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Renovar a Fenomenologia
CRRE
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Interrogação sobre o futuro da fenomenologia em época marcada simultaneamente por pulsão escópica onipresente e cegueira estrutural, em que proliferam telas, filtros, pop-ups, interfaces, configurando contexto de olhos que não veem; questão se método fundado no aprendizado do olhar e na descrição fina preserva ainda viabilidade ou pertinência diante de tal cenário de pressão temporal e obnubilação perceptiva generalizada.
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Tensão entre retorno fenomenológico à experiência muda, aquém das palavras e da linguagem constituída, e textualismo contemporâneo elevado pela desconstrução à dignidade de filosofia primeira; oposição frontal entre cuidado fenomenológico com estrato pré-linguístico e comentarismo que domina filosofia contemporânea, instalando antagonismo metodológico fundamental.
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Contraste entre prática fenomenológica de distinções conceituais que jamais se fecham em sistema completo e, por um lado, enunciação de claims facilmente identificáveis e comunicáveis própria ao estilo analítico e, por outro, sistemas sedutores e totalizadores das metafísicas recentemente reabilitadas; especificidade da abertura sistemática fenomenológica diante de alternativas contemporâneas à filosofia primeira.
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Questão da obsolescência de postura filosófica que permanece junto ao que se mostra, tal como se mostra e enquanto se mostra, mantendo atenção incessante aos fenômenos enquanto coroamento das coisas e não mera espuma superficial; interrogação se fenomenologia esgotou possibilidades que encerrava ou se inevitavelmente degenera em atividade puramente museal, destino já consumado em numerosos setores da produção acadêmica.
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Programa de renovar fenomenologia suscetível de parecer alternativamente presunçoso, ingênuo ou vão: presunçoso porque desconheceria que fenomenologia, desde instauração husserliana, jamais cessou de renovar-se e metamorfosear-se; ingênuo porque, ignorando amplitude de transformações pelas quais filosofia passou — estruturalismo, desconstrução, filosofia gramatical, linguistic turn, filosofia do ordinário, metafísicas analíticas, ciências cognitivas — arriscaria empreendimento de restauração fundamentalmente reacionário; vão por conjugar todas essas razões simultaneamente.
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Posição de marcos ou pontos de referência — repères éblouissants sobre pulular do inconcebível, segundo metáfora de René Char — situados no cruzamento de diferentes tradições e influências, sem pretensão de limitar pesquisa ou promover retorno nostálgico a pureza de origem perdida; recusa de insulamento metodológico e certezas encerradas em si mesmas.
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Convicção de que fenomenologia realizável neste início de século XXI só pode ser fundamentalmente diferente daquela do século precedente; constatação de que, durante idade de ouro do movimento fenomenológico, mesmo rupturas mais decididas inscreviam-se ainda no interior de mesmo clima intelectual, sobre fundo de problemas partilhados, referências comuns, interpretação relativamente homogênea da história da filosofia; reconhecimento de que, hoje, fenomenologia figura no melhor dos casos como corrente filosófica entre outras, podendo existir como corrente autônoma somente sob condição de abertura a outras influências e, consequentemente, de revisão profunda de conceitos e métodos.
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Impossibilidade, para quem deseje empreender análise descritiva da experiência, de ignorar extraordinário desenvolvimento e fecundidade de segmentos inteiros da filosofia contemporânea da linguagem ou da cognição; prolongamento de caminho esboçado em Au cœur de la raison mediante confrontação metódica da fenomenologia com opções ou escolas concorrentes; renovação fenomenológica entendida simultaneamente como renovação e como reiteração de gesto ou recondução de engajamento, sem vocação de retorno a prática insular do método aprisionada em próprias certezas.
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Estruturação das investigações em torno de três eixos essenciais: primeiro, questão dos vínculos entre experiência e linguagem; segundo, possibilidade de realismo fenomenológico ou realismo do mundo da vida (Lebenswelt); terceiro, exame renovado de certo número de grandes temas fenomenológicos nessa perspectiva realista — alteridade (Autrui), corpo, emoções, hábito — não abordados por si mesmos em obra precedente; ocasião de teste dos princípios do método fenomenológico tal como redefinido em Au cœur de la raison.
