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FILOSOFIA E TEOLOGIA

MACQUARRIE, John. An Existentialist Theology: A Comparison of Heidegger and Bultmann (1955)

A Relação da Filosofia da Existência com a Teologia

1. Influências Filosóficas sobre o Pensamento Teológico

  • Ao longo de sua história, a teologia cristã sofreu influências de diversas filosofias seculares – desde traços gnósticos no Novo Testamento, passando pelo uso de Platão pelos primeiros teólogos como Justino Mártir e Agostinho, pela adoção de Aristóteles por Tomás de Aquino, pelo racionalismo setecentista em Butler, até o idealismo hegeliano e as teorias científicas do século XIX.
  • Em todos esses casos, o motivo apologético era apresentar a fé cristã em termos inteligíveis para a época, fazendo uso de conceitos filosóficos correntes mesmo quando estranhos ao cristianismo.
  • Os grandes apologistas – os primeiros padres diante da filosofia pagã, Tomás de Aquino diante do averroísmo medieval, Butler diante do deísmo – lograram reformular a fé cristã histórica de modo a conquistar audiência em seu tempo, contribuindo permanentemente para o pensamento teológico ao aprofundar a compreensão da verdade cristã.
  • Há, porém, perigos graves nessa prática: a preocupação com uma filosofia secular pode levar à distorção do ensino cristão por ênfase excessiva nos elementos que se harmonizam com ela; ideias estranhas ao cristianismo podem infiltrar-se na teologia disfarçadas de terminologia cristã tradicional; e, no pior caso, pode haver acomodação franca da fé cristã à moda filosófica vigente.
  • Argumenta-se que esses perigos se concretizaram quando a teologia caiu sob o idealismo hegeliano, e ainda mais claramente no modernismo liberal, que procurava a todo custo tornar a fé cristã inofensiva ao cientificismo popular – daí a reação aguda, no século XX, de teólogos como Barth, descrito como aquele que é sempre o teólogo criticando os filósofos e os teólogos que deixam seu ensino ser determinado por noções filosóficas, buscando derivar o ensino teológico exclusivamente da revelação bíblica.
  • Diante disso, afirmar que o pensamento de Bultmann sofre influência da filosofia existencialista poderia parecer suficiente para condená-lo aos olhos de teólogos contemporâneos que desconfiam da filosofia, levantando a questão de se ele não estaria repetindo o erro de acomodar o ensino cristão às tendências do pensamento secular.

