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A reivindicação

MarionRD

  • É constante que a angústia não dá acesso como tal ao “fenômeno do ser”, mas apenas ao Nada, e que o Nada exige ainda uma interpretação para deixar aparecer nele o ser.
    • A dificuldade fundamental da mise en scène do “fenômeno do ser” eclode aqui: mesmo após a radicalização de 1929, resta um passo a franquear: a passagem do Nada ao ser mesmo.
  • A necessidade fenomenológica desta interpretação deriva do resultado último da angústia: a indistinção (Gleichgültigkeit) que anula toda referência diferenciada.
    • Na angústia, “o ente não nos fala mais (spricht nicht mehr an)”. Isto significa tanto que o ente não mais nos “diz nada”, quanto que ele não mais nos “reivindica”.
    • O Nada cala o ente, cala o ente em seu conjunto e, finalmente, cala a si mesmo. Seu silêncio autista não pode referir a nada além de sua própria indiferenciação.
    • Fenomenologicamente, o silêncio do Nada não pode dizer nada, nem mesmo “Nada”. Ele se diz como Nada apenas ao não dizer.
  • Dois textos confirmam a dificuldade de interpretar o Nada como ser a partir de sua aparição silenciosa na angústia.
    • (a) O Posfácio de 1943 afirma: “O Nada como o outro do ente é o véu do ser”.
      • A angústia é um “lugar essencial da perda da palavra (Sprachlosigkeit)”. Como pode o silêncio do Nada abrir-se para o ser?
      • Heidegger não identifica o Nada ao ser, mas o mantém como seu “véu”. Um véu, antes de se levantar, vela. O Nada mascara o ser mais do que o revela.
      • O Posfácio se encerra com a aporia: do ser, o fenômeno resta por vir.
    • (b) Outra sequência declara que o homem, “chamado pela voz do ser”, experimenta a maravilha de que o ente é.
      • Este chamado ocorre na disposição para a angústia, como resposta à “mais alta reivindicação (Anspruch)”.
      • Contradição: a angústia corta a palavra (Sprachlosigkeit) e o Nada anula toda distinção e apelo. Como poderia então uma reivindicação, e especificamente a do ser, ressoar na angústia?
  • O próprio Heidegger, no Posfácio, parece admitir o abismo entre Nada e ser ao tentar reduzi-lo.
    • Ele considera a hipótese de o Nada permanecer um “nada de Nada (nichtiges Nichts)”, uma “privação de ser (Seinslosigkeit)” definitiva.
    • Rejeita-a apelando para a pertença mútua e indissolúvel de ser e ente. Este argumento, porém, é circular: pressupõe o que precisa ser estabelecido a partir da experiência da angústia.
    • A correção textual de 1949 (de uma subordinação para uma implicação recíproca entre ser e ente) revela o esforço para paliar a insuficiência da interpretação do Nada como ser.
  • Conclui-se que uma interpretação é, como tal, requisitada para atingir o ser a partir do Nada. Caso contrário, o Nada poderia constituir o último fenômeno.
  • A questão seguinte é: por qual fio condutor deve se desdobrar a interpretação do Nada como ser?
    • Na situação de angústia, nada intervém ou reivindica mais (spricht nicht mehr an). Que instância poderia conduzir a interpretação?
  • A solução surge no Posfácio com a introdução de uma nova instância: a reivindicação do ser (Anspruch des Seins).
    • Ignorada em 1929, ela é a única que pode arrancar a conferência de sua aporia.
    • A reivindicação que o ser exerce sobre o Dasein deve realizar o que falta na reivindicação deficiente do ente: desvelar o Nada como o ser.
  • Esta intervenção implica uma inversão total do percurso fenomenológico.
    • A transição não é mais praticável a partir do Nada (o início próximo), mas apenas a partir do ser (o termo longínquo).
    • O percurso começa pelo fim: o chamado do ser. O sobrevindo que permite a transição exerce-se desde seu termo mais ignorado.
    • A analítica existencial da angústia torna-se, assim, insuficiente ou mesmo supérflua para manifestar o “fenômeno do ser”. A passagem ao ser cabe ao ser.
  • Os textos do Posfácio descrevem esta reivindicação com clareza.
    • (i) “A voz do ser (die Stimme des Seins) (…) que toma em reivindicação (in den Anspruch nimmt) o homem em sua essência, para que ele aprenda a experimentar o ser no Nada.” A experiência do ser resulta da irrupção convocatória do ser mesmo.
    • (ii) O pensamento essencial “responde à reivindicação do ser (antwortet dem Anspruch des Seins)”, na medida em que o homem “remete em resposta (überantwortet)” sua essência histórica ao simples do ser. O homem não reivindica o ser; é o ser que o reivindica.
    • (iii) “A oferenda permanece na essência do acontecimento (Ereignis), enquanto o ser reivindica (in den Anspruch nimmt) o homem para a verdade do ser.” A reivindicação é exercida pelo Ereignis, o último nome do ser, que “se apropria (er-eignet)” e “se serve (braucht)” do homem.
  • O centro de gravidade do questionamento desloca-se decisivamente.
    • A analítica existencial, que pretendia remontar do ente ao ser, cede lugar ao evento do ser, único iniciador de seu fenômeno.
    • O único fio condutor para interpretar o Nada como ser provém diretamente do ser, demanda uma resposta diante do ser e se cumpre no Ereignis.
  • Em última instância, trata-se menos do ser do que da reivindicação que ele exerce e graças à qual advém ao homem.
    • Ou, inseparavelmente, trata-se do ser como reivindicação.
    • Apenas a atenção a esta reivindicação abre a fenomenalidade do ser, ou abre a fenomenalidade para o ser.
  • O ser só se diz reivindicando, portanto só se dá a uma resposta. Ouvir esta reivindicação como a do ser e dar-lhe resposta à sua medida decidiria, enfim, do “fenômeno do ser”.
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