estudos:marion:confronto-heidegger-descartes
MOTIVO FENOMENOLÓGICO DA CONFRONTAÇÃO ORIGINÁRIA COM DESCARTES
MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.
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A confrontação heideggériana com Descartes ocorre num contexto onde a fenomenologia husserliana já havia estabelecido uma ligação essencial com o pensador moderno, investindo-o de uma dignidade fenomenológica.
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O encontro entre fenomenologia e Descartes antecede Heidegger, remontando pelo menos às conferências de Göttingen de 1907.
Esta equivalência estabelecida por Husserl pode ser desdobrada em duas direções opostas.-
Uma direção crítica: a fenomenologia husserliana não é plenamente fenomenológica porque permanece prisioneira de decisões cartesianas não criticadas.
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Heidegger segue desde cedo a segunda direção, utilizando a crítica aos pressupostos cartesianos como via para se distanciar da interpretação husserliana da fenomenologia.A crítica imanente desenvolvida no verão de 1925 nos Prolégomènes [GA20] aplica a Descartes e a Husserl a mesma questão fundamental.A tentativa de Husserl de determinar o ser da consciência através de uma citação modificada de Descartes revela a profundidade de sua dependência e os limites de sua análise ontológica.
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Husserl cita os Principia Philosophiae I, § 51, adaptando a fórmula cartesiana para definir o ser imanente como ser absoluto que nulla “re” indiget ad existendum.
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Esta adaptação (omissão de alia, res entre aspas) busca evitar estender a realitas à res cogitans, mas prova a inadequação da determinação cartesiana para os fins de Husserl.
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Em Descartes, a substancialidade aplica-se tanto à res cogitans quanto à res extensa, contrariando o privilégio husserliano da consciência.
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Além disso, a substancialidade cartesiana é apenas relativa (depende de Deus), não absoluta como pretende Husserl.
Heidegger, ao analisar esta operação de Husserl, desmonta sua pretensão ontológica e revela o desvio fenomenológico que ela encobre.-
A determinação husserliana do ser da consciência como “absoluto” não determina o ente mesmo em seu ser, mas apenas atribui à região consciência uma prioridade formal na ordem da constituição.
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Mais radicalmente, Heidegger acusa Husserl de ter assumido uma questão cartesiana não legitimada fenomenologicamente.
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A questão primeira de Husserl não era o caráter de ser da consciência, mas como a consciência pode tornar-se objeto de uma ciência absoluta.
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Este ideal de uma ciência absoluta não é uma descoberta fenomenológica, mas a ideia tradicional da filosofia moderna desde Descartes.
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Portanto, a elaboração do campo temático da fenomenologia não foi conquistada por um retorno às coisas mesmas (Rückgang auf die Sachen selbst), mas por um retorno a uma ideia tradicional da filosofia.
A crítica atinge seu ápice ao identificar Descartes como o obstáculo que impede a realização plena da fenomenologia.A importância de Descartes para Heidegger deriva, portanto, da radicalidade fenomenológica da questão que ele não coloca.-
Pensar Descartes, para Heidegger, não significa repetir ou inverter a instauração do ego, mas destruí-la.
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Destruir o ego cartesiano não é aboli-lo onticamente, mas liberar sua dignidade ontológica, fazendo aparecer como fenômeno o modo de ser do ego (ou do que deve substituí-lo), distinto do modo de ser dos entes intramundanos.
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Este gesto de destruição abre o acesso ao Dasein.
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O privilégio de Descartes no pensamento de Heidegger é, em última instância, o de ser o obstáculo por excelência que impede a realização ontológica da fenomenologia, bloqueando-a no ego e mascarando, assim, o Dasein.
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