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SER E TEMPO (II)

MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994.

  • A análise existencial provisória de Dasein como cuidado é considerada inadequada por dois motivos e exige um aprofundamento.
    • A análise tratou apenas de episódios, não da totalidade de Dasein entre nascimento e morte.
    • A análise focou a existência cotidiana e inautêntica de Dasein, dominada pelo “eles”.
  • A busca pela totalidade e autenticidade de Dasein requer focar na morte e na consciência (Gewissen).
    • A morte, como fim da conta de cada Dasein, permite vislumbrar sua completude.
    • A consciência direciona Dasein para a realização de suas possibilidades existenciais autênticas.
  • A centralidade filosófica da morte em Heidegger foi recebida como um choque e uma transformação da “filosofia da vida” em uma “filosofia da morte” academicamente respeitável.
    • Richard Kroner descreve o fascínio e a surpresa causados pelo ensino de Heidegger em 1927.
    • A questão sobre se essa filosofia merece estudo cuidadoso depende da concepção mais ampla sobre se a filosofia deve ser um exercício puramente intelectual ou se deve se enraizar na existência humana total.
  • A fenomenologia da morte de Heidegger não se interessa pela morte como fenômeno natural ou especulação pós-morte, mas investiga como ela entra no ser de Dasein.
    • A interpretação “deste-mundo” e ontológica da morte tem precedência sobre especulações ônticas de “outro-mundo”.
    • A fenomenologia da morte parece impossível, pois a morte não é uma experiência cotidiana, mas o fim de toda experiência.
    • Observar a morte dos outros só a mostra como evento natural externo, não como algo pertencente ao próprio Dasein.
  • Da impossibilidade de acessar a morte alheia, extrai-se uma característica positiva: a morte é intransferível, reforçando a singularidade e propriedade (Jemeinigkeit) de Dasein.
    • A morte pertence de modo único a cada Dasein; ninguém pode morrer por outro no sentido existencial.
  • Analogias como a maturação de um fruto falham em captar o significado existencial da morte, mas dessa falha emerge outra característica positiva: a morte é a possibilidade última e insuperável de Dasein.
    • Esta visão é paradoxal: é uma recomendação de realismo diante do fim ou uma exaltação niilista da morte?
  • A morte se relaciona com a estrutura temporal de Dasein: como possibilidade insuperável, pertence ao futuro; como fato da facticidade, Dasein já está lançado nela; e, em certo sentido, está presente.
    • Diferente de Sartre, Heidegger vê a morte como possibilidade que possibilita um padrão significativo de vida dentro de um tempo limitado.
    • Uma existência inautêntica cobre a possibilidade presente da morte, enquanto uma autêntica a antecipa.
  • A antecipação da morte, como “ser-para-a-morte”, é uma aceitação lúcida da finitude, vivida no estado de ânimo da angústia (Angst).
    • A angústia permite a Dasein escapar de sua decadência e assumir seu ser autêntico em uma “liberdade apaixonada para a morte”.
    • Este momento marca um clímax emocional em *Ser e Tempo* e um afastamento do cristianismo em direção a uma “metafísica da rebelião”.
  • A segunda fase do aprofundamento analítico busca a autenticidade de Dasein através da escuta da consciência (Gewissen), que o chama para fora da decadência.
    • A consciência não é a voz da sociedade, do superego ou de Deus, mas Dasein chamando a si mesmo a partir de sua própria potencialidade para existir autenticamente.
  • Escutar a consciência é aceitar a responsabilidade pela própria existência, o que simultaneamente revela a culpa (Schuld) como “débito” ou nulidade constitutiva de Dasein.
    • Dasein está sempre em débito com suas possibilidades, não é o fundamento de seu próprio ser, mas é responsável por ele.
    • Neste ponto, a análise existencial poderia ter tomado um rumo religioso (como em Paulo), mas em *Ser e Tempo* o ser humano tem apenas seus próprios recursos.
  • A discussão sobre morte e consciência aprofunda a interpretação de Dasein como cuidado, destacando seu caráter essencialmente temporal.
    • O que torna o cuidado possível é a temporalidade, que se torna a pista para entender Dasein e, por extensão, o significado do Ser em geral.
  • A ênfase na temporalidade constitui uma ruptura com a tradição filosófica que via o eu como uma substância, e sugere que o próprio Ser é temporal.
    • A relação entre a temporalidade de Dasein e o tempo da física (ou tempo objetivo) permanece obscura.
  • Heidegger rejeita a compreensão comum do tempo como uma série de “agoras” sucessivos e externos, propondo uma temporalidade onde passado, presente e futuro estão internamente relacionados como “êxtases”.
    • O passado (facticidade) determina o presente e o futuro; os projetos futuros foram formados no passado e continuam no presente.
  • Três tipos de tempo são mencionados: a temporalidade de Dasein, o tempo do mundo e a temporalidade de Deus.
    • A temporalidade de Dasein é o “esticão” entre nascimento e morte, gerado por Dasein em considerações práticas.
    • O tempo do mundo (objetivo, regulado) surge da correlação dos tempos individuais no ser-com.
    • A eternidade de Deus, se filosoficamente construída, seria entendida como uma temporalidade “mais primordial” e “infinita”, não como atemporal.
  • A historicidade (Geschichtlichkeit) é uma forma específica da temporalidade de Dasein, já que Dasein existe em solidariedade com outros.
    • O primariamente histórico é sempre Dasein; as coisas são históricas apenas secundariamente, por associação com Dasein.
  • Se Dasein é o primariamente histórico, os conceitos da analítica existencial (e não categorias de coisas) aplicam-se ao estudo da história.
    • A história (como estudo) preocupa-se mais com o futuro e com possibilidades do que com o passado e fatos, através do ato de “repetição” ou “retomada” (Wiederholung) de possibilidades autênticas do passado.
  • A noção de repetição levanta a questão sobre se grandes inovações futuras são possíveis, ou se as maiores possibilidades de Dasein já foram reveladas no passado.
    • Esta visão sugere uma comparação com a doutrina nietzschiana do eterno retorno e reflete uma descrença no progresso moral ou filosófico.
  • Heidegger relaciona suas ideias sobre história com os três tipos de história de Nietzsche (monumental, antiquária, crítica) e com a metodologia de Wilhelm Dilthey para as ciências humanas.
    • Os três tipos de história se correlacionam aproximadamente com os três êxtases da temporalidade.
  • A autêntica historicidade, que possibilita algo como o “fado” (Schicksal) e o “destino” (Geschick), é definida pela temporalidade autêntica e finita.
    • Fado é enviado ao indivíduo; destino é enviado a uma coletividade (povo, nação).
  • Os conceitos de fado e destino, ligados à ideia de “envio” (do verbo *schicken*), levantam questões perigosas sobre quem ou o que envia, especialmente no contexto do destino coletivo do povo alemão.
    • A filosofia de Heidegger, em particular sua ideia de história e destino, pode ter contribuído para sua simpatia inicial pelo Nacional-Socialismo.
    • A discussão de Heidegger sobre tempo e história é interrompida abruptamente, pois *Ser e Tempo* nunca foi concluído.
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