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Consciência

DEPRAZ, Natalie. La conscience: approches croisées, des classiques aux sciences cognitives. Paris: A. Colin, 2001.

Questões em jogo

  • 1. Estar consciente daquilo que nos rodeia ou ter consciência de si mesmo inclui, de modo geral, forma, ainda que implícita, de relação consigo, experimentável tanto na ordem do conhecimento quanto no plano da ética, não sendo a experiência desse ser-consciente, desse ter-consciência ou desse tornar-se-consciente exclusividade dos filósofos, podendo cada um fazer sua prova a cada instante da vida cotidiana, por ocasião de acontecimento trágico ou feliz que marca ruptura radical no curso habitual da existência.
  • 2. Esse modo de entrar em relação mais profunda consigo mesmo, uma vez exercido e mesmo erigido em método, consoa notavelmente com a própria démarche filosófica, seja em seu eixo prático, o da sabedoria antiga, seja em seu sentido mais teórico de juízo crítico colocado no centro pelo pensamento moderno, revelando o motivo da consciência forte continuidade entre a interrogação espontânea do senso comum e a investigação deliberada e rigorosa do filósofo, o que confere legitimidade evidente à disciplina fenomenológica na abordagem prioritária e englobante de tal experiência.
    • A démarche fenomenológica parte da atitude natural e institui, pela operação da redução, correspondente a conversão do olhar sobre o mundo e as coisas, a passagem graduada à tomada de consciência de tipo filosófico, sendo a redução o método por excelência da fenomenologia: por ela, desvio o olhar das coisas e deixo de estar nelas absorvido, para retornar aos atos da consciência pelos quais as visualizo.
  • 3. Temos assim, com a consciência, experiência integrante, a um só tempo de si e do mundo, de si pelo mundo e do mundo via si mesmo, inscrevendo-se aí de imediato as dimensões múltiplas da relação que, enquanto sujeitos, mantemos com o mundo: percepção, afeto, temporalidade, movimento, imaginação, vontade, juízo, linguagem, encontro do outro, comunidade, história, saber-fazer, hábito, aspiração infinita ao sagrado e ao absoluto, ampla paleta de cores da consciência, refletindo cada dimensão tanto sua estrutura quanto sua dinâmica.
    • Em modo estrutural, são os atos da consciência que definem, cada um a seu modo, minha relação com o mundo — perceptivo, rememorante, imaginante, empático, judicativo, linguageiro, voluntário, motor, emocional, social, histórico, habitual e espiritual —, regendo-se essa estratificação pela ordem de aparecimento desses diferentes atos vividos.
    • Em modo dinâmico, está em jogo a própria gênese desses vividos, o modo singular como emergem minhas diferentes aptidões sensoriais, minhas lembranças imediatas e antecipações próximas, o modo como se formam certas imagens, como encontro o outro, como nascem meus juízos e se produzem minhas palavras, ou a forma sob a qual aparecem minhas capacidades motoras, meus afetos e atos deliberados, enfim o engendramento social, histórico, habitual e místico de meu ser-consciente.
  • 4. Tal caráter proteiforme da consciência procede da riqueza infinita das experiências que todo ser sensível, animal e a fortiori humano, é capaz de conhecer durante sua vida, razão pela qual a filosofia não detém a exclusividade de sua elucidação, tendo numerosas outras disciplinas — psicologia, psicanálise, fenomenologia, psiquiatria, ciências cognitivas, tradições espirituais diversas, teístas ou não — proposto abordagens originais, revelando-se a consciência, constituída e retomada em toda sua amplitude pelo aporte conjunto dessas démarches, tema complexo, quase determinado por tal hibridação interdisciplinar.
  • 5. Coloca-se assim a questão do possível estilhaçamento da noção, sendo sua unidade conceitual a do saber — scire (conscius, conscientia) em latim, wissen (Bewußtsein, Gewissen) na língua germânica —, remetendo, contudo, essa unidade a consideráveis desvios lexicais contemporâneos entre as línguas latinas e o alemão ou o inglês (consciousness e awareness), dispondo o francês de um único termo, conscience, para traduzir a pluralidade das palavras alemãs ou inglesas, indicando isso mutação possível de sua definição e considerável reelaboração de suas referências.

