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estudos:marion:si-do-fenomeno

O Si do Fenômeno

JLMS

  • Esta análise, por rigorosa que se tenha querido torná-la, oferece todavia uma dificuldade ou ao menos uma estranheza
    • Faz-nos considerar como um evento o que, de início, passa evidentemente por um objeto — no caso, esta sala
    • De que direito interpretar assim um objeto como um evento — uma sala como uma “sala”?
    • Prosseguindo segundo esta lógica, todo objeto não poderia ao fim descrever-se como um evento?
    • Não conviria manter uma distinção mais razoável entre estes dois conceitos?
    • E, aliás, o que se ganha com tal interpretação, sendo que o objeto pertence certamente ao domínio da fenomenalidade, enquanto não é evidente que o evento ainda disso proceda?
  • A estas objeções de bom senso, sem dúvida é necessário responder invertendo a questão
    • Perguntar, inversamente: como o caráter essencialmente e originariamente de evento do fenômeno e mesmo de todo fenômeno (incluindo o mais banal, que acabamos de descrever) pode esvaecer-se, atenuar-se e desaparecer?
      • Ao ponto de que não nos apareça mais que um objeto
    • Não mais perguntar: até onde pode-se legitimamente pensar o fenômeno como um evento
    • Mas por que: pode-se perder sua fenomenalidade rebaixando-a à objetividade?
    • A esta questão em retorno, pode-se responder inspirando-se em Kant
  • A primeira das quatro rubricas que organizam a categoria do entendimento e portanto impõem aos fenômenos o quádruplo selo da objetidade concerne a quantidade
    • Todo fenômeno, indica Kant, deve possuir, a fim de tornar-se um objeto, uma quantidade, uma grandeza extensiva
    • Segundo esta grandeza, a totalidade do fenômeno equivale a e resulta da soma de suas partes
    • De onde segue outro caráter, decisivo: o objeto pode e deve prever-se segundo a soma das partes que o compõem
      • De sorte que se encontra sempre “intuicionado de antemão como um agregado (a soma das partes dadas de antemão)”
    • Isto significa certamente que a grandeza de um fenômeno pode sempre modelar-se em uma quantidade em direito finita
      • Portanto inscrever-se em um espaço real ou transcrever-se (por modelos, parâmetros e operações de codificação) em um espaço imaginário
    • Isto significa sobretudo que o fenômeno se inscreve em um espaço que podemos sempre conhecer de antemão operando a somação de suas partes
  • Esta sala tem uma quantidade que resulta da soma de suas partes
    • Seus muros definem seu volume
    • Outros parâmetros não extensos (seu custo de fabricação e manutenção, sua taxa de ocupação) definem seu peso orçamentário e sua utilidade pedagógica
    • Não resta em princípio mais nada nela para a menor surpresa
      • O que aparece se inscreverá sempre na soma do que seus parâmetros permitem sempre já prever
    • A sala se encontra prevista antes mesmo de ser vista
      • Encerrada em sua quantidade, consignada a suas partes, detida por assim dizer por suas medidas que precedem e aguardam a efetividade empírica (a construção)
    • Esta redução da sala à sua quantidade previsível faz dela um objeto
      • Diante e no qual passamos como se não houvesse nada mais aí a ver
      • Nada ao menos que não se possa prever desde o plano de sua concepção traçado
  • Assim se dá para todos os objetos técnicos
    • Não os vemos mais, não temos mesmo mais necessidade de vê-los, porque os prevemos de longa mão
    • Chegamos mesmo tanto melhor a utilizá-los quanto os prevemos sem preocupar-nos de vê-los
    • Começamos apenas a dever vê-los quando não podemos mais ou ainda não podemos prevê-los
      • Isto é, quando não podemos mais (pane) ou ainda não podemos utilizá-los (aprendizagem)
    • Em regime de uso técnico normal, não temos assim que ver os objetos
      • Basta-nos prevê-los
    • Reduzimo-los ao posto de fenômenos de segunda ordem, de direito comum
      • Sem lhes conceder aparecer plenário, autônomo e desinteressado
    • Aparecem-nos em transparência, na luz neutra da objetidade
      • Sem deter o olhar nem preenchê-lo
  • De que se encontra assim decaído o fenômeno previsto e não visto, o objeto?
    • Uma vez que o qualificamos como fenômeno previsto, não seria esta previsão que o desqualifica como fenômeno plenário?
    • O que quer dizer aqui “previsão”?
      • Que no objeto tudo permanece de antemão previsto — que nada de imprevisto chega
    • O objeto permanece um fenômeno decaído porque aparece como sempre já caído
      • Nada mais de novo aí pode sobrevir, pois, mais radicalmente, ele mesmo parece, sob o olhar que o constitui, jamais advir
    • O objeto aparece como a sombra do evento que denegamos nele
  • Mas, de golpe, podemos inverter a análise e remontar do objeto, fenômeno em transparência, decaído de toda advinda, até sua fenomenalidade originária