2. Teologia e Ontologia

  • Toda investigação parte de pressupostos que delimitam seu campo, determinam seus conceitos básicos e lhe dão direção – e isso vale tanto para a investigação teológica quanto para qualquer outra, pois tais pressupostos são ontológicos, ou seja, consistem numa compreensão preliminar do ser das entidades investigadas.
    • Quando o teólogo pergunta o que é o homem em sua relação com Deus, a resposta sobre o conteúdo doutrinário vai à revelação cristã, mas o “é” da pergunta já implica alguma compreensão do ser do homem – se substancial, existencial ou outra – e essa pressuposição influencia tanto a investigação quanto seu resultado.
  • Heidegger aponta que a questão do ser foi longa e negligenciada ou tratada como supérflua por teólogos, filósofos, cientistas e historiadores, embora a ideia de ser seja obscura no extremo e essa obscuridade inicial repercuta em toda investigação ôntica subsequente; o progresso de uma ciência, segundo Heidegger, consiste na revisão e clarificação constantes dos primeiros princípios e conceitos básicos – o que o historiador da ciência provavelmente confirmaria (Dampier, A History of Science).
    • Sobre a teologia especificamente, Heidegger observa: a teologia busca uma interpretação mais primordial do ser do homem em relação a Deus, prescrita pelo sentido da própria fé e permanecendo dentro dela, e começa a compreender novamente o insight de Lutero de que seu sistema dogmático repousa sobre uma base que não é ela mesma matéria de fé, e cujos conceitos não apenas são inadequados para os problemas teológicos, mas os obscurecem e distorcem (S. u. Z., p. 10).
  • Bultmann assumiu esse desafio: antes de interpretar o conteúdo da fé cristã, examinou os pressupostos do pensamento teológico e concluiu que esses pressupostos são clarificados e assegurados por uma filosofia de tipo existencialista – pois o existencialismo é uma filosofia do ser que, segundo Heidegger, concede precedência ao problema do ser do homem, já que o ser do homem é tal que, com ele, vem dada alguma compreensão desse ser, de modo que o existencialismo reivindica ser não uma filosofia especulativa, mas uma análise da compreensão da existência dada com a própria existência.
  • A influência do existencialismo sobre a teologia de Bultmann não é, portanto, uma influência externa como a de um sistema metafísico, mas uma influência intrínseca – a de uma investigação pré-teológica, ou ontológica, sobre a ideia de ser que a teologia pressupõe; afirmar que um teólogo está inteiramente livre de influências filosóficas pode simplesmente significar que ele não se deu ao trabalho de examinar as pressuposições ontológicas implícitas das quais sua teologia parte.
  • Tillich resume bem esse argumento: a teologia, ao tratar de nossa preocupação última, pressupõe em cada frase a estrutura do ser, suas categorias, leis e conceitos, e não pode escapar à questão do ser mais facilmente do que a filosofia; a tentativa do biblicismo de evitar termos ontológicos não bíblicos está fadada ao fracasso – em todo texto religioso ou teológico aparecem conceitos como tempo, espaço, causa, coisa, sujeito, natureza, movimento, liberdade, necessidade, vida, valor, conhecimento, experiência, ser e não-ser; e o teólogo bíblico que usa termos como “história” esquece que esse significado foi formado por milênios de historiografia e filosofia da história, de modo que o teólogo sistemático precisa ser filósofo em compreensão crítica, ainda que não em poder criativo (Systematic Theology, vol. I, pp. 24-25).