Da experiência à nomeação

O fato sem a palavra

  • 1. Os gregos, como atestam os trabalhos antropológico-históricos de J.-P. Vernant, mal sabiam nomear essa realidade complexa que, desde a época moderna, chamamos consciência, não havendo termo grego capaz de formular de modo unificado o que era, contudo, experimentado, de diversas formas, como diálogo de si consigo mesmo, legitimando-se assim projetar a palavra consciência sobre toda sorte de relação consigo, cognitiva ou moral, efetivamente apreendida pelos gregos em diferentes épocas.
  • 2. Nas epopeias homéricas, nas tragédias e nos diálogos socráticos, heróis e personagens conversam interiormente consigo mesmos em termos impregnados da fisiologia do coração e das entranhas, falando Menelau, na Ilíada, a seu coração magnânimo, seu thymos, interlocutor por excelência de si consigo em espécie de conselho interior antes de agir; Platão formaliza tal entretenimento interno nos termos do diálogo interior e mudo da alma consigo mesma (Sofista, 263e), pelo qual se aprende a melhor se conhecer, como indica o gnóthi seautón inscrito no templo de Apolo em Delfos; Aristóteles e os estoicos, em acentos gnosiológico ou ético, começam a usar termos forjados sobre o prefixo sun- seguido de ação verbal, synaisthánesthai ou syneídesis, retrospectivamente traduzidos pelos latinos por conscientia.
  • 3. Trata-se, como explicita E. Balibar em La conscience (2001), de processo de retroversão do latim ao grego, buscando os estoicos latinos criar sua própria terminologia moral a partir do quadro traçado pela Escola grega anterior, tornando-se syneídesis, ou conscientia, corrente para designar o modo como o indivíduo, a sós consigo, avalia suas ações e méritos, segundo forma antecipada de exame de consciência em que se inaugura a figura da consciência moral (Cícero) e do testemunho quase jurídico que se presta a si mesmo (Quintiliano), frequentemente em termos de culpa e remorso, mas também de recapitulação via memória.

Quem inventou a “consciência”?

  • 1. Os historiadores da filosofia atribuem a Descartes a paternidade da invenção da consciência, atribuindo este, ao definir o sujeito por sua atividade de pensar (Ego cogito, ergo sum; ou Ego sum, ego existo), à subjetividade o papel de fundamento de todas as ciências, questionando-se, contudo, se se pode identificar consciência e sujeito pensante, notando J.-M. Beyssade que a palavra francesa jamais figura em Descartes, sendo o termo latino conscientia apenas um hapax situado nos Principia philosophiae (I, 9), consagrado à definição da cogitatio, defendendo Balibar (Locke, 1998) não ser a filosofia cartesiana tanto filosofia da consciência quanto filosofia da certeza verdadeira.
  • 2. Utilizado pela primeira vez em 1678 por Ralph Cudworth, líder dos platônicos de Cambridge, o neologismo consciousness é retomado por Locke em seu Ensaio sobre o entendimento humano (1694), definindo-o como o modo pelo qual um homem percebe o que se passa em seu próprio espírito (II.1.19), inaugurando-se aí propriamente a problemática da consciência como identidade e experiência de si no tempo.
  • 3. Poder-se-ia considerar, contudo, que esse acento posto por Balibar na invenção lockiana da consciência corresponde a opção bastante nominalista, bastando a presença definicional do termo para atestar a existência da questão, originando-se já em Descartes, senão o léxico, ao menos problemática essencial da consciência na Idade Clássica, nem que seja em razão da tese segundo a qual a alma pensa sempre, o que lhe confere identidade que passa pela duração temporal.

A problemática conceitual

  • 1. Distinguem-se três grandes campos nocionais da consciência: acepção principalmente teórica e racionalista, sustentada pelo paradigma do conhecimento de si, definindo nosso ser-consciente; dimensão moral que acentua o sentimento interior e culmina na ideia de certeza moral, determinando nosso ter-consciência-de; e acento mais prático, que confere à consciência o estatuto de potencial de capacidades a educar, individuais e sociais, tornando possível uma tomada-de-consciência ou tornar-se-consciente.

