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estudos:zarader:onde-a-filosofia-se-fecha-2001

ONDE A FILOSOFIA SE FECHA... (2001:16-18)

ZARADER, Marlène. L’être et le neutre: à partir de Maurice Blanchot. Lagrasse: Éd. Verdier, 2001..

(…) Num sentido, uma vez que a filosofia se define por sua relação com a exterioridade, a experiência do encontro — com o que surpreende o pensamento — é a sua possibilidade inaugural. Noutro sentido, é claro que a filosofia só aceita esta experiência na condição de ter sido primeiro metamorfoseada, de ter sido despojada do seu fardo de alteridade absoluta para o incluir, de um modo ou de outro, num processo de significação — sendo esta metamorfose precisamente chamada “filosofia”. Nesta medida, o acontecimento específico da síncope, da suspensão (que se define apenas pela sua heterogeneidade), parece incapaz de se inscrever no campo filosófico: antes se apresenta como aquilo que o anula.


  • Em um sentido, a filosofia define-se por sua relação com a exterioridade e encontra na experiência do encontro com o que surpreende o pensamento sua possibilidade inaugural, mas em outro sentido só acolhe tal experiência ao metamorfoseá-la previamente, retirando-lhe a alteridade absoluta para integrá-la em um processo de sentido denominado filosofia, razão pela qual o evento específico da síncope ou da suspensão, marcado por heterogeneidade, tende a não poder inscrever-se no campo filosófico, apresentando-se antes como aquilo que o anula.
    • A filosofia nasce do encontro com a exterioridade.
    • A experiência é transformada em processo de sentido.
    • A alteridade absoluta é atenuada.
    • A síncope caracteriza-se por heterogeneidade.
    • O evento extremo surge como ameaça de anulação.
  • Ainda que se ampliem os limites da racionalidade ou se redefina o pensamento para além dela, a filosofia permanece vinculada às palavras, ao mundo e ao sentido, de modo que a falha, a suspensão e o excesso — especialmente o excesso de sofrimento evocado por Louis-René des Forêts como silêncio de bête assommée — assinalam um limite ou um dehors que não pode ser tematizado sem que se reconstrua uma trama de sentido, configurando o paradoxo de elaborar filosoficamente uma questão que só se abre onde a filosofia se encerra.
    • A filosofia permanece ligada ao mundo e ao sentido.
    • O silêncio extremo indica limite.
    • O dehors surge como ponto cego.
    • A reconstrução de sentido neutraliza a alteridade.
    • O paradoxo consiste em pensar onde o pensamento se fecha.
  • Enfrentar esse paradoxo revela-se necessário porque ele exprime a situação da filosofia atual, que já não busca apenas apreender a presença, mas acolher o que se esquiva, aproximar-se do abismo e responder ao que lhe escapa, manifestando-se como fascinada por uma transgressão que não pode cumprir nem abandonar, nomeada como nada em Heidegger, diferença em Derrida, evento em Deleuze, dehors em Foucault, alteridade em Lévinas, e reconhecida por Jean-Luc Nancy como traço da tradição moderna.
    • A filosofia desloca-se da presença ao esquivo.
    • O abismo torna-se horizonte de pensamento.
    • A transgressão é impossível e irrenunciável.
    • Heidegger nomeia o nada.
    • Derrida fala em diferença.
    • Deleuze pensa o evento.
    • Foucault tematiza o dehors.
    • Lévinas invoca a alteridade.
    • Jean-Luc Nancy designa tradição moderna.
  • Se a questão que se abre no limite ou no dehors da filosofia situa-se também em seu coração contemporâneo, é porque a filosofia de hoje tem por centro sua própria fronteira, sendo interpelada pelo evento que a ameaça e a desafia, o que exige investigar a matriz comum e a figura ontológica compartilhada por problemáticas diversas, bem como sua necessidade e validade.
    • O limite torna-se centro.
    • O filósofo ocupa-se do que resiste.
    • O evento interessa à filosofia como tal.
    • O topos é simultaneamente comum e partilhado.
    • A tarefa é explicitar a matriz ontológica comum.
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