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A não evidência
MarionDado
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Admitir a fenomenalidade própria do fenômeno — seu direito e sua potência de se mostrar a partir de si mesmo — implica assim compreendê-la a partir da doação
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Husserl, recapitulando ao fim de seu itinerário o adquirido de sua primeira “obra de ruptura”, as Investigações Lógicas, marca perfeitamente a mutação assim pedida ao pensamento filosófico: “É aí [em 1901] pela primeira vez, por conseguinte, que a 'evidência' (este ídolo lógico morto) foi transformada em um problema, que foi liberada da prevalência da evidência científica e que se alargou à universalidade da doação original de si (zur allgemeinen originale Selbstgebung erweitert)”
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De que alargamento se trata? Sem dúvida do alargamento da intuição sensível (kantiana) à intuição categorial
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Mas Husserl não se atém aqui à única questão da intuição; e aliás este alargamento deve ele mesmo se justificar
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De fato, está em jogo, mais universalmente, o alargamento da evidência em doação
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Alargamento ou aprofundamento, ou — porque a “profundidade” pareceria aqui mais discutível que proveitosa — mutação
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Por que com efeito Husserl desqualifica a evidência como um simples ídolo morto? Por que ao contrário privilegiou o uso dela, como de toda a rede semântica que a liga ao olhar, à vista, à verdade?
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Precisamente, porque a redefiniu radicalmente — pois a vista e o olhar não veriam absolutamente nada se a evidência permanecesse uma simples impressão subjetiva, um efeito de consciência, em suma um espelho idolátrico onde o espírito se reenviaria a ele mesmo uma impressão que só impressiona a ele
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Para que a evidência não se refeche em simples ídolo do olhar e não permaneça uma letra morta — que a consciência envia a ela mesma —, é preciso, de uma absoluta necessidade fenomenológica, que a evidência dê mais que um estado ou um vivido de consciência, que porte em sua claridade o aparecer de um não-consciente, de um não-vivido, de um não-pensado
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É preciso que em sua tela, se projete e advenha um outro que ela — o inevidente, o fenômeno ele mesmo
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Paradoxo a admitir: o fenômeno permanece, enquanto instância exterior à consciência, perfeitamente inevidente, pois a evidência se define como um modo ou estado da única consciência, independente de e indiferente a uma eventual transcendência
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Não se pode, segundo o único critério de evidência, demarcar uma evidência solipsista de uma evidência de coisa
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Para que a evidência se decida nela entre um filme sem profundidade e a figura de um real, em suma para que possa deixar ver, melhor, deixar aparecer o fenômeno, é preciso introduzir um termo novo — a doação
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A evidência não vê nada se a doação não lhe dá de deixar aparecer o que não lhe pertence, a inevidência essencial do aparecer como aparecer fenomenal
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Pois a fenomenologia não começa com o aparecer ou a evidência (senão permaneceria idêntica à metafísica), mas com a descoberta, tão difícil quanto estupefante, de que a evidência, em si mesma cega, pode se tornar a tela do aparecer — o lugar da doação
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Lugar da doação, portanto não sua origem, mas seu acabamento: a origem da doação permanece o “si” do fenômeno, sem princípio nem origem senão si
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A “doação de si, Selbstgebung” indica certamente que o fenômeno se dá em pessoa, mas também e sobretudo que se dá de si mesmo e a partir de si mesmo
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Somente esta doação originada em si pode dar o si do fenômeno e investir a evidência da dignidade de vigia da fenomenalidade, arrancando-a assim à sua morte idolátrica
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Certamente, esta mutação da evidência morta à evidência carregada de doação só se cumpre pela operação da redução
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Mas a redução não produziria nenhum avanço fenomenológico, se se limitasse a reduzir a evidência à imanência real dos vividos, por mais certa que seja
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Só tira sua legitimidade e sua fecundidade de seu serviço da doação, da qual, como a evidência (embora sobre outro modo), recebe tudo
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A doação dá vida tanto à redução quanto à evidência, pois somente ela lhes dá a carga da fenomenalidade
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