3. A Abordagem Existencial da Teologia

  • Bultmann formula sua tese sobre a relação especial da filosofia existencialista com o trabalho do teólogo nos seguintes termos: a filosofia “certa” – entendida como a perspectiva filosófica própria ao estudo teológico – é simplesmente o trabalho filosófico que se empenha em desenvolver em conceitos adequados a compreensão da existência dada com a existência humana (Kerygma und Mythos, vol. II, p. 192).
  • O teólogo, ao interpretar o conteúdo da fé, depende de sua perspectiva filosófica porque traz à exegese dos escritos sagrados pressuposições derivadas da tradição do pensamento secular – consciente ou inconscientemente – e por isso Bultmann sustenta que deve examinar essas pressuposições para assegurar-se da filosofia “certa”, afirmando que é justamente a filosofia que analisa a compreensão do homem sobre sua própria existência que mais clarifica os conceitos básicos de interesse para o teólogo.
  • A abordagem existencial da teologia apresenta dois conceitos preliminares fundamentais para Heidegger e Bultmann, expressos em termos alemães sem equivalente preciso em inglês: o primeiro é Fragestellung – literalmente, a formulação da pergunta – pois o modo como uma pergunta é feita determina consequências para a resposta: um homem à beira do desespero que pergunta se existe Deus tem uma Fragestellung radicalmente diferente da do filósofo que, no conforto de seu estúdio, faz a mesma pergunta como questão acadêmica – um encontrará o Deus da oração e do culto, o outro o Deus da especulação metafísica; Bultmann declara que, ao ir à Bíblia, a pergunta que busca responder é a questão da existência humana (K. u. M., II, p. 191), e que inquire sobre Deus apenas enquanto significativo para o homem em sua existência (Th. des NT, p. 186), sendo os eventuais abismos do ser divino além dessa significação inacessíveis e fora do alcance da teologia.
  • A centralidade da existência humana na abordagem existencial ilustra-se na descrição que Bultmann faz da conversão de Paulo como ingresso numa nova compreensão de si mesmo (Th. des NT, p. 184), e na sua exposição de toda a teologia paulina como antropologia ou doutrina do homem (Th. des NT, p. 188) – o que não é a única maneira possível de expô-la, mas é a abordagem existencial típica.
    • Bultmann reivindica estar simplesmente seguindo o precedente do próprio Novo Testamento: na Epístola aos Romanos, Paulo começa descrevendo a situação do homem e a ela relaciona todo o seu ensino (Th. des NT, p. 296).
  • O segundo conceito é Begrifflichkeit – ora simples terminologia, como quando Bultmann observa que o gnosticismo forneceu aos missionários cristãos no mundo helenístico uma terminologia familiar aos ouvintes, ou que o culto sacrificial judaico ofereceu termos para expressar o significado da morte de Jesus (Th. des NT, pp. 163, 290) – mas mais tipicamente é o contexto de ideias expresso na terminologia, o sistema de conceitos básicos que uma investigação emprega para compreender seu objeto.
    • Toda disciplina – biologia, matemática, história – tem sua Begrifflichkeit especial; no sentido mais amplo, ela pode ser um sistema de categorias, como o elaborado por Kant na Crítica da Razão Pura, dominado pela categoria de substância, tal como toda Begrifflichkeit ocidental desde Aristóteles; Heidegger reconhece que o mérito de Kant é oferecer uma lógica concreta do campo da natureza (S. u. Z., p. 11).
    • A questão levantada pelos filósofos existencialistas é se essa Begrifflichkeit tradicional é adequada aos fenômenos da existência humana – a ideia de ser que ela implica pode ser inaplicável à existência humana, o que explicaria por que as ciências naturais avançaram enquanto as ciências humanas permanecem em obscuridade; convictos disso, os existencialistas buscaram elaborar uma nova Begrifflichkeit que permita compreender verdadeiramente o ser do homem, substituindo as categorias do mundo natural por novas categorias – ou melhor, existenciais, como Heidegger as chama – aplicáveis à existência humana.
  • Um exemplo simples é a constituição básica do ser do homem segundo Heidegger – o “ser-no-mundo”: a expressão usa terminologia de relações espaciais, mas Heidegger deixa claro que deve ser entendida em uma Begrifflichkeit inteiramente diferente – “ser-em” (Insein) não significa a relação da água no copo ou do casaco no armário, mas uma relação existencial: não que o homem esteja localizado no mundo, mas que está ligado ao mundo em sua existência (S. u. Z., p. 53); assim Heidegger mostra como o ser do homem difere do ser dos objetos na natureza e deve ser compreendido e descrito de modo diferente.
  • Os dois traços distintivos da abordagem existencial da teologia são, portanto: (a) a Fragestellung, que trata as questões teológicas como primariamente questões da existência do homem em relação a Deus e interpreta os escritos sagrados como enunciados que concernem primariamente à existência humana; (b) a Begrifflichkeit, o sistema de conceitos básicos derivado da filosofia da existência, que reivindica ter analisado em conceitos adequados a compreensão da existência dada com a própria existência.

