4 Fato primitivo
LUIJPEN, William. Phenomenology and Humanism. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1966
O “Fato Primitivo” da fenomenologia existencial
[Introdução: o alcance esclarecedor de uma filosofia]
A medida em que uma filosofia pode esclarecer a realidade já está dada em seus primeiros passos, pois todas as possibilidades e impossibilidades de um sistema remontam ao seu ponto de partida, o “fato primitivo” (primitive fact; fait primitif).
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As insuficiências do materialismo, por exemplo, derivam de seu ponto de partida implícito ou explícito.
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A altura e a profundidade de compreensão alcançáveis por uma filosofia são determinadas, em última instância, por seu fato primitivo.
O “Fato Primitivo” como Princípio Unificador
Toda grande filosofia possui um ponto central de referência, uma intuição originária pela qual esclarece a complexidade do real, como se verifica na escolástica e em Descartes, Kant, Hegel e Bergson (Dondeyne).
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Nenhuma filosofia permanece imobilizada diante da complexidade originária do real imediatamente dado; se o fizesse, não passaria de descrição fortuita, “conto narrado por um idiota”.
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O filósofo busca a unidade subjacente à diversidade, desvela estruturas e visa compreender (Brunschvicg).
A intuição diretriz de um pensamento não é concebida conscientemente e depois aplicada, mas opera como pressentimento de fecundidade, sem deliberação explícita sobre sua origem, seu alcance ou seu destino.
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A esterilidade patente de uma forma anterior de pensar fornece frequentemente o impulso oculto para novos modos de pensamento.
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O novo modo de pensar permanece obscuro para si mesmo enquanto lança sua primeira luz tênue sobre os velhos problemas humanos.
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O psicólogo que percebe a esterilidade das explicações fisiológicas da puberdade vê o problema sob nova luz sem desviar-se dele para examinar essa luz, que só depois, e geralmente por outros, se torna tema expresso de investigação.
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Por isso a filosofia de Husserl e Heidegger pôde ser mais bem compreendida por outros do que por seus próprios autores.
A Existência como Penumbra
Grande parte da vida humana transcorre numa espécie de crepúsculo: como existência consciente, o homem sabe o que faz e, noutro sentido, não o sabe, não escapando a si mesmo sem ser inteiramente transparente para si.
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Filosofar é parte do viver e não é alheio à penumbra e à opacidade; um novo modo de filosofar anuncia um novo modo de viver, sempre acompanhado de opacidade e transparência, luz e sombra.
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A primeira tarefa do pensamento é exprimir a realidade; só secundariamente ele se volta sobre si para esclarecer-se, e o modo de exprimir o real torna-se objeto de exame apenas a posteriori.
Uma filosofia começa como movimento e estilo de pensamento, cuja intenção real só muito depois se esclarece, e no caso da fenomenologia existencial esse esclarecimento já se deu: seu fato primitivo é a ideia de existência ou, quase sinônima, de intencionalidade.
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O ponto central de referência tornou-se gradualmente claro após a fusão do existencialismo de Kierkegaard com a fenomenologia de Husserl no pensamento de Heidegger.
A Existência como Encontro, Diálogo, Participação, Presença
Os termos propostos para exprimir o fato primitivo da fenomenologia existencial visam sobretudo mostrar a impossibilidade de pensar o sujeito sem seu mundo ou o mundo sem referência ao sujeito.
O encontro é talvez o termo mais adequado, pois é impensável separar seus dois termos, inseparavelmente ligados.
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Não há encontro se o sujeito não encontra “algo” ou “alguém”, e estes não funcionam como termos do encontro sem o sujeito que encontra.
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A desvantagem reside em que, na linguagem comum, “encontro” designa a reunião de ao menos duas pessoas, embora como termo técnico possa designar também o encontro entre homem e objeto.
O diálogo exprime a existência como conversação da qual ambos os parceiros participam, de modo que a unidade entre sujeito e mundo é dialética, unidade de diálogo, fonte primordial de todo juízo filosófico ulterior.
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Suprimir um dos parceiros suprime o diálogo inteiro; nenhum pode ser pensado isoladamente.
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O diálogo é irredutível a elementos mais simples; todo passo redutivo além dele conduz ao nada, pois falar do polo-sujeito remete imediatamente ao polo-objeto e vice-versa.
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A expressão do diálogo como existência denomina-se dialética.
A participação (Marcel) e a presença (Merleau-Ponty e, por vezes, Marcel) exprimem o mesmo fato primitivo.
