estudos:romano:subjetividade

Reformulação da subjetividade em Claude Romano: o advenant

FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.

  • Romano reformula a subjetividade à luz de sua teoria do evento, propondo o termo advenant (do verbo francês advenir, “advir”) como nova concepção do ser humano capaz de experimentar eventos, em contraste com as noções tradicionais de sujeito na fenomenologia, que reduzem a experiência a meros fatos e obscurecem a fenomenalidade singular dos eventos.
  • Definição fundamental do advenant: “um ser humano constitutivamente aberto a eventos, na medida em que o humano é a capacidade de ser si mesmo diante do que nos acontece” (ROMANO, Event and World, p. 20), onde a experiência do evento é inseparável da ipseidade (selfhood) e do mundo, transformando ambos através de um processo hermenêutico que Romano denomina “hermenêutica eventual”.
  • Relação etimológica entre advenant e événement (evento): ambos compartilham a raiz no verbo venir (“vir”), com o prefixo ad- indicando direção (“em direção a”) e é- sugerindo origem (“a partir de”), o que sublinha a centralidade do evento como origem da subjetividade, em oposição à noção tradicional de sujeito como substância ou hypokeimenon (o que está “debaixo” ou “por trás” do que acontece).
  • Crítica à concepção tradicional de sujeito: Romano argumenta que o sujeito, entendido como hypokeimenon (termos aristotélicos retrabalhados por Boécio e Descartes), é um obstáculo para a compreensão dos eventos em seu sentido eventual, pois pressupõe uma entidade substancial imutável que reduz eventos a meros acidentes ou atributos, impedindo qualquer transformação radical da ipseidade pelo evento.
  • O advenant como processo de “subjetivação”: não é uma entidade fixa, mas um “processo contínuo de vir-a-ser” (coming-to-be) através dos eventos, onde a ipseidade é constituída a posteriori pela exposição aos eventos, especialmente pelo evento primordial do nascimento, que inaugura a “aventura humana” e reconfigura as possibilidades existenciais.
  • Distinção entre advenant e Dasein heideggeriano: embora Romano parta da crítica heideggeriana ao sujeito moderno, ele rejeita a centralidade do Dasein como condição de possibilidade do mundo, argumentando que o Dasein permanece preso a uma forma de transcendentalismo que oculta a fenomenalidade dos eventos, reduzindo-os a fatos inautênticos ou à mera “eventualidade do ser” (o único evento autêntico para o Dasein é a morte).
  • Crítica ao transcendentalismo em Ser e Tempo: Romano identifica uma “bifurcação do mundo” em Heidegger, onde o mundo ontológico (desvelado pelo Dasein) é distinto do mundo fático (objeto do ceticismo), o que reproduz, em nível existencial, a separação cartesiana entre res cogitans e res extensa, apesar da pretensão heideggeriana de superá-la através da noção de ser-no-mundo.
  • O advenant como alternativa não-transcendental: propõe uma “hermenêutica dos eventos” que precede qualquer análise existencial do Dasein, pois o evento — especialmente o nascimento — é a condição a posteriori de toda subjetividade, invertendo a hierarquia tradicional entre sujeito e mundo e eliminando a necessidade de um a priori transcendental.
  • Relação com a antropologia fenomenológica de Blumenberg: Romano alinha-se à proposta de substituir a pergunta “O que é o homem?” por “Como o homem é possível?”, focando na existência e transformação através da experiência, em vez de uma definição ousiológica (substancial) da humanidade, o que converge com a noção de advenant como ser finito e temporal, constituído pelos eventos que o afetam.

