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O "Doado" de Marion

FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.

  • Reconfiguração da subjetividade fenomenológica por Jean-Luc Marion guiada pela análise da fenomenalidade do evento.
    • Apresentação de l'adonné [o doado] como concepção alternativa de sujeito para sua fenomenologia.
    • Transformação do papel do sujeito reflete compreensão de fenomenalidade: modo como fenômenos aparecem determina modo como sujeito os experiencia e a si mesmo.
    • Caráter específico da relação entre fenômeno e aquele que o experiencia em cada abordagem fenomenológica molda ideia de fenomenalidade e de seu sujeito.
  • Interpretação marioniana da fenomenalidade situa o adonné.
    • Dois modos de fenomenalidade: objectness e eventness.
    • Status fenomenológico do evento foi desprezado, critérios para ser fenômeno tenderam a seguir condições da objectness.
    • Eventness como modo próprio de fenomenalidade estende alcance da fenomenalidade a fenômenos dados sem condições determinantes prévias.
    • Primado do fenômeno dado sobre qualquer outro princípio: doação (givenness) como base da auto-exibição de todos os fenômenos.
    • Fenômeno definido por doação garante que nada externo a ele desempenhe papel central em seu aparecer.
  • Dois modos gerais de fenomenalidade ancorados na ideia de fenômeno como auto-dado, com aspiração de mudar critérios para ser fenômeno, antes configurados pelas regras da objectness.
    • Regras da objectness pressupõem existência de sujeito transcendental para aparecimento do fenômeno.
    • Objeto só aparece na medida em que sujeito o constitui; auto-exibição do fenômeno é condicionada por autoridade externa a ele.
    • Objeto assume “status alienado” ao ser submetido à regra de um eu constituinte que o define e produz de fora.
  • Projeto de remover qualquer autoridade externa da auto-exibição do fenômeno relaciona-se diretamente à compreensão de subjetividade.
    • Fenômeno se dá e se mostra apenas confirmando-se como um “si” (self), atestado contra toda pretensão transcendental exclusiva do eu.
    • Para mostrar-se de modo incondicionado, o “si” do fenômeno requer novo tipo de sujeito.
    • Novo sujeito exibiria nova forma de subjetividade, despojada das características que lhe conferiam estatuto transcendental.
  • Problematização da noção de “si” (soi) do fenômeno em Marion, conforme Shane Mackinlay.
    • Uso frequente da noção de “si” do fenômeno para expressar auto-doar-se (Selbst-gebung, donation de soi) dos fenômenos.
    • Ausência de discussão detalhada sobre essa noção na obra de Marion.
    • Atribuição de um “si” aos fenômenos funciona como modo de excluir alegações sobre papel da subjetividade na fenomenalidade.
    • Referências ao “si” do fenômeno servem para destacar a auto-doação (self-givenness) dos fenômenos.
  • Fenômeno saturado (saturated phenomenon) exemplifica como fenômeno é dado sem condições e não limitado por autoridade além dele mesmo.
    • Definido como excesso de intuição sobre intencionalidade, situação em que capacidades subjetivas não são capazes de constituir fenômenos como objetos.
    • Modo excessivo de aparecer do fenômeno saturado contradiz condições subjetivas da experiência por não admitir constituição como objeto.
    • Marion usa categorias kantianas para destacar caráter dado dos fenômenos saturados, cuja exposição implica reversão de cada categoria.
    • Reviravolta do poder determinante das categorias kantianas descreve cada fenômeno saturado como contra-fenomenalidade à objectness.
    • Condições de possibilidade da objectness vêm da ideia da subjetividade transcendental.
    • Fenômenos saturados, por não serem objetos, traçam novo alcance de fenomenalidade com base na doação.
  • Evento como fenômeno saturado descrito como “fenômeno não-objetivo ou, mais exatamente, não objetificável”.
    • Além de exemplo de fenômeno saturado, evento tem função paradigmática.
    • Eventness é modo de fenomenalidade em geral que define “cada tipo de fenômeno saturado” e “o fenômeno como dado em geral”.
    • Relação etimológica entre palavras alemãs “Begebenheit” (evento) e “Gegebenheit” (doação) sugere considerar se fenomenalidade do evento é paradigmática para fenomenologia da doação.
  • Prioridade do evento em relação a outros fenômenos saturados devido à sua perfeita concordância com o caráter dado do fenômeno descrito por Marion.
    • Doação sobrepõe tanto o dado quanto o receptor no próprio evento.
    • Não há a priori, nem mesmo a priori passivo, nem aquele do eu transcendental, nem do eu empírico.
    • Fenômeno saturado mais original é o evento, que realiza destruição do a priori.
    • Evento acontece como único a priori autoimpositivo, de modo que tudo mais acontece através dele.
    • Acontecer é, por definição, acontecer a posteriori.
    • Único a priori correto reside no a posteriori universal do evento.
  • Ênfase de Marion no evento em sua explicação do caráter dado dos fenômenos é crucial em dois aspectos.
    • Caracterização do status do evento como “mais original” devido à sua realização paradigmática da doação.
    • Modo como evento aparece também é modo de fenomenalidade em geral.
    • Seu caráter a posteriori contrasta o modo da eventness com o outro modo de fenomenalidade, a objectness.
    • Evento tem papel central na “subjetivação” (subjectivation) do sujeito para Marion.
  • Como evento acontece sem condições a priori, papel constituinte do sujeito em seu aparecer não está mais em questão.
    • Aposterioridade significa que aquele que experiencia evento torna-se adonné porque adonné “recebe a si mesmo daquilo que recebe”.