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Participação significa ao mesmo tempo “ter-parte-em” e “ser-parte-de”.
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A presença não pode ser pensada sem o “algo” ou “alguém” ao qual o sujeito se faz presente, nem tem sentido sem o sujeito.
A avaliação do futuro dessa filosofia exige interrogar o sentido real da intencionalidade ou existência, pois é esse ponto de partida que determina seu alcance.
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Cabe perguntar pela amplitude da base oferecida pelo conceito de existência, pelo que sobre ela se pode edificar, por seu “horizonte” e por suas verdadeiras dimensões.
A Existência e a Questão de Deus
A possibilidade de afirmar o homem como movimento-rumo-a-Deus e a existência de Deus não se decide ao fim do empreendimento filosófico, mas já em seu primeiro impulso, no fato primitivo.
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A questão de Deus e do sentido da religião aparece com frequência nos debates sobre forças e fraquezas da fenomenologia existencial.
Em Sartre e Merleau-Ponty, o ateísmo está inscrito desde o início, porque seu fato primitivo concebe a intencionalidade ou existência exclusivamente como unidade de implicação mútua entre sujeito e mundo.
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Sartre define explicitamente o existencialismo como ateísmo, mas esse ateísmo já está impresso em seus pressupostos iniciais, que impedem toda intelecção religiosa.
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Definir o homem como nada mais que projeto de seu mundo e possibilidade de engajamento em situações mundanas já é optar pelo ateísmo.
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Esgotado o sentido do homem em seu ser-no-mundo e declarado exclusivamente mundano o horizonte da existência, a afirmação de Deus reduz-se a uma aparência mundana absolutizada e divinizada ou a uma Transcendência degradada e mundanizada, deixando de ser o mínimo essencial que deveria ser: a afirmação do Transcendente.
O Deus rejeitado por Sartre corresponde a uma teologia estranha, que não permite compreender o Deus da religião, e certamente não o do cristianismo.
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Primeiro, Deus como “artesão superior” (artisan supérieur), super homo faber que, ao “produzir” o homem, lhe subtrai toda possibilidade de liberdade.
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Segundo, Deus como “olhar absoluto” (regard absolu), sob o qual todos os homens se convertem em objetos do mundo.
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Terceiro, Deus como identificação contraditória de em-si e para-si.
A crítica sartriana contém, porém, muito de justo, não quanto à comunidade religiosa em seu conjunto, mas quanto a certos membros, ao desvelar as misturas irreligiosas das convicções religiosas.
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É extremamente difícil pensar o Transcendente como verdadeiramente transcendente.
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A criação não se compreende por analogias com a produção de objetos, e a ideia de primeiro motor imóvel não é suficientemente sutil para acolher a subjetividade humana.
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A ideia de Deus como olhar absoluto é absurdamente inadequada; seu uso por certos pedagogos religiosos produziu efeitos bem conhecidos dos psiquiatras.
Seria o “Fato Primitivo” um A Priori Dogmático?
A tarefa crítica do filósofo exige examinar cuidadosamente a evidência, mesmo numa afirmação tão difundida como a de Deus, sem decidir o resultado da investigação antes de iniciá-la.
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Sartre e Merleau-Ponty são vítimas de um a priori prematuro que define a existência exclusivamente em relação ao mundano e decide sem mais as questões filosóficas decisivas, o que constitui dogmatismo.
Tampouco se trata de postular a priori, de modo acrítico, a inclusão de um domínio extramundano na intencionalidade, pois a orientação do sujeito para Deus só pode ser decidida após a reflexão filosófica, para a qual o ponto de partida deve deixar espaço.
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Excluir essa reflexão por limitações impostas ao fato primitivo é procedimento intolerável.
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O fato primitivo de uma filosofia deve ser acolhido numa atitude de fidelidade ao real; sem ela, resta apenas dogmatismo.
O fato primitivo da fenomenologia existencial é a intencionalidade ou existência como abertura do sujeito ao que ele próprio não é, abertura cujo momento essencial, mas não necessariamente exclusivo, é a unidade de implicação mútua entre sujeito e mundo.
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Todos os objetos materiais pertencem ao domínio daquilo que o sujeito não é.
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A abertura ao mundo não precisa ser fechada nesse ponto de modo a excluir o extramundano.
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Os termos encontro, diálogo, participação e presença podem ser mantidos, pois possuem flexibilidade suficiente para serem usados em sentido ampliado, caso a reflexão ulterior o exija.