Paradigma teórico do conhecimento de si

  • 1. Nosso ser-consciente caracteriza-se pela aptidão a identificar como nossos os acontecimentos de que é feita nossa vida, aprendendo assim a melhor nos conhecer, sendo a consciência de si, entendida como conhecimento de si, aquilo que torna possível o conhecimento dos objetos, e não o inverso, havendo, nesse contexto gnosiológico, precedência transcendental do sujeito sobre o objeto e busca correlativa de acesso a essa esfera de interioridade que nos define como sujeitos conscientes de nós mesmos.
  • 2. Além desse movimento espontâneo de interiorização que nos revela a nós mesmos como si, há movimento segundo, correlativo, de tipo reflexivo, que nos devolve o acesso a nós mesmos a posteriori, correspondendo o método reflexivo ao retorno sobre si que os psicólogos chamam introspecção, oferecendo a possibilidade de observar os próprios estados psíquicos, cognitivos ou emocionais.
  • 3. Kant é o primeiro a colocar o problema do desdobramento representacional da consciência e o da regressão ao infinito do observador interior, denominando isso o paralogismo da psicologia racional, quando a consciência transcendental, ao refletir sua própria forma invariante através da diversidade dos conteúdos sensíveis, acaba por se confundir com estes e travestir-se em eu empírico psicológico, sendo o Selbstbewußtsein (autoconsciência) a instância crítica que estabelece os limites de tal confusão, erigindo-se como ato formal, condição de possibilidade de toda experiência.
    • O eu penso apreende-se então em sua própria forma sob forma de auto-afecção, experiência pura do sentido interno, o tempo, determinando tal auto-afecção sensível do eu por si mesmo retorno, agora refletido, à empiricidade, livre de todo paralogismo psicológico.

Problemática moral

  • 1. É precisamente na distinção conceitual forjada por Kant entre Bewußtsein (consciência teórica) e Gewissen (consciência moral) que se origina, na língua alemã, a partição dos dois primeiros campos nocionais da consciência, retomando Kant de Wolff a colocação em evidência do Selbstbewußtsein e de Lutero a invenção do Gewissen, conferindo-lhes estatuto ao mesmo tempo crítico e transcendental.
  • 2. Lutero, primeiro teórico do Gewissen em alemão, seria também o teórico da consciência moderna, caracterizada principalmente como o lugar dos afetos mais violentos em que o homem é, diante de Deus, aniquilado ou elevado, não sendo em nada autônoma a consciência, pois presa, em plena passividade, aos afetos, não buscando sua liberdade em si mesma, mas na interiorização de submissão à graça divina, rompendo assim com o intelectualismo medieval ao associar a consciência à fé e à certeza do coração.
  • 3. Representante do jansenismo, próximo do luteranismo, Pascal ligará por sua vez consciência, fé e coração, alojando-se a fé, segundo a fórmula bem conhecida de que o coração tem razões que a razão desconhece, no mais íntimo de nós mesmos, no foro interior, não procedendo de nenhuma prova racional, testemunhando o mesmo Rousseau, ao acentuar o sentimento do divino, e Kant, ao insistir na prova da existência de Deus que não constitui de modo algum prova demonstrativa.
  • 4. Na Crítica da razão prática, Kant define a consciência moral como imperativo categórico simétrico à forma pura da apercepção teórica, sendo ambas formas puras do pensamento definidas pelo Bewußtsein, nome do sujeito transcendental, sendo o Gewissen assim a consciência (Bewußtsein) de uma livre submissão da vontade à lei, ou, na Metafísica dos costumes, a consciência de um tribunal interior no homem, podendo o sentimento moral puro afetar-se a si mesmo internamente, dando lugar ao Gewissen de tipo psicológico, traduzido por convicção, certeza moral subjetiva de tipo pragmático.
  • 5. A herança da doutrina luterana do Gewissen reencontra-se, na filosofia idealista alemã, em duplo aspecto: a interiorização da liberdade dá lugar ao motivo kantiano laicizado da autonomia, entendida como consciência assumida da necessidade; e a associação entre gewiß (certo, certeza) e Gewissen, imediata no Reformador, é elevada ao conceito por Hegel, em sua Fenomenologia do espírito (VI, C, c), com a Gewißheit, que se declina em série de figuras, da certeza sensível à certeza de si do espírito, constituindo a gênese do Bewußtsein, que só surge como conceito com a primeira negação da Gewißheit como percepção, sendo o Gewissen figura local mas privilegiada, aquela em que o Bewußtsein se sabe a si mesmo como puro sujeito moral, tendo por objeto apenas a si mesmo.
  • 6. No pensamento fenomenológico, a dimensão moral inerente ao Gewissen, de Lutero a Hegel, desaparece para dar lugar à sua caracterização ontológica, designando Gewissen, em Heidegger, em Sein und Zeit (§ 54 e seguintes), a voz da consciência, característica originária do Dasein que se chama silenciosamente a si mesmo de mais longe do que ele próprio, não tendo tal apelo mais nenhuma relação com o Bewußtsein nem com a Gewißheit, correspondentes, segundo Heidegger, ao momento metafísico da subjetividade aberto por Descartes e cumprido por Hegel.
  • 7. Em La voix et le phénomène (1967), Derrida seguirá tal via de desconstrução do sujeito constituído por certeza apodítica ao enunciar que nenhuma consciência é possível sem a voz, reconduzindo a consciência a suas vibrações sensoriais, aqui auditivas, tendo já, precursoramente, no século XIX, e mais próximo de Merleau-Ponty do que de Heidegger, Maine de Biran, no lado francês, feito da consciência de si o fato primitivo do sentido íntimo, nada mais sendo este que a apercepção vivida do próprio corpo, delineando-se assim, bem cedo, a irredutibilidade não-dual do corpo e da alma que a fenomenologia se dará por tarefa pensar nos termos da consciência intencional ou da consciência corporal.