    • Passagem vai do evento para a subjetivação, não o inverso: ponto de partida para o adonné é o evento, não o sujeito.
    • Tal compreensão do sujeito contradiz ideia da subjetividade do “eu transcendental” por não ser um lócus do aparecer dos fenômenos.
  • Noção de evento como fenômeno saturado mais importante e modo de fenomenalidade com papel vital na subjetivação do adonné.
    • Evento não permite que compreensão a priori do sujeito – eu transcendental – esteja envolvida em sua ocorrência.
    • Por aparecer excessiva e imprevisivelmente, evento não pode ser governado por poderes subjetivos de síntese, constituição ou objetificação.
    • Marion critica e desmonta compreensões fenomenológicas anteriores da subjetividade com sua concepção do adonné.
    • Assim como sua análise da eventness implica crítica da objectness, sua análise do adonné implica crítica de seu oposto, subjetividade transcendental.
  • Toda análise da fenomenalidade requer sua própria configuração do sujeito; essa abordagem deriva da transformação heideggeriana do sujeito.
    • Heidegger, com Dasein, facilita destruição do ego cartesiano e da subjetividade transcendental.
    • Dasein visa ir além dos limites impostos pela noção de sujeito, pois cada ideia de sujeito implica compreensão ontológica de hypokeimenon (subjectum).
    • Heidegger emprega noção de Dasein em vez de pensar ser humano como sujeito, por considerá-la livre de herança ontológica do ego cartesiano ou da subjetividade transcendental.
    • Problema da noção de subjectum vem de sua origem na noção grega de hypokeimenon (subjacente), identificada desde início com conceito de substantia ou substância (ousia).
    • Descartes permitiu que essa noção ontológica se aplicasse a uma existência particular, ao “ego” ou “eu” como “res cogitans”.
    • Ego torna-se sujeito como ser substancial entre outros seres; privilégio do ego como coisa pensante (res cogitans) estabelece sua prioridade ontológica sobre outros seres, coisas extensas (res extensa).
    • Descartes realiza reflexões fundamentais de suas Meditações aplicando ontologia medieval a esse ser (Seiende) que posiciona como fundamentum inconcussum (fundamento inabalável).
  • Definição e função egológica do sujeito servem para determinar concepção filosófica do ser humano de Descartes a Husserl.
    • Torna-se “fundamento ontológico” e serve como ponto de partida metodológico para Husserl.
    • Heidegger introduz Dasein como alternativa ao ego cartesiano e às formas que assume em Kant e Husserl.
    • Como novo ponto de partida para ontologia, Dasein possibilita questionar sentido do ser (Sein), negligenciado na história da filosofia.
    • Em vez de ser sujeito e substância, Dasein à luz de sua análise existencial guiará investigação sobre sentido do ser que compõe sua ontologia fundamental.
    • Análise existencial heideggeriana do Dasein pretende ser mais fundamental que compreensão do ser humano encontrada na antropologia, psicologia e biologia.
  • Definição do ser humano nessas disciplinas idêntica à definição de sujeito como substância, sem objetivo de alcançar compreensão ontológica desse ser.
    • Análise de Marion do adonné pode ser vista como continuação do projeto heideggeriano de superar subjetividade e reformular sujeito, embora objetivos sejam diferentes e muitas vezes conflitantes.
  • Christian Sommer interpreta adonné de Marion como resultado da “virada teológica” na fenomenologia francesa.
    • Relaciona concepção de subjetividade de Marion, como herdeiro de Heidegger e Husserl, com “antropologia fenomenológica”, termo emprestado de Hans Blumenberg.
    • Blumenberg buscou desenvolver essa noção em contraste com atitudes críticas de Husserl e Heidegger em relação à noção de antropologia.
    • Adonné, como “sujeito sem subjetividade”, fornece nova analítica fenomenológica do sujeito – subjetividade “descentrada” – de modo similar à análise heideggeriana do Dasein, mas também envolve tentativa de superar Heidegger e Husserl.
  • Objetivo de Marion de superar metafísica e “aproximar-se precisamente de fenômenos de 'outro modo que ser'” abre figura pós-metafísica do sujeito, oposta tanto ao sujeito transcendental quanto ao Dasein.
    • Projeto de Marion visto como adequado à noção blumenberguiana de “antropologia fenomenológica” como retorno ao pensamento antropológico na fenomenologia através de “dupla releitura crítica de Husserl e Heidegger”.
    • Adonné pode ser pensado em relação à ideia de antropologia fenomenológica de Blumenberg, mas objetivo aqui não é relacioná-los, mas abordar como Sommer vincula adonné ao projeto heideggeriano de reinterpretar o sujeito fenomenológico como sujeito pós-metafísico.
  • Dasein como destruição da subjetividade metafísica e análise de Marion do adonné como sujeito descentrado são tematicamente similares.
    • Como o Dasein de Heidegger, o adonné de Marion é uma análise pós-metafísica da subjetividade por não ser mais um hypokeimenon e não ter papel constitutivo ou função a priori.
    • Crítica do sujeito metafísico moderno e reconfiguração pós-metafísica da subjetividade servirão para guiar compreensão da subjetivação do adonné por meio do evento.
  • Sequência da análise: primeiro engajar-se com análise de Marion das aporias do sujeito transcendental em Kant e Husserl; depois focar em sua compreensão da nova subjetividade do adonné.
    • Examinar crítica de Marion à subjetividade; elaborar sua reformulação da “subjetividade” como adonné.
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