O evento do nascimento como proto-evento da hermenêutica eventual

  • Centralidade do nascimento na filosofia de Romano: evento paradigmático que inaugura a “aventura humana” e reconfigura o mundo do advenant, sendo mais originário que a morte (tradicionalmente privilegiada pela fenomenologia existencial, como em Heidegger), pois é o primeiro evento que “abre um mundo para o advenant pela primeira vez e, sozinho, dá origem a todos os eventos que o seguem” (ROMANO, Event and World, p. 70).
  • Crítica à omissão do nascimento na história da filosofia: enquanto a morte foi amplamente discutida (ex.: Heidegger, existencialistas), o nascimento foi negligenciado, mesmo por pensadores que abordam a finitude, como Arendt (exceção com sua noção de natalidade em The Human Condition). Romano argumenta que essa omissão limita nossa compreensão do ser humano, pois o nascimento é o evento que funda a ipseidade como “original não-originalidade”: um a priori que só se revela a posteriori, através de um “hiato” ou “diferimento” constitutivo.
  • Nascimento como evento impessoal e não-apropriável: não pode ser reduzido à Geworfenheit (lançado) heideggeriana, pois, enquanto esta pode ser “assumida” (übernehmen) pelo Dasein como possibilidade fática, o nascimento é um evento que “radicalmente excede qualquer poder de apropriação” (ROMANO, Event and World, p. 75), precedendo toda subjetividade e sendo “mais antigo que qualquer passado que possa ser assumido”.
  • Estrutura temporal do nascimento: introduz um “atraso originário” (original delay) que determina a temporalidade de todos os eventos subsequentes, pois o advenant só pode compreender a si mesmo de maneira retardatária, a partir de possibilidades que lhe são conferidas pelos eventos, nunca como origem de si mesmo. Esse atraso é “transcendental” (não empírico), pois funda a ipseidade como capacidade de responder aos eventos.
  • Comparação com Heidegger: enquanto em Ser e Tempo o nascimento é mencionado apenas como limite temporal do Dasein (entre nascimento e morte, §72), Romano o eleva a evento fundador que condiciona o ser-no-mundo, invertendo a prioridade heideggeriana da morte. O nascimento não é uma “possibilidade herdada” que o Dasein pode assumir, mas o que torna possível toda herança e projeção.
  • Implicações para a ipseidade: o advenant “não é si mesmo no momento em que o evento [nascimento] acontece” (ROMANO, Event and World, p. 76), pois sua ipseidade só advém através do “movimento retardado de sua temporalização”, onde o evento funda as possibilidades, mas nunca coincide com uma origem substancial. A ipseidade é, assim, uma “capacidade de se relacionar em pessoa com os eventos para vivenciá-los em uma experiência não-substituível” (unsubstituted-ex-per-ience).

Advenant vs. Dasein: três ocultamentos do sujeito e a superação do transcendentalismo

  • Crítica aos três ocultamentos operados pelo sujeito tradicional (cartesiano/transcendental):
    • 1. Ocultamento dos eventos: o sujeito como hypokeimenon reduz eventos a acidentes de uma substância imutável, impedindo que eles se mostrem em sua fenomenalidade própria. Romano segue Heidegger ao rejeitar o fundamentum inconcussum (fundamento inabalável) do sujeito, mas radicaliza a crítica: enquanto Heidegger denuncia a incapacidade do sujeito de revelar o conteúdo fenomenal do Dasein, Romano argumenta que o sujeito oculta os eventos ao reduzi-los a fatos objetivos.
    • 2. Ocultamento do mundo: o sujeito, como substrato imutável das vivências, é “a-cósmico” (não está no mundo), o que reproduz a crítica heideggeriana ao cogito cartesiano como res cogitans “sem mundo”. Para Romano, isso leva a uma “concepção eventual do mundo” como horizonte de possibilidades abertas pelos eventos, em contraste com a redução heideggeriana do mundo à estrutura ontológica do Dasein.
    • 3. Ocultamento da compreensão: o sujeito prioriza o conhecimento teórico (face-a-face com objetos) sobre a compreensão hermenêutica, que, em Heidegger, é a estrutura existencial do Dasein. Romano retoma essa crítica, mas desvincula a compreensão da projeção existencial do Dasein, argumentando que ela advém dos eventos, não da autoprojeção do sujeito.
  • Afinidades e divergências entre advenant e Dasein:
    • Afinidades: ambos rejeitam o sujeito substancial e enfatizam a abertura ao mundo e a primazia da compreensão. Romano reconhece que Heidegger inicia uma “revolução” ao definir a ipseidade (Selbstheit) como “modo de ser” (não substância), mas critica sua limitação existencial, que subordina a ipseidade à autenticidade/inautenticidade e à morte como único evento autêntico.
    • Divergências:
      • 1. Abertura ao mundo: para o Dasein, o mundo é um a priori ontológico (condição de possibilidade do ser); para o advenant, o mundo é constituído a posteriori pelos eventos, especialmente pelo nascimento, que “condiciona o ser-no-mundo” (ROMANO, Event and World, p. 71).
      • 2. Compreensão: em Heidegger, a compreensão advém da projeção do Dasein sobre suas possibilidades (horizonte da morte); em Romano, ela é conferida pelos eventos, que “alocam possibilidades interpretativas das quais [o advenant] não é a origem” (p. 138), invertendo a relação entre projeção e doação.
      • 3. Ipsidade (selfhood): enquanto a Selbstheit do Dasein é determinada pela constância-de-si (Selbstständigkeit), que depende da resolução (Entschlossenheit) antecipatória da morte, a ipseidade do advenant é uma “capacidade de se transformar a si mesmo através dos eventos”, onde a singularidade é constituída pela exposição ao que acontece, não pela autodeterminação existencial.
  • Crítica ao transcendentalismo em Ser e Tempo: Romano argumenta que Heidegger, apesar de rejeitar o cogito cartesiano, mantém uma forma de transcendentalismo ao tornar o Dasein a condição de possibilidade do mundo (o mundo só “é” se e enquanto um Dasein existe). Isso reproduz, em nível existencial, a bifurcação entre mundo transcendental (constituído) e mundo empírico (natural), típica da redução husserliana, embora Heidegger negue explicitamente o ceticismo sobre o mundo externo.
  • O advenant como superação do transcendentalismo: Romano propõe uma “hermenêutica dos eventos” que precede qualquer análise do Dasein, pois os eventos (especialmente o nascimento) são a condição a posteriori da subjetividade, eliminando a necessidade de um a priori transcendental. O advenant não é uma “condição de possibilidade” do mundo, mas um ser cuja ipseidade é constituída pela exposição aos eventos, em um processo contínuo de “subjetivação” que não pressupõe nenhuma instância transcendental.

