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estudos:marion:hermeneutica-nada

A hermenêutica do nada como ser

MArionRD

  • A angústia, como tonalidade fundamental, permite acessar o Nada como fenômeno fundamental, mas esta conquista fenomenológica suscita uma nova dificuldade.
    • Tanto a angústia quanto o Nada são marcados por uma “essência bifronte” e uma “plurivocidade enigmática”.
    • A entrada do Nada na fenomenalidade não é suficiente para a manifestação do “fenômeno do ser”, pois o próprio Nada permanece equívoco.
  • A equivocidade do Nada remonta à sua determinação mais essencial: ele não se opõe simplesmente ao ente.
    • O Nada não nega nem aniquila o ente; ele “se encontra na angústia em fazer um só com o ente em seu conjunto”.
    • Ele se anuncia “com o ente e mantendo-se junto a ele”. Nem um novo ente, nem uma negação aniquiladora, o Nada se marca na superfície mesma do ente.
  • O surgimento do Nada na angústia se dá através de um movimento ambíguo de recuo e referência.
    • O recuo do Dasein provém do Nada e expulsa (renvoi, abweisen) os entes particulares, tornando-os indiferenciados.
    • Este mesmo recuo, ao tornar indistinto todo ente, faz sinal (renvoie, verweisen) para o ente em seu conjunto.
    • Esta “referência que expulsa” (abweisende Verweisung) é um jogo duplo: expulsa o ente particular para referir ao ente em seu conjunto, designando assim o que está em vias de não ser.
  • Esta estrutura de referência (Verweisung) confere ao Nada um estatuto fenomenológico preciso, mas limitado.
    • A estrutura do “em-vista-de” define fenômenos do tipo aparição (Erscheinung), que precisam mostrar-se a si mesmos para darem-se como fenômenos absolutos (Phänomen).
    • Como o Nada aparece segundo uma referência (abweisende Verweisung), ele só aparece como uma Erscheinung, não como um fenômeno absoluto.
    • Ele permanece fenomenologicamente indeterminado até que refira a um fenômeno absoluto que o ilumine em retorno. O Nada não é o fenômeno último.
  • A questão decisiva torna-se: a que deve referir a aparição do Nada?
    • Esta dificuldade conceitual corresponde a uma flutuação textual nos escritos de Heidegger.
  • Em Ser e Tempo (1927), a análise da angústia referia o Nada ao ser-no-mundo.
    • O que angustia é o próprio ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).
    • O “nada do ente à mão” (Nichts von Zuhandenem) abre o acesso ao mundo como tal.
    • O “Nada do mundo” não aniquila o mundo, mas pertence a ele e a ele reconduz: “a compreensão é levada através da angústia para o ser-no-mundo como tal”.
    • Em 1927, o Nada nunca é referido explicitamente ao “fenômeno do ser”, mas ao mundo e ao Dasein.
  • Em Que é Metafísica? (1929), a referência permanece hesitante e deslocada.
    • A conferência refere mais frequentemente a angústia ao Nada, e o Nada à transcendência do Dasein.
    • Apenas duas vezes, e com reservas, sugere-se uma referência do Nada ao ser.
      • “No ser do ente advém o aniquilar do Nada” – uma formulação invertida, onde o ser não é posto em equivalência explícita.
      • “O ser e o Nada pertencem um ao outro” – uma declaração contextualizada pelo horizonte hegeliano e mediada pela transcendência do Dasein, sem estabelecer uma identidade estrita.
    • A referência (e a equivalência) entre o Nada e o ser não parece conquistada em 1929.
  • É no Posfácio de 1943 que o renvio do Nada ao ser é finalmente realizado.
    • “Este nada 'é' como o ser (dieses Nichts west als das Sein)”.
    • No Nada, o Dasein “aprende a experimentar no Nada o ser”.
  • Surge então uma tese crítica: enquanto a passagem da angústia à aparição do Nada é estável, o renvio desta aparição ao “fenômeno do ser” é problemático e tardio.
    • A mesma aparição referiu primeiro à transcendência do Dasein, depois ao mundo, e só muito depois ao ser.
    • Isto suscita a questão: com que direito o Nada admite um renvio ao ser, e não a outra instância?
  • Para esclarecer este ponto, é necessário examinar as operações hermenêuticas pelas quais, a posteriori, Heidegger tenta estabelecer este renvio.
    • Estas operações, desenvolvidas ao longo de vinte anos (de 1929 a 1949), testemunham que o “fenômeno do ser” não foi atingido diretamente na conferência de 1929.
  • As operações tardias dividem-se em três tipos: acentuações, substituições e acréscimos.
    • (a) Acentuações: Notas posteriores (1949) interpretam termos ambíguos como indicando o ser. Ex: “essência bifronte” do Nada recebe o comentário “Nada como 'ser'”; “Nada e ser são o mesmo (das Selbe)”.
    • (b) Substituições: O termo “ente” no texto original é substituído por “ser” ou “ser do ente” nas notas. Ex: A “referência que expulsa” (abweisende Verweisung) é explicada como “expulsão: o ente para si; referência: para o ser do ente”.
    • © Acréscimos: A diferença ontológica é inserida no corpo do texto de 1929. Ex: A “essência bifronte” torna-se diretamente “a diferença ontológica”; onde o Nada faz um com o ente, uma nota vê “a diferença (der Unterschied)”.
  • O laborioso trabalho hermenêutico a posteriori demonstra que, com a aparição do Nada, o “fenômeno do ser” não foi atingido.
    • Entre um e outro, uma hermenêutica deve intervir.
  • A questão final e decisiva se impõe: Como pode guiar-se esta hermenêutica, se ela mesma deve ser a que finalmente deixa aparecer o “fenômeno do ser”?
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