4. Existencialismo e o Pensamento Bíblico

  • A análise de Paulo sobre o ser do homem como corpo, alma e espírito pode ser entendida de dois modos distintos conforme se conceba o ser do homem substancialmente – resultando em três partes ou elementos – ou existencialmente – resultando, com Bultmann, em uma unidade com diferentes modos possíveis de ser indicados pelos termos corpo, alma e espírito (Th. des NT, p. 205); a questão que se impõe agora é como o próprio Paulo entendia o que escreveu, e em que medida a abordagem existencial revela o pensamento autêntico dos escritores do Novo Testamento.
  • A tarefa do teólogo não é construir uma filosofia da religião, mas exibir clara e inteligivelmente o conteúdo genuíno da fé cristã histórica para sua própria época, sendo o Novo Testamento a fonte principal; os escritores do Novo Testamento também tinham seus pressupostos e compreensão preliminar do ser, e se a filosofia existencialista deve auxiliar o teólogo, é preciso mostrar que há afinidade entre a ideia de ser tornada explícita por essa filosofia e a ideia de ser implícita no pensamento dos escritores do Novo Testamento – caso contrário, a abordagem existencial imporia ao texto ideias estranhas a seus autores.
  • Existencialismo não é uma filosofia, mas um tipo de filosofia, suficientemente flexível para aparecer em formas tão diversas quanto o ateísmo de Sartre, o catolicismo de Marcel, o protestantismo de Kierkegaard, o judaísmo de Buber e a ortodoxia de Berdyaev; além disso, embora o nome seja relativamente recente, o tipo de filosofia não o é – Mounier construiu uma árvore genealógica do existencialismo com raízes que remontam à era pré-cristã; antes de Kierkegaard estavam Pascal e Maine de Biran; Copleston identifica uma escola com semelhanças existencialistas no final da Idade Média; Brock encontra traços do existencialismo nas reflexões de Agostinho sobre “a inquietação incessante que marca a vida temporal do indivíduo” (Contemporary German Philosophy); e há estímulos inegáveis do tipo existencialista na Grécia antiga, em Sócrates, ainda que não fossem a tendência dominante.
  • O existencialismo parece ser um dos tipos básicos de pensamento que reaparece ao longo da história da filosofia, enfatizando a diferença entre o ser individual do homem (Existenz) e o ser dos objetos na natureza (Vorhandenheit), que se presta à generalização e classificação, e afirmando a importância do primeiro em face do segundo.
  • O pensamento dos escritores do Novo Testamento enraíza-se principalmente no pensamento hebraico – o Novo Testamento só pode ser compreendido adequadamente contra o fundo do Antigo Testamento – e mesmo onde se discernem influências helenísticas, elas provêm sobretudo de um elemento não helênico do mundo helenístico, o gnosticismo; há um grande abismo entre os conceitos básicos do Novo Testamento, herdados do pensamento hebraico, e os da filosofia grega e da filosofia ocidental dela derivada.
  • Uma evidência preliminar dessa diferença está na forma dos escritos bíblicos: o pensamento grego e ocidental supõe que o conhecimento pode ser expresso em enunciados gerais, tendo como forma típica o tratado sistemático ou filosófico – o que quase não existe na Bíblia; os escritores bíblicos empregavam poesia, profecia, histórias de heróis nacionais e homens de Deus, mitos e outros gêneros para transmitir conhecimento, não fazendo enunciados gerais, mas confrontando os leitores com seres humanos individuais em situações existenciell – o que é compreensível se sua abordagem era existencial; é significativo que muitos existencialistas modernos tenham retomado métodos de ensino semelhantes aos dos escritores bíblicos: enquanto Heidegger tentou a descrição sistemática das estruturas da existência humana, Sartre usou o romance, o diário e o drama para transmitir seu ensino existencial por meio de situações existenciell.
  • Na compreensão bíblica, o homem não é simplesmente parte da natureza: embora tanto o homem quanto a natureza sejam criação de Deus e o homem em sua existência esteja ligado ao mundo, o ser do homem – feito à imagem de Deus (Gn 1,26) – é concebido como inteiramente distinto do ser da natureza; Eichrodt observa que “o homem não pode ser submerso na natureza, nem fundido nas leis do cosmos, enquanto permanecer fiel ao seu destino – o maior dom do Criador ao homem, o 'eu' pessoal, necessariamente o coloca, em analogia com o ser de Deus, a uma distância da natureza” (Man in the Old Testament, p. 30).
    • Essa compreensão está longe das tentativas gregas de classificar o homem no cosmos como animal racional, da noção cartesiana de res cogitans – que, embora distinta de res extensa, ainda permanece res, conceito objetivo que não faz jus ao “eu” pessoal feito à imagem do Criador – e está em oposição às tentativas modernas de entender o homem cientificamente como fenômeno natural; ao contrário, o ensino existencialista de que Existenz e Vorhandenheit são modos de ser fundamentalmente diferentes parece ter parentesco com a compreensão bíblica do homem, pois não o despersonaliza e faz jus ao “eu” pessoal individual.
  • Os temas principais do ensino bíblico sobre o homem – a responsabilidade individual diante de Deus (ilustrada por Eichrodt nas exigências reiteradas dos profetas por obediência pessoal e no protesto contra a redução da religião a um culto impessoal coletivo, op. cit., p. 21); a queda do homem de seu verdadeiro destino para a preocupação com a criatura; a consciência de culpa; o chamado à decisão; a natureza fugaz da existência temporal e sua terminação pela morte (ilustráveis, p. ex., em Gn 3,6; Sl 51,3; Js 24,15; Sl 103,15-16) – são notavelmente semelhantes aos temas principais da filosofia existencialista: a responsabilidade do indivíduo confrontado com a possibilidade de ser ele mesmo e a de perder-se, a queda (Fallenheit), a culpa, a resolução, a temporalidade e a morte, que figuram entre as estruturas constitutivas do ser do homem segundo Heidegger.
  • O conceito bíblico de Deus também confirma o parentesco entre o pensamento bíblico e o existencialismo: a Bíblia pensa Deus como pessoal e histórico – “Deus vivo” é expressão típica e significativa (p. ex., Sl 42,2) – conceito inteiramente diferente dos conceitos filosóficos gregos e ocidentais (Motor Imóvel, Primeira Causa, Absoluto Intemporal), que, quando influenciaram o pensamento teológico, obscureceram a compreensão bíblica autêntica de Deus; a diferença pode ser expressa dizendo que os conceitos filosóficos entendem o ser de Deus sob categorias de substancialidade, enquanto o conceito bíblico o entende sob categorias de existencialidade.
  • A conclusão é que há um parentesco entre a compreensão de ser implícita no pensamento bíblico e a compreensão de ser tornada explícita pela filosofia da existência – suficiente para mostrar que os pressupostos ontológicos de uma teologia como a de Bultmann não são estranhos aos dos escritores do Novo Testamento, que os herdaram da tradição veterotestamentária, de modo que a abordagem existencial de Bultmann ao ensino do Novo Testamento não deveria impor-lhe ideias estranhas, mas revelar seu significado autêntico tal como compreendido pelos próprios escritores.

