência de modificar o percebido, seja fazendo-o variar, seja mobilizando-o, criando ambos a diferença que desloca a posição efetiva da percepção.
  • A afecção configura-se não como ponto, mas como processo de originação da dinâmica da consciência, co-originada temporalmente numa síntese do presente vivo em que se encadeiam retenções e protenções.
  • Da co-originação entrelaçada da experiência passiva — imaginária, afetiva e temporal — emergem dinâmicas experienciais mais enraizadas na estrutura do mundo, incluindo a sociabilidade, os ritmos emocionais, as partilhas interpessoais e as narrações históricas.

3. O empirismo transcendental: alcance e limites

O entrelaçamento co-originário das dimensões experienciais do sujeito confere à experiência um papel constitutivo da estrutura do conhecimento, superando o estatuto meramente derivado ou associativo que lhe atribuem os empirismos de Locke e Hume, para instaurar um empirismo propriamente transcendental, no qual o dado sensível não é excluído do a priori como matéria informe, mas contribui intrinsecamente para constituí-lo, conforme o a priori material husserliano.

3.1. A crítica husserliana do empirismo e a fenomenologia como idealismo transcendental

A crítica husserliana ao empirismo, formulada na segunda Investigação lógica como crítica às “teorias da abstração”, opõe à lógica associacionista e atomista dos empiristas britânicos uma lógica de estruturas relacionais globais em que a experiência funciona como componente constitutiva do conhecimento.

  • Tal crítica distingue-se de outras dimensões da crítica husserliana com as quais frequentemente se confunde: o psicologismo denunciado nos Prolegômenos, o naturalismo posto em causa em A filosofia como ciência rigorosa, o relativismo cético identificado em Hume, e o objetivismo apontado na Crise das ciências europeias.
  • A posição fenomenológica husserliana configura-se como idealismo transcendental — não como nova metafísica, mas como démarche essencialmente metodológica que emerge do trabalho crítico.

3.2. O empirismo no cerne do idealismo transcendental fenomenológico

Para além da crítica ao método atomístico-associacionista, Husserl retoma a seu favor motivos propriamente empiristas nos anos 1920, os quais não se limitam a temáticas adjacentes a uma metodologia deliberadamente idealista, mas se inscrevem por inteiro na refundação de sua própria metodologia.

  • O ceticismo humiano, embora identificado por Husserl como ressurgência da absurdidade cética antiga motivada por certa má-fé intelectual, é reconhecido como antecipação não consciente da epoché fenomenológica pura e como primeira apreensão do problema concreto universal da filosofia transcendental.
  • O movimento da gênese na filosofia de Locke é retomado por Husserl, na Psicologia fenomenológica, sob a noção de origem de nossas representações e de uma história da consciência.
  • A discussão crítica entre L. Landgrebe e J. Wahl evidencia a ambiguidade do retorno husserliano a uma experiência pura, imediata e última — que conduz à hylé sensual — sem que tal retorno esgote o alcance da fenomenologização do empirismo empreendida por Husserl.

3.3. O caráter transcendental do empirismo

A aparente “moleza informe” do empirismo revela, à análise, uma lógica própria portadora de requisitos de tipo transcendental, na medida em que a dimensão transcendental da experiência — entendida como explicitação das estruturas constitutivas desta, ainda que imanentes a ela — encontra em Locke, Hume e James antecipações legítimas.

  • Em Locke, a lógica genética da experiência articula-se à identidade pessoal como critério da consciência de si, fazendo da experiência passada e futura componente interna do advento do eu a si mesmo, o que dinamiza a própria filosofia transcendental.
  • Em Hume, o ceticismo radical é menos ontológico que estritamente metodológico, configurando, segundo Lógica formal e lógica transcendental, a descoberta precoce da filosofia transcendental mediante a exigência de reinterrogação permanente do dado e de seus pressupostos internos — um movimento de epoché da epoché.
  • Em William James, a “método analítica” do Précis de psychologie privilegia a visão global e o contexto intrínseco do fenômeno sobre a definição a priori, criticando o atomismo associacionista em favor de um empirismo radical no qual as relações entre as coisas são experimentadas no mesmo título que as próprias coisas.

3.4. A ideia de “empirismo transcendental”

A legitimidade de identificar tal empirismo crítico ao empirismo transcendental reivindicado para a fenomenologia encontra apoio na filiação husserliana imediata, notadamente em L. Landgrebe, que explicita o projeto fenomenológico mediante as noções de individuação e facticidade, e em W. Szilasi, de quem Landgrebe extrai a formulação de “positivismo transcendental”.

  • A genealogia dessa redefinição da fenomenologia prolonga-se, com inflexões pós-estruturalistas, em G. Deleuze e J. Derrida, que a conduzem a explorações psicanalíticas e linguísticas inéditas.
  • O empirismo transcendental oferece-se como chave epistemológica da fenomenologia mediante o duplo valor gerativo entre um processo de naturalização da fenomenologia transcendental e um requisito de regulação homológica dos planos empírico e transcendental, sem que homologia implique homogeneidade.
  • A convergência entre o empirismo radical de James e o empirismo transcendental husserliano situa-se na experimentação da categoria como processo dinâmico, cujo lugar unitário de interação é a experiência transcendental corporal da carne, permitindo a integração gradual dos níveis mais simples (sensação, percepção dos objetos) aos mais complexos (consciência de si, hiper-reflexividade, categorizações diversas).
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