A ipseidade do advenant: singularidade, passibilidade e implicação

  • Definição de ipseidade (selfhood): capacidade de “ser si mesmo diante do que nos acontece”, distinta da egoidade (égoïté), que remete ao sujeito substancial (cartesiano/husserliano). Romano retoma a revolução heideggeriana ao definir a ipseidade como “modo de ser” (não substância), mas a desvincula da estrutura existencial do Dasein, argumentando que Heidegger a subordina à autenticidade/inautenticidade e à morte, limitando sua abertura aos eventos.
  • Três dimensões constitutivas da ipseidade do advenant:
    • 1. Singularidade: formada através da experiência dos eventos, que transformam a ipseidade ao longo da história do advenant. Ao contrário da Jemeinigkeit heideggeriana (minhaidade), que se funda na morte como possibilidade mais própria, a singularidade do advenant é constituída pela exposição a eventos que reconfiguram suas possibilidades, gerando “singularidades conflitantes” em diferentes momentos de sua história.
    • 2. Passibilidade (passibilité): abertura aos eventos como fonte de possibilidades, distinta da passividade (que pressupõe um sujeito) e da atividade (projeção subjetiva). A passibilidade não é uma estrutura a priori do advenant, mas advém do evento, especialmente do nascimento, que “abre o campo de jogo onde o evento pode ocorrer” (ROMANO, Event and World, p. 72). É uma “característica dos próprios eventos”, que atingem o advenant por iniciativa prévia, sem depender de sua recepção subjetiva.
    • 3. Implicação: o que o evento “faz” do advenant, ou seja, como ele é envolvido nas possibilidades abertas pelos eventos. Romano descreve: “só em virtude dessa implicação o advenant pode apropriar-se dos eventos e iluminar-se à sua luz […] compreender a si mesmo em sua singularidade a partir das possibilidades configuradas pelos eventos” (p. 93). A implicação é o mecanismo pelo qual o advenant responde aos eventos, transformando sua ipseidade.
  • Responsabilidade como estrutura fundamental: não no sentido ético ou jurídico, mas como “capacidade de responder ao que acontece” (p. 94), que funda a abertura aos eventos. A responsabilidade é possível porque o advenant é “exposto a mais do que é capaz” (p. 98), ou seja, os eventos o confrontam com possibilidades que excedem suas capacidades atuais, exigindo uma transformação. Exemplo negativo: o trauma, onde a ipseidade é alienada porque o evento não pode ser apropriado (fechamento das possibilidades).
  • Temporalidade da ipseidade: a compreensão de si mesmo é sempre retardatária (belated), pois o advenant só pode se entender a partir dos eventos que já o afetaram. O nascimento, como evento impessoal e não-apropriável, introduz um “atraso originário” que estrutura toda a temporalidade do advenant, fazendo com que sua ipseidade seja constituída a posteriori, através de uma “retrospecção necessária” (p. 76).