Pragmática do tornar-se-consciente

  • 1. Da consciência moral à consciência encarnada, passa-se de problemática prática formal a fenomenologia ou mesmo pragmática material, no centro da qual se situa o debate contemporâneo em torno da relação entre consciousness e awareness, alimentado pelo avanço da filosofia analítica anglo-saxônica, dando esse debate lugar a duas rupturas em relação à formação continental da consciência: a dissociação entre consciência e reflexividade, antes indissociáveis; e a substituição do acento ontológico sobre o Sein de Bewußtsein, essencial de Hegel a Heidegger, por práxis do tornar-se-consciente (Bewußtwerden).
  • 2. Aware, segundo o Oxford English Dictionary, palavra inglesa antiga que significa estar desperto, estar em guarda, dar-se conta, sendo awareness registrado apenas a partir do século XIX, estando aqui em jogo o registro da atenção e de sua manutenção mais do que qualquer processo reflexivo, sendo awareness o único termo a escapar ao campo do saber como tal.
  • 3. Cudworth, em The True Intellectual System of the Universe (1678), considera que formas adormecidas ou obscuras de consciência, próprias do vivente, precedem a humanidade, sendo suas formas espirituais ou lúcidas ultrapassadas por ela; Leibniz seguirá direção semelhante, sustentando que o espírito não pode conhecer-se por sua própria reflexão, optando pela presença a si contra o saber de si, retraduzindo o neologismo lockiano por consciosidade e usando o termo apercepção para descrever a claridade não distinta de uma percepção; Condillac, por sua vez, introduz a noção de atenção, consciência qualitativa diferencial que corresponde bem à qualidade atencional da awareness, correspondendo esta a consciência de base, mínima, gradual e aberta, presença a si não inconsciente, distinguindo-se da consciência mais mediata, reflexiva, que se sabe a si mesma, a consciousness.
  • 4. Ao traduzir awareness por Bewußtheit e consciousness por Bewußtsein, H. E. Ellenberger sublinha o alcance não apenas arreflexivo mas pouco ontológico de awareness, exigindo esta, como já afirmava Marx criticamente ao dizer que a consciência jamais pode ser outra coisa senão o ser consciente, mais do que uma ontologia estática: uma práxis da tomada de consciência, desenhando a abertura pragmática contemporânea, em proximidade com as filosofias anteriores da ação (Aristóteles, Marx, Ricœur), os contornos de um tornar-se-consciente (becoming aware/Bewußtwerden) que, segundo N. Depraz, F. Varela e P. Vermersch (2000-2001), pode ser objeto de aprendizagem à medida que se educa.