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Centralidade da questão das relações entre linguagem e experiência para toda reflexão sobre sentido e devir da fenomenologia; amplitude e dificuldade formidável do problema, abordado aqui apenas sob ângulo particular; renovação profunda pela fenomenologia da maneira como problema pode formular-se, paralelamente à transformação do próprio conceito de experiência.
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Reenvio recíproco das duas grandes opções rivais na época de Husserl: concepção empirista de experiência reduzida a mosaico de ideias ou sense data, e concepção neokantiana de experiência integralmente estruturada por esquemas conceituais e formas simbólicas; reforma fenomenológica da abordagem da linguagem em si mesma mediante abertura de terceira via.
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Superação da oposição entre teorias designativas, que privilegiam dimensão denotativa da linguagem e fazem dela simples instrumento para comunicação de pensamentos já formados ou constituídos, e teorias expressivas de inspiração romântica, que fazem da língua médium necessário ao pensamento, mas estendem assim sua influência à totalidade da experiência até professar tese de incomensurabilidade das experiências entre si, em virtude de conformação por línguas particulares comparadas a tantas visões de mundo (Weltanschauungen).
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Terceira via aberta por Husserl e prolongada por primeiro Heidegger e Merleau-Ponty: sustentação simultânea da inegável criatividade da linguagem para pensamento — criatividade em virtude da qual linguagem não pode ser concebida como puro instrumento de comunicação de pensamentos preexistentes — e de sua dependência essencial relativamente a estrato pré-linguístico ou antepredicativo de nossa experiência do mundo, que constitui condição e recurso permanente da linguagem.
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Recusa simultânea da possibilidade de redução das significações linguísticas a sentido pré-linguístico que elas se limitariam a fazer passar no médium da expressão, e da possibilidade de subordinação completa da experiência à linguagem e ao pensamento simbólico em geral, que veria na experiência antepredicativa apenas implementação de esquemas conceituais e culturais particulares; demarcação fenomenológica tanto de concepção puramente denotativa da linguagem, nascida no interior do empirismo e que subordina inteiramente significação linguageira a realidade extralinguística, quanto de idealismo linguístico ao menos tendencial das teorias pós-kantianas e românticas da linguagem.
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Segundo polo organizador das reflexões subsequentes: fenomenalidade enquanto abertura à realidade mesma, constituindo em substância a questão do realismo; forte divisão da fenomenologia histórica entre representantes que admitiram virada transcendental de Husserl e seguiram seus passos — Eugen Fink, Ludwig Landgrebe e, em menor medida, primeiro Heidegger — professando superioridade do idealismo sobre realismo, e outros que adotaram posição diametralmente oposta, particularmente principais representantes do Círculo de Göttingen — Adolf Reinach, Edith Stein, Johannes Daubert, Theodor Conrad, Jean Hering — assim como Roman Ingarden.
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Razões diversas — peso intelectual da tradição cartesiana, importância do kantismo e do idealismo na filosofia francesa, marca deixada pelo espiritualismo francês — pelas quais recepção da fenomenologia na França amplamente desconheceu importância de toda corrente realista, continuando a identificar idealismo transcendental de Husserl com totalidade da fenomenologia, aceitando no máximo opor a esse idealismo apenas críticas oriundas da formulação heideggeriana da Seinsfrage; persistência dessa situação durante segunda florescência da fenomenologia na França a partir dos anos 1980, sob impulso de nova geração de pesquisadores tendo sucedido àquela de Sartre, Merleau-Ponty e Ricœur, depois à de Henry.
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Apesar de considerável esforço de tradução concernente sobretudo Husserl, Heidegger e Patočka, e em menor medida Fink, fenomenólogos realistas permaneceram grandes ausentes desse renovado interesse, situação que perdura ainda hoje, não obstante trabalhos de Kevin Mulligan ou Barry Smith.