Temporalidade da aventura: memória, disponibilidade e transformação

  • Crítica à metafísica do tempo: Romano rejeita a tradição ocidental (de Aristóteles a Husserl) que reduz o tempo a um fenômeno intra-temporal (fluxo de “agoras”) ou o subjetiviza como mudança interna da consciência. Em vez disso, propõe uma “fenomenologia do tempo” centrada nos eventos, onde o tempo não é um objeto de experiência, mas a “maneira como os eventos acontecem para nós, dando origem a uma ex-per-iência” (p. 150).
  • Distinção entre tempo e temporalidade:
    • Tempo: não é experimentado diretamente, mas só através das modalidades da experiência de mudança. Os eventos não “acontecem no tempo”, mas “temporalizam o tempo”, ou seja, abrem dimensões temporais que não são redutíveis à sucessão linear (passado-presente-futuro).
    • Temporalidade: “modo de aparecimento do tempo” (p. 208) para o advenant, que se relaciona com os eventos através de três modalidades de resposta:
      • 1. Memória: não como faculdade de reter o passado, mas como “preservação da possibilidade” (p. 161), aberta pelo evento. A memória evential não coleciona fatos passados, mas mantém viva a possibilidade futura que o evento inaugura. Exemplo: o nascimento não é lembrado como fato, mas como origem de possibilidades que ainda se desdobram.
      • 2. Disponibilidade (availability): abertura ao futuro anterior (futur antérieur) do evento, que só se revela como evento após seu acontecer. O advenant “mantém-se aberto ao futuro e vai ao seu encontro” (p. 181), não por projeção subjetiva, mas pela exposição às possibilidades conferidas pelos eventos.
      • 3. Transformação: mudança na compreensão de si mesmo no presente, a partir da reconfiguração das possibilidades pelo evento. Não é uma mudança causal, mas hermenêutica: “uma transformação do todo e de seu significado” (p. 186), onde o advenant se compreende diferentemente a partir do mundo reconfigurado pelo evento.
  • Relação entre evento e temporalidade: o evento não tem fluxo temporal (não vai do “por vir” ao “passado”), mas “é intrinsecamente tempo” (p. 208). Sua temporalização não depende do advenant, mas o afeta através das modalidades de resposta (memória, disponibilidade, transformação), que são “dois aspectos de uma única dramática” (p. 153): o polo eventual (o evento) e o polo experiencial (a resposta do advenant).
  • Crítica ao transcendentalismo: a temporalidade não é constituída por um sujeito (como em Husserl), nem desvelada pelo Dasein (como em Heidegger), mas advém dos eventos, que “abrem o tempo como tal” (p. 54). O advenant não é a origem da temporalização, mas aquele que responde aos eventos, o que elimina qualquer a priori transcendental e substitui a “correlação” sujeito-mundo por uma “co-pertencença” (Zusammengehörigkeit) onde ambos são constituídos pelos eventos.