5. Existencialismo e o Ensino de Jesus

  • Não é difícil encontrar elementos no ensino de Jesus que convidam à comparação com o ensino dos existencialistas: Jesus protestou contra a influência mortificante da tradição que tornara a observância da lei formal e externa – podendo assim, no Sermão da Montanha, estabelecer um contraste entre a lei e a vontade de Deus, que deveriam ser idênticas (Mt 5,21-22; cf. Th. des NT, p. 12) – e em lugar dessa observância formal exigiu obediência individual autêntica; de modo semelhante, os existencialistas protestam contra a aceitação cega das tradições e costumes da humanidade coletiva – das Man, na expressão de Heidegger – insistindo que o indivíduo deve compreender e decidir por si mesmo.
  • O pior que pode acontecer a um homem, segundo Jesus, é perder a si mesmo ao fixar o coração no mundo e perder sua própria alma; ao contrário, ele se salva quando volta a si e, pela renúncia ao mundo, encontra seu ser verdadeiro (p. ex., Mc 8,36; Lc 15,17; Mt 10,39) – o que se compara ao ensino existencialista de que o homem é confrontado com as possibilidades básicas de uma existência autêntica, em que encontra a si mesmo, e de uma existência inautêntica, em que o eu se perde e se dispersa na preocupação com o mundo.
  • O homem é pressionado a uma decisão radical: deve escolher entre Deus e o mundo (cf. Mt 6,24) – entre ser seu verdadeiro eu na obediência ao Criador e perder-se no serviço ao criatural; todo o ensino escatológico de Jesus sublinha a urgência da decisão; também no ensino existencialista a decisão radical ocupa lugar importante – é a resolução que unifica o eu e torna sua existência autêntica.
  • Embora haja afinidade entre o existencialismo e o ensino de Jesus, Bultmann parece apresentar esse ensino de modo demasiado estreito: Jesus não teria consciência de ser o Messias? Não há reflexo de tal consciência em seu ensino? Os homens teriam crido nele sem isso? Seu ensino não estava intimamente ligado à sua própria pessoa? Bultmann, como grande estudioso do Novo Testamento, foi levado por seus estudos críticos a negar a consciência messiânica de Jesus, mas sua atitude negativa diante dessas questões, combinada com sua preocupação pelos elementos existencialistas, sugere que pode estar inconscientemente enviesado em sua apresentação pela influência do existencialismo.
  • Henderson observa: “deve ter havido algo no Jesus histórico, no tempo em que estava na terra, para fazer as testemunhas do Novo Testamento convocar os homens a decidir por ou contra ele – e, se assim é, os fatos históricos sobre Jesus e o elemento mitológico em sua vida não podem ter o papel subordinado que Bultmann lhes atribui” (Myth in the New Testament, p. 49); é duvidoso que a fé cristã pudesse ter sido edificada sobre um Jesus histórico que, como Bultmann o apresenta, seria pouco mais que um mestre de filosofia prática com certas semelhanças com o existencialismo, despojado das características numinosas que os Evangelhos lhe atribuem.
  • Dos três perigos anteriormente apontados para o teólogo que aborda a fé cristã com pressuposições filosóficas, Bultmann parece estar em pouco perigo dos dois últimos – importar ideias estranhas ao cristianismo e acomodar a teologia à moda filosófica – mas seu tratamento do ministério de Jesus indica que pode estar em risco considerável do primeiro: a ênfase excessiva dos elementos do ensino cristão especialmente congeniais à sua perspectiva filosófica, com consequente negligência do que não é tão congenial e distorção do todo.

