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estudos:vezin:tomas-de-aquino

Tomás de Aquino (1227-1274)

LDMH

  • A importância da filosofia medieval e a reavaliação heideggeriana: Ao contrário do desprezo cartesiano e da ignorância da cultura francesa moderna (exemplificada por Sartre), Heidegger reconhece a grandeza e a seriedade da filosofia medieval, vendo nela um “conservatório do ser”. Sua familiaridade com a escolástica, adquirida em seus estudos iniciais de teologia, é profunda e constante—são Tomás é citado já no primeiro parágrafo de Ser e Tempo. No entanto, seu engajamento com são Tomás é crítico e problemático, determinado por um fator decisivo: o encontro precoce e direto com o grego de Aristóteles, através do livro de Brentano oferecido pelo padre Gröber. Este acesso imediato ao texto aristotélico permitiu a Heidegger medir o “abismo perturbador” que separa o pensamento grego originário de sua interpretação latina e cristã na escolástica tomista.
  • O litígio fundamental: a latinização do grego: Para Heidegger, são Tomás—e com ele toda a ontologia medieval—“refere-se doxograficamente a Aristóteles e dogmaticamente à Bíblia”. A questão não é que os medievais tenham “mal compreendido” Aristóteles, mas que o compreenderam “de modo diferente, conforme o modo como o ser se dispensava a eles”. A latinização dos conceitos gregos (ousia como substantia, alètheia como veritas, logos como ratio) representa uma transformação decisiva que obscurece a experiência originária do ser. A tarefa da desobstrução (Destruktion) será, portanto, reabrir o acesso a esta experiência, “desonerando a filosofia de seu elemento cristão, por um cuidado do Grec, não por ele mesmo, mas enquanto origem da filosofia”.
  • O diálogo crítico e o curso sobre as Questões Disputadas sobre a Verdade: Longe de simplesmente rejeitar são Tomás, Heidegger engaja-se num diálogo rigoroso com ele, como atesta o curso de Marburgo de 1926-27, dedicado precisamente às Questões Disputadas de Veritate. Este trabalho mostra como Heidegger confronta a noção tomista de verdade (adaequatio intellectus et rei) com a concepção grega de alètheia como desvelamento. O interesse pelas Questões Disputadas—que o padre Chenu considerava a obra maior de são Tomás, acima da Suma Teológica—revela que Heidegger valoriza o momento interrogativo e dialético do pensamento tomista, mais do que sua sistematização dogmática.
  • O “última palavra”: a supressão da questão do ser: A crítica heideggeriana culmina na constatação de que a ontologia cristã medieval, ao identificar o “ente supremo” (Summum Ens) com o “próprio ser” (Ipsum esse), “suprime ipso facto toda possibilidade de questão do ser”. Para são Tomás, Deus é o Actus Purus, o ser subsistente por si, cuja essência é existir. Esta identificação, ao tornar o ser um atributo de um ente supremo (ainda que transcendente), fecha o caminho para interrogar o sentido do ser como tal, independentemente de qualquer ente, divino ou mundano. A questão do ser, que para Heidegger é a questão fundamental, é assim obliterada por uma resposta teológica que a antecipa e a neutraliza. Este é o limite intransponível que separa a empreitada heideggeriana da tradição tomista.
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