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Kant, Emmanuel (1724-1804)
- A predileção heideggeriana por Kant como pensador “sempre excitante” (immer erregend), em contraste com a sistematicidade repetitiva de Hegel, assenta num engajamento profundo e duradouro com sua obra, vista como uma das mais originais da filosofia. Este interesse, nutrido desde a juventude e conformado pelo contexto acadêmico do início do século XX (onde o Kantbuch era um rito de passagem), culmina na publicação de Kant e o Problema da Metafísica (1929), obra que deslocou radicalmente a interpretação vigente ao centrar a Crítica da Razão Pura não numa teoria do conhecimento científico, mas no problema da metafísica mesma. Contra o neokantismo e o cientificismo da época, que viam a metafísica como superada, Heidegger afirmou vigorosamente que a empresa crítica de Kant visava justamente a sua “Grande Instauração”, ou seja, a reabilitação da razão através de uma delimitação de seus limites legítimos, salvando-a de seu próprio descrédito.
- A interpretação fenomenológica e a imaginação transcendental: A leitura heideggeriana, preparada pelo curso de 1927-28 e pelo projeto da segunda parte de Ser e Tempo, é decididamente fenomenológica. Ela vê na Crítica uma ontologia fenomenológica em germe, onde espaço e tempo são fenômenos no sentido próprio. O núcleo desta interpretação reside na análise comparativa das edições de 1781 e 1787, na qual Heidegger acusa Kant de “recuar diante da doutrina da imaginação transcendental”. Para Heidegger, a primeira edição, ao conceder um papel fundante à imaginação como raiz comum da sensibilidade e do entendimento, apontava para uma compreensão mais originária da subjetividade finita—uma compreensão que a segunda edição teria atenuado ao realinhar a obra com esquemas ontológicos tradicionais. Esta ênfase na finitude e na temporalidade do sujeito cognoscente conecta diretamente o projeto kantiano à analítica do Dasein.
- Confrontação com o idealismo alemão e a ideia de superação: Heidegger distingue nitidamente sua “apropriação produtiva” de Kant da maneira como Fichte, Schelling e Hegel pretenderam “superá-lo”. Para ele, o idealismo alemão não conquistou a posição fundamental de Kant, mas apenas a contornou, deixando sua fortaleza intocada nas retaguardas. A superação (Überwindung) que Heidegger vislumbra—ainda em forma embrionária em 1929—não é uma anulação, mas um retorno ao solo (Boden) não explorado da finitude, que permitiria refazer a questão do ser a partir da temporalidade. Kant permanece, assim, uma “ressource” ontológica permanente, um interlocutor cujo pensamento resiste a qualquer assimilação definitiva e continua a interpelar a filosofia.
- A presença constante de Kant no percurso heideggeriano: A admiração de Heidegger por Kant não se limita ao livro de 1929. A “fraqueza” que confessou sentir diante da Crítica da Faculdade de Julgar atesta o respeito por uma dificuldade que não se deixa domesticar. Como observou G. Granel, Heidegger, ao se separar de Husserl, “levou Kant consigo”. Isto significa que a problemática da finitude, da temporalidade e da possibilidade da metafísica, tal como Kant as elaborou, permaneceu um horizonte constante, mesmo quando o pensamento heideggeriano tomou rumos cada vez mais distantes da filosofia transcendental. Kant é, portanto, menos um “precursor” a ser superado do que um companheiro de pensamento cuja excitação (Erregung) reside precisamente naquilo que, em sua obra, permanece não resolvido e, por isso, permanentemente provocante.
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