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estudos:rorty:2009-wittgenstein-heidegger-dewey

Wittgenstein, Heidegger, Dewey

(RR2009)

  • A filosofia costuma se conceber como disciplina que trata de problemas eternos, entre eles a relação mente-corpo e a legitimação do conhecimento, arrogando-se a função de fundamentar ou refutar as pretensões de saber da ciência, da moral, da arte e da religião por meio de uma teoria geral da representação
  • A noção de teoria do conhecimento fundada em processos mentais remonta a Locke, a ideia de mente como entidade separada remonta a Descartes, a concepção da filosofia como tribunal da razão pura remonta a Kant, e essa concepção foi consolidada pelos neokantianos no século XIX, apesar dos protestos isolados de Nietzsche e William James, tornando-se substituta da religião para os intelectuais
  • No início do século XX, Russell e Husserl reafirmaram essa pretensão de rigor científico da filosofia, mas já em tom de desespero, num momento em que o secular triunfava sobre a religião e em que poetas e romancistas passavam a ocupar o lugar de pregadores e filósofos como educadores morais, tornando cada vez mais absurdas as pretensões fundacionistas da filosofia analítica e da fenomenologia
  • Wittgenstein, Heidegger e Dewey tentaram inicialmente refundar a filosofia de modos distintos, mas cada um veio a considerar esse esforço inicial autoenganoso, voltando-se em obras posteriores para uma filosofia terapêutica e edificante, e não mais sistemática ou fundacionista
  • Os três pensadores convergem em abandonar a noção de conhecimento como representação acurada e de mente como objeto de estudo interior, não por meio de refutação direta das doutrinas anteriores, mas ao vislumbrar a possibilidade de uma cultura pós-kantiana sem disciplina totalizadora, introduzindo assim novos mapas revolucionários do panorama das atividades humanas
  • Este livro examina a filosofia analítica recente a partir dessa revolução anticartesiana e antikantiana, com o objetivo de solapar a confiança do leitor nas noções de mente, conhecimento e filosofia herdadas de Kant, oferecendo uma terapia apoiada nas contribuições de Sellars, Quine, Davidson, Ryle, Malcolm, Kuhn e Putnam
  • A dialética interna à filosofia analítica, que conduziu da filosofia da mente de Broad a Smart, da filosofia da linguagem de Frege a Davidson, da epistemologia de Russell a Sellars e da filosofia da ciência de Carnap a Kuhn, precisa ser levada adiante para questionar a própria noção de filosofia analítica e de filosofia tal como concebida desde Kant
  • A distinção entre filosofia analítica e outras correntes é secundária, sendo a ênfase na linguagem, herdada de Russell e Frege, apenas mais uma variante do projeto kantiano de fundamentação, já que a filosofia analítica permanece comprometida com a construção de um arcabouço permanente e neutro para toda a cultura
  • A ideia de um arcabouço a priori da investigação, que vincula a filosofia contemporânea à tradição cartesiano-lockeana-kantiana, é rejeitada tanto pela concepção deweyana de conhecimento como justificação social quanto pela noção wittgensteiniana de linguagem como ferramenta e pela concepção heideggeriana que recusa tornar o sujeito cognoscente fonte de verdades necessárias
  • A filosofia tradicional constitui uma tentativa de escapar da história, e o historicismo comum a Wittgenstein, Dewey e Heidegger revela essas investigações fundacionistas como apologéticas voltadas a eternizar práticas contemporâneas, sendo esse o eixo que organiza as três partes do livro, dedicadas respectivamente à mente, ao conhecimento e à filosofia
  • A segunda parte trata da epistemologia e de seus supostos sucessores, situando historicamente a noção de epistemologia em Descartes e nela identificando uma confusão entre justificação e explicação causal do conhecimento, com destaque para os ataques de Sellars ao dado e de Quine à necessidade, que permitem conceber a verdade, na fórmula de James, como aquilo que é melhor para nós acreditar, ao invés de conceber a psicologia empírica ou a filosofia da linguagem como disciplinas sucessoras da epistemologia
  • A terceira parte aborda a filosofia propriamente dita, reinterpretando a distinção entre conhecimento objetivo e demais atividades humanas como a distinção entre discurso normal e discurso anormal, generalizada a partir da noção kuhniana de ciência normal, e recorrendo a Gadamer e Sartre para contrastar filosofia sistemática e filosofia edificante, apresentando Wittgenstein, Heidegger e Dewey como pensadores voltados a libertar seus leitores de vocabulários ultrapassados
  • O título Philosophy and the Mirror of Nature remete à imagem da mente como espelho que sustenta a noção de conhecimento como representação acurada, imagem desconstruída por Wittgenstein e historicizada por Heidegger desde os gregos, ainda que ambos permaneçam voltados ao indivíduo isolado, enquanto Dewey escreveu suas críticas a essa imagem especular a partir de uma visão de sociedade voltada ao florescimento estético em vez da cognição objetiva, o que torna infundadas as acusações de relativismo e irracionalismo outrora dirigidas a ele
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