Superação do transcendentalismo: holismo da experiência e realismo descritivo

  • Crítica à redução fenomenológica: Romano argumenta que o método da epoché husserliana (e sua versão heideggeriana na analítica existencial) pressupõe o problema cético do mundo externo, levando à bifurcação entre:
    • 1. Mundo transcendental (constituído pela consciência pura).
    • 2. Mundo empírico (objeto do ceticismo). Essa divisão é reproduzida em Ser e Tempo pela distinção entre o mundo ontológico (desvelado pelo Dasein) e o mundo fático, embora Heidegger negue o ceticismo. Romano propõe abandonar o problema cético e a inferência que o sustenta (de que a dúvida local sobre uma percepção justifica a dúvida geral sobre o mundo).
  • Holismo da experiência: alternativa ao modelo transcendental, onde:
    • A experiência não é composta por “blocos isolados” (percepções ou ilusões atomizadas), mas por uma “constituição holística” (p. 112), onde cada percepção pressupõe o mundo como totalidade coerente.
    • A propriedade de “ser percebido” pertence primeiramente ao mundo (como totalidade estruturalmente coesa), não às partes. Uma ilusão não é uma “percepção falsa”, mas uma experiência que falha em se integrar à totalidade perceptiva (ex.: alucinação).
    • O mundo é o “meio de toda experiência” (p. 110), não um objeto constituído pela consciência. A relação entre advenant e mundo é de “co-pertencença” (Zusammengehörigkeit), onde ambos são dois lados de uma mesma realidade, sem primazia ontológica de um sobre o outro.
  • Realismo descritivo vs. realismo especulativo:
    • Realismo descritivo: consequência do holismo da experiência, não uma posição metafísica. O mundo existe independentemente do advenant, mas essa independência não é causal (como no realismo científico), e sim fenomenológica: o mundo é o “lugar familiar de nossas vidas” (p. 525), pré-científico e pré-teórico, onde agimos, sofremos e amamos.
    • Diferenças em relação ao realismo especulativo (Meillassoux, Harman):
      • 1. Não busca o “em-si” ou o absoluto, mas permanece no âmbito fenomenal, rejeitando qualquer “virada absolutista” na metafísica (p. 188).
      • 2. Rejeita a redução causal da relação advenant-mundo (crítica ao realismo científico, que reduz a realidade a sistemas de partículas físicas).
      • 3. Propõe um “realismo do mundo-da-vida” (Lebenswelt), onde a certeza do mundo é indissociável da existência da consciência, sem recorrer a dualismos (sujeito/objeto, fenômeno/coisa-em-si).
  • Crítica ao “correlacionismo” (Meillassoux): Romano argumenta que sua abordagem não é correlacionista (no sentido de Meillassoux) porque:
    • Não reduz o mundo à correlação sujeito-objeto, mas o compreende como totalidade aberta, onde o advenant é um ser encarnado e finito, não um polo constituinte.
    • O mundo não é “constituído” pelo advenant (como no idealismo transcendental), nem “desvelado” por ele (como em Heidegger), mas é a condição prévia de toda experiência, inclusive da subjetividade.

Conclusão: o advenant como superação não-transcendental do sujeito

  • Síntese da proposta de Romano:
    • O advenant é uma reformulação da subjetividade centrada nos eventos, especialmente no nascimento como proto-evento que funda a ipseidade como capacidade de responder ao que acontece.
    • Supera o Dasein heideggeriano ao eliminar qualquer a priori transcendental, propondo que a ipseidade e o mundo são constituídos a posteriori pelos eventos, em um processo contínuo de “subjetivação” que não pressupõe nenhuma instância fundante.
    • Oferece uma alternativa ao realismo especulativo ao propor um “realismo descritivo” baseado no holismo da experiência, onde o mundo é a totalidade pré-reflexiva da vida cotidiana, não um objeto de constituição transcendental ou de acesso causal.
  • Comparação com o adonné de Marion:
    • Semelhanças: ambos buscam superar o sujeito moderno através de uma “subjetivação” pelo evento. O adonné e o advenant recebem a si mesmos através do que lhes acontece, invertendo a primazia do sujeito.
    • Diferenças:
      • 1. Fenomenalidade: Marion parte da “doação” (donation) como horizonte universal dos fenômenos, enquanto Romano rejeita qualquer “sintaxe fenomenológica” (ser/doação) para focar na singularidade dos eventos, especialmente em sua dimensão temporal e hermenêutica.
      • 2. Centralidade da hermenêutica: o advenant é essencialmente um “sujeito hermenêutico”, cuja ipseidade é constituída pela interpretação dos eventos, enquanto o adonné prioriza a recepção da doação, com a hermenêutica em papel secundário.
      • 3. Posição do *advenant*: ao contrário do adonné, que Marion coloca “no centro” (embora não como sujeito tradicional), o advenant não ocupa posição privilegiada. Ele é sempre “posterior” aos eventos, que são a condição de sua ipseidade e do mundo, eliminando qualquer centralidade da subjetividade.
  • Contribuição para a fenomenologia:
    • Romano radicaliza a crítica heideggeriana ao sujeito ao propor uma “fenomenologia dos eventos” que prescinde de qualquer transcendentalismo, inclusive da analítica existencial do Dasein.
    • O advenant realiza o projeto de uma “antropologia fenomenológica” (Blumenberg) ao focar na pergunta “Como o humano é possível?”, em vez de “O que é o humano?”, deslocando a atenção da substância para a existência transformada pelos eventos.
    • Supera a dicotomia realismo/idealismo ao propor um “realismo do mundo-da-vida” que dissolve a bifurcação entre mundo transcendental e mundo empírico, sem recorrer a um fundamento absoluto (como no realismo especulativo) ou a uma constituição subjetiva (como no idealismo transcendental).
estudos/romano/subjetividade.txt · Last modified: by mccastro