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Proposta não de retorno às fenomenologias realistas dos anos 1910-1920 ou ulteriores, mas de considerar renovadamente questão de realismo fenomenológico à luz de debates contemporâneos; convicção de que não apenas realismo pode aportar algo à fenomenologia, mas fenomenologia pode aportar algo à formulação de realismo; realismo descritivo ou fenomenológico almejado define-se não unicamente em oposição a idealismo, mas contrasta igualmente com realismo causal, geralmente naturalista por estar enraizado em teoria causal da percepção, que não pode escapar, segundo posição defendida, nem a preconceitos de metafísica da representação mental, nem a desafio cético de causalidade sobre nossos sentidos que se revelaria global e sistematicamente desviante.
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Realismo fenomenológico acompanhado de defesa da noção de essência, criticada de maneira pouco conclusiva por numerosas correntes filosóficas do século XX — do empirismo lógico vienense ao nietzscheanismo francês — mas recentemente reabilitada por certos representantes da filosofia analítica no rastro dos trabalhos de Saul Kripke; demonstração de por que afirmação da existência de verdades de essência suscetíveis de fornecer ponto de ancoragem às descrições fenomenológicas não acarreta nem dogmatismo — na medida em que busca dessas verdades de essência é falível e não repousa sobre nenhum procedimento subtraído por princípio ao erro — nem hipóstases platônicas supérfluas.
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Última parte do trabalho compreendendo certo número de análises fenomenológicas mais particulares, consagradas ao corpo, à experiência de outrem (Autrui), à vida afetiva e emocional, à memória prática, apresentando-se também como amostras de método; representação de tantas sondagens na matéria inesgotável oferecida a fenomenologia; repouso dessas descrições, como método fenomenológico em geral tal como concebido, sobre identificação de verdades de essência iniciais e sobre formulação de questões transcendentais visando trazer à luz condições de possibilidade — ou antes de descritibilidade — desses estados de coisas essenciais.
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A partir do momento em que se abandona terreno das verdades de essência, isto é, onde se formulam questões transcendentais implícitas ou explícitas, única metodologia que permanece sendo método hermenêutico: mediante confrontação de diferentes interpretações desses estados de coisas essenciais, tornando-se possível avaliar essas interpretações em função de seu alcance descritivo, ou seja, de sua capacidade de dar conta de maior número de características de essência dos fenômenos considerados; método mantendo-se a igual distância de dogmatismo que pretenderia aceder a descrição única e unívoca desses estados de coisas e de relativismo que postularia possibilidade de infinidade de descrições igualmente válidas e impossíveis de hierarquizar.
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Esforço demonstrativo de que, entre traços essenciais pertencentes à fenomenalidade das emoções — caráter motivado por razões, acompanhamento necessário por manifestações corporais, enraizamento em normas vitais — descrições avançadas por Husserl e Heidegger de nossa vida afetiva não conseguem fazer justiça a vários deles: para Husserl, objetividade das razões que motivam nossos sentimentos e dimensão corporal destes; para Heidegger, objetividade dos motivos emocionais e condicionamento por normas vitais que permanecem irredutíveis ao plano existencial onde se situam suas análises.
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Estabelecimento de que, contrariamente ao que acreditaram numerosos fenomenólogos que tomaram distinção Leib/Körper por evidência, essa distinção permanece estreitamente solidária, em Husserl, de seus postulados idealistas e de seu edifício transcendental inteiro, para poder ser considerada subtraída a toda crítica; esboço de análise concorrente do corpo fenomenal tal como se entrega a nós, no mundo da vida, do ponto de vista de nossa experiência primordial — descrição incompatível com distinção carne/corpo (chair/corps) em suas diferentes versões, incluindo pós-husserlianas, inscrevendo-se no quadro de refundição realista do conceito de Lebenswelt.
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Oferecimento ao leitor de alguns marcos de pesquisa em curso, sem preocupação de exaustividade nem de sistematicidade, seguindo fio condutor do método esboçado em Au cœur de la raison e inflexão realista da fenomenologia que o acompanha; sondagens menos na fenomenologia histórica que em suas possibilidades ainda em espera de realização.
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