6. Uma Visão Preliminar da Posição de Bultmann

  • A defesa de Bultmann apoia-se em três fundamentos: o primeiro, e menos importante, é que ele simplesmente segue o precedente dos maiores teólogos do passado ao usar conceitos filosóficos contemporâneos na apresentação da fé cristã, sendo evidente que o existencialismo – que reintegrou à filosofia problemas que o positivismo lógico declararia pertencer ao domínio do sentimento (Copleston, Existentialism and Modern Man, p. 6) – tem possibilidades apologéticas; o segundo, mais importante, é que o existencialismo, ao analisar a constituição do ser do homem, mantém uma relação especial com o trabalho do teólogo, que deve fazer certas pressuposições ontológicas sobre o homem; o terceiro é que o que o existencialismo ensina sobre o ser do homem tem um parentesco com a compreensão implícita no pensamento bíblico, de modo que o teólogo que aborda a Bíblia com uma compreensão existencialista do ser tende a interpretar seu ensino de modo fiel ao pensamento autêntico dos próprios escritores bíblicos.
  • Uma abordagem puramente existencial da teologia é quase impossível, mesmo que fosse desejável: outras influências da longa tradição filosófica e teológica inevitavelmente penetram em qualquer apresentação da fé cristã; na obra de Bultmann detectam-se, além da filosofia da existência, uma forte influência evangélica e protestante – como Barth, Bultmann atribui grande importância ao conceito da Palavra, e o pregação e a escuta da Palavra ocupam posição central em sua teologia; sua perspectiva distintivamente protestante ilustra-se na interpretação dos sacramentos como “apenas um modo especial da proclamação da Palavra” (Th. des NT, p. 309); e há também influência notável do modernismo liberal, que aparece, por exemplo, em seu tratamento da ressurreição de Cristo, onde se combina com o existencialismo e precisa ser cuidadosamente desembaraçada para uma avaliação adequada do elemento existencial.
  • A notoriedade da desmitologização pode obscurecer o fato de que ela é apenas uma parte da obra de Bultmann e pode desviar a atenção de muito em sua teologia que não está diretamente ligado a ela mas é de considerável valor; além disso, a desmitologização só pode ser adequadamente compreendida à luz da posição teológica geral de Bultmann – ela é apenas uma consequência, ainda que muito importante, de sua abordagem existencial da teologia, e como tal será tratada no lugar apropriado.
  • Bultmann sustenta que não existe, a rigor, uma teologia unitária do Novo Testamento, mas várias teologias, cada uma com sua terminologia e ênfase próprias; dá lugar de destaque à teologia paulina, que expõe como doutrina do homem em duas partes – a vida do homem sem Cristo e a vida do homem na fé cristã – em paralelismo com Heidegger, que descreve primeiro a existência cotidiana ou inautêntica e depois passa ao problema da existência autêntica; a investigação seguirá essa mesma ordem, tomando a teologia paulina como fonte principal de ilustrações do Novo Testamento, mas recorrendo também aos escritos joaninos e outros quando necessário, a fim de examinar em que medida a análise ontológica da existência inautêntica cotidiana exposta na filosofia existencialista ilumina o ensino do Novo Testamento sobre o homem sem fé – o homem natural – e em que medida a ideia de existência autêntica elucida a teologia da vida de fé em Cristo.
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