    • Governada de ponta a ponta pela propriedade de evento
    • Conformemente à regra de essência de que o que se mostra verdadeiramente deve primeiramente dar-se
    • Esta remontada do objeto ao evento, de fato já a cumprimos descrevendo um fenômeno de direito comum — esta “sala”, portanto precisamente não a Sala dos Atos
      • Como um triplo evento segundo o “já” de sua facticidade, o “esta vez, uma vez por todas” de seu cumprimento e o “sem-fim” de sua hermenêutica
  • Resta portanto retomar a descrição do caráter de evento da fenomenalidade em geral
    • Apoiando-nos doravante sobre fenômenos indiscutivelmente tematizáveis como eventos
    • Qualifica-se do título de evento em primeiro lugar os fenômenos coletivos (“históricos”: revolução política, guerra, catástrofe natural, performance esportiva ou cultural)
    • Tais que satisfazem, ao mínimo, a três notas
      • a) Não podem repetir-se identicamente e revelam-se assim precisamente idênticos apenas a si mesmos: irrepetibilidade, portanto irreversibilidade
      • b) Não podem ver-se consignar uma causa única nem uma explicação exaustiva
        • Mas exigem um número indefinido, sem cessar acrescido à medida da hermenêutica que os historiadores, sociólogos, economistas poderão desenvolver a seu respeito
        • Excesso dos efeitos e dos fatos consumados sobre todo sistema de causas
      • c) Não podem prever-se, pois suas parciais causas não somente permanecem sempre insuficientes, mas se descobrem apenas uma vez o fato consumado de seu efeito
        • De onde segue que sua possibilidade, não podendo prever-se, permanece a falar estritamente uma impossibilidade no que concerne ao sistema das causas anteriormente repertoriadas
    • Ponto decisivo: estas três notas do evento não concernem apenas aos fenômenos coletivos
      • Caracterizam igualmente certos fenômenos privados ou intersubjetivos
  • Análise de um caso ao mesmo tempo exemplar e em certo sentido banal: a amizade de Montaigne por La Boétie
    • Reconhecem-se aí as determinações canônicas do fenômeno como evento
    • A amizade com outrem impõe-me primeiramente portar sobre ele um olhar que não siga minha intencionalidade sobre ele
      • Mas submeta-se ao ponto de vista que toma sobre mim
      • Portanto me coloca no ponto exato onde sua própria visada espera que me exponha
    • Esta anamorfose, Montaigne a descreve precisamente
      • “Nós nos buscávamos antes de termos nos visto”
      • Buscar-se significa que, como rivais se avaliam e se provocam, tentavam ambos situar-se no ponto onde o olhar do outro poderia, por conseguinte, pousar sobre ele
      • Ou seja: “é não sei que quintessência de toda esta mistura, que, tendo tomado minha vontade, levou-a a mergulhar e perder-se na sua”
      • Tomo para mim seu ponto de vista sobre mim, sem reduzi-lo a meu ponto de vista sobre ele
      • E portanto ele me advém
  • De onde, segundamente, o evento desta amizade cumpre-se de um golpe
    • Sem anúncio nem previsão, segundo uma chegada fora de espera e fora de ritmo
    • “E em nosso primeiro encontro nos encontramos tão tomados, tão conhecidos, tão obrigados entre nós, que nada desde então nos foi tão próximo quanto um ao outro”
    • Trata-se portanto de um fato sempre “já” cumprido
      • Que sua facticidade “por acaso em uma grande festa e companhia de cidade” torna irremediável, longe de fragilizá-lo
  • Terceiramente, o fenômeno que se dá desta sorte não dá nada outro que si mesmo
    • Seu sentido último permanece inacessível porque se reduz a seu fato consumado, a sua incidência
    • Esta sorte de acidente não remete mais a nenhuma substância
    • Se deve significar mais que si mesmo, este excedente permanece tão inconhecível quanto esta “ordenação do céu” que poderia apenas inspirá-lo
    • De onde o último traço, que caracteriza o mais perfeitamente a propriedade de evento do fenômeno
      • Não podemos consignar-lhe nenhuma causa nem nenhuma razão
      • Ou antes, nenhuma outra que si mesmo, na pura energia de sua advinda inquestionável
      • “Se me pressionam a dizer por que o amava, sinto que isto não se pode exprimir senão respondendo: porque era ele; porque era eu”
    • O fenômeno da amizade se mostra portanto apenas à medida que, como puro e perfeito evento, sua fenomenalidade se impõe no modo do evento tal como se dá sem contestação nem reserva
  • Assim, a propriedade de evento que rege todo fenômeno, mesmo o mais objetivo em aparência, manifesta sem exceção que o que se mostra aí chega apenas em virtude de um si estritamente e eideticamente fenomenológico
    • Que lhe assegura o único fato de que se dá
    • E que, em retorno, prova que sua fenomenalização pressupõe sua doação enquanto tal e a partir de si mesmo
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