O inconsciente, o outro da consciência?

  • 1. Designando awareness consciência mínima em contato com sua própria proveniência, inclui-se em sua definição a lógica elementar de sua emergência a partir do que não é ela mas a constitui, a saber, o inconsciente lato sensu, sinalizando a dupla negação que caracteriza awareness, o não-in-consciente, relação notável com aquilo que a constitui originariamente, daí a insistência legítima sobre a dinâmica do tornar-se-consciente como traço essencial da awareness.
  • 2. Para captar o estatuto dessa consciência genética, precisa-se sua proveniência: o inconsciente, que só é o oposto da consciência ao definir-se esta em termos reflexivos ou ontológicos, tornando-se, assim que se a pensa como gênese, o terreno originário de seu enraizamento, seu outro íntimo, não seu inimigo.
  • 3. Forjada no início do século XIX pelos românticos, a palavra inconsciente (das Unbewußte) encontra sua consagração teórica com a invenção da psicanálise por Freud no início do século XX, podendo a noção parecer ter encontrado sua unidade, não fosse por outras disciplinas terem feito surgir facetas diferentes dessa experiência originária de opacidade, cedendo lugar ao inconsciente psíquico privilegiado por Freud o inconsciente corporal colocado no centro pela fenomenologia, principalmente por Merleau-Ponty, não sendo este caracterizado como núcleo irredutível de obscuridade inerente ao psiquismo do indivíduo, mas como existência de capacidades corporais de ação nele sedimentadas, formando zona pré-consciente de hábitos suscetíveis de advir à consciência.
  • 4. Essas duas formas de inconsciente, psíquico e corporal, pertencem ao registro do vivido, da experiência imanente do indivíduo, relevando de abordagem em primeira pessoa, distinguindo-se de terceira dimensão de inconsciente, colocada em primeiro plano pelas ciências cognitivas, a zona do subpessoal, o inconsciente neuronal, por princípio inacessível à experiência em primeira pessoa de um dado sujeito, correspondendo aos mecanismos de sincronização e antissincronia das dinâmicas neuronais.
    • Malgrado sua oposição quanto à abordagem privilegiada (primeira pessoa vs. terceira pessoa), o inconsciente psíquico freudiano e o inconsciente neuronal subpessoal partilham a ideia de impossibilidade de acesso a essa zona cega situada além dos limites do experienciável, escapando psiquismo e cérebro à nossa apreensão e tornando-nos, enquanto sujeitos conscientes, frágeis e desprovidos, confrontados a forças incontroláveis.
  • 5. Ante essa constatação de inconsciente todo-poderoso que reduz o indivíduo consciente a assumir sua passividade, outras disciplinas e certas correntes contemporâneas buscaram restaurar linhas de continuidade entre a consciência e essa zona de sombra que a constitui originariamente, traçando, em quatro direções complementares, a fenomenologia genética husserliana, as neurociências afetivas, certas práticas terapêuticas contemporâneas e certo número de tradições espirituais revisitadas, os contornos de quadro renovado em que a consciência é retomada desde seu embasamento e sua dinâmica pré-noética.
    • A démarche fenomenológica genética, hoje em evidente renovação, interroga a consciência a partir da lógica de sua gênese hilética, afetiva e habitual; as neurociências atuais tendem a incluir o estudo das emoções e afetos no próprio paradigma cognitivo, até vê-los como componente originária da consciência neuronal; as práticas terapêuticas presentes, diversificando-se, são levadas a revisitar o inconsciente freudiano abrindo mais espaço à possibilidade de um tornar-se-consciente das zonas mais opacas de nosso psiquismo; e as diversas formas de vida espiritual, exercidas em sua prática cotidiana, revelam-se fermentos decisivos de despertar da consciência, evidenciando-se que o inconsciente, mesmo não unificável, forma componente essencial de